‘Correios’ das favelas atinge marca de R$ 1 bilhão em entregas

Favela Brasil Xpress já entregou mais de 1,5 milhão de pacotes em 7 comunidades.

Gilson Rodrigues, do G10 Favelas: “A verdade é que as favelas vivem sob um embargo econômico, tratadas como um não cliente pelos bancos” — Foto: Divulgação

Foi quando tudo fechou e as pessoas foram orientadas a ficar em casa para se proteger do coronavírus que a Favela Brasil Xpress (FBX), apoiada pelo hub de inovação G10 Favelas, surgiu com missão nada simples: chegar aonde transportadoras contratadas pelo e-commerce não operam. Primeira empresa listada na Bolsa de Valores das Favelas, a startup de logística alcançou, em julho, a marca de R$ 1 bilhão em valores de entregas de mercadorias – com mais de 1,5 milhão de pacotes.

A iniciativa cobre hoje 7 favelas no país, com serviço last mile – tecnologia que auxilia empresas de logística com aplicativos e sistemas que rastreiam produtos, do estoque às mãos do cliente – feito por cerca de 250 profissionais dessas mesmas regiões. Desde sua fundação, em 2021, já movimentou perto de R$ 10 milhões – parte será direcionada a frentes de expansão, incluindo a criação de 50 novas bases no país.

O pontapé na empreitada foi em Paraisópolis, segunda maior favela de São Paulo, atrás de Heliópolis. Para colocar o projeto de pé, a FBX ficou responsável pela coleta de dados e fixação de placas com novos endereços digitais. A empresa já fazia entrega de encomendas, mas, após o cadastramento do código usado dentro do Google Maps, a localização dos endereços nas comunidades ficou mais fácil.

A equipe passou por treinamento oferecido pelo Google para, entre outras ferramentas, atualizar o mapa com as vias. A partir daí, mais de 14 mil Plus Codes gratuitos foram criados, integrados ao Google Maps e Waze. A FBX foi pioneira em implantar o projeto Plus Codes no país, tendo Paraisópolis como porta de saída.

Nós estamos em bolsões de pobreza que geram riqueza”
— Gilson Rodrigues

Muitos brasileiros empreendedores vivem em favelas. Em grande número, são empregadores e com enorme potencial de consumo, mas privados dos serviços de entrega postal convencionais. Em parceria com o G10 Favelas, grandes varejistas e o Google, a empresa conseguiu, portanto, superar a barreira dos CEPs bloqueados e levar dignidade às pessoas dessas localidades.

Não é uma economia nada desprezível, aliás. A renda das mais de 13 mil favelas brasileiras, segundo a pesquisa Data Favela 2023, movimentou em torno de R$ 200 bilhões em 2022, R$ 12 bi a mais frente a 2021. A pesquisa nacional aponta que, se formassem um Estado, essas comunidades seriam o terceiro maior do Brasil em população – o número desses conglomerados urbanos no país dobrou na última década, com precisamente 13.151 mapeados.

“Nós estamos em bolsões de pobreza, que geram riqueza. Mas a verdade é que as favelas vivem sob um embargo econômico, tratadas como um não cliente pelos bancos. É como dizer que os bilhões gerados nas favelas são diferentes dos bilhões que os bairros geram”, diz Gilson Rodrigues, presidente do G10 Favelas.

Com nome inspirado nos grupos de países ricos e emergentes – G7 e G20 -, o G10 favelas surgiu pouco antes da pandemia, em 2019, sendo responsável, atualmente, por 28 negócios de impacto social no país em ramos como beleza, moda logística, financeira, alimentação. Os idealizadores mal sabiam, à época, o quanto a estrutura, mesmo já se apresentando como algo transformador, seria tão essencial nos anos seguintes.

“A crise da pandemia acabou, mas deixou sequelas. E a melhor forma de ajudar mulheres e jovens pobres é fazer com que tenham dinheiro no bolso”, afirma Rodrigues. Nascido em família de Paraisópolis, o empreendedor gosta de festejar feitos e números do G10 Favelas em grande estilo. Cavou a chance de levar – e conseguiu – cases como o FBX a uma apresentação em Cannes, na França, a meca do empreendedorismo cinematográfico internacional. “Fomos lá dizer que nós existimos”, diz ele.

Também tocou, durante a Semana das Favelas do Brasil em Nova York, no ano passado, o sino que abre o pregão da Bolsa de Valores de NY (NYSE), privilégio para seletos convidados. “A ideia era falar da favela rica e potente, mostrar que temos empreendedores e queremos investimento. Tocamos o sino como empresas que fazem IPO.”

FONTE: https://valor.globo.com/publicacoes/suplementos/noticia/2023/08/08/correios-das-favelas-atinge-marca-de-r-1-bilhao-em-entregas.ghtml


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