jun 09

Nossa relação com o escritório não será a mesma

Muitas empresas e especialistas em recursos humanos têm se reunido para discutir os efeitos da pandemia e tentar compreender o que será o tal do “novo normal” na sociedade e no ambiente coporativo. O que já temos como certo é que muitas adaptações e quebras de padrões terão de ser feitos e a volta ao espaço de trabalho não poderá ser pensada tendo como parâmetro o modelo anterior à pandemia. Nosso relacionamento com o escritório definitivamente não será mais o mesmo.

Apesar de o home office já fazer parte da rotina de muitas organizações, a grande maioria das empresas está lidando com a realidade do trabalho remoto em larga escala pela primeira vez. E muitos líderes também estão pela primeira vez encarando o desafio de estabelecer relações de confiança com suas equipes sem o controle de horas trabalhadas ou da presença física.

Ao que tudo indica, este é um caminho sem volta. Um estudo realizado pela consultoria americana Valoir mostrou, por exemplo, que apesar das distrações e problemas de tecnologia, o trabalho remoto na quarentena teve um impacto muito pequeno na produtividade – apenas cerca de 1% entre as 341 companhias pesquisadas (principalmente nos EUA). Além disso, mais de 40% dos trabalhadores entrevistados disseram que gostariam de fazer home office em tempo integral no futuro.

Adensados, até mesmo por uma necessidade de redução de custos em função da crise econômica gerada pela pandemia, os escritórios tendem a se tornar grandes espaços para criação, locais para reuniões estratégicas que precisam de interação do grupo. Em vez de postos de trabalho, muitos deles possivelmente serão apenas áreas para a interatividade.

Tudo isso, por um lado, traz uma carga enorme de incerteza para os profissionais de recursos humanos frente à legislação trabalhista, para os gestores, pela mudança na forma de se exercer liderança e, para o trabalhador, pela sensação de se estar sozinho sem fronteiras. Neste sentido, profissionais mais velhos e tradicionais tendem a sofrer mais com a adaptação do que a nova geração, esta já acostumada ao isolamento com seus fones de ouvido e conversas via chat com colegas sentados ao lado.

 

Agora, vamos pensar pelo lado positivo: isso tudo pode ser muito bom. As organizações serão obrigadas a rever o conceito de produtividade. Métricas de produtividade terão de incluir felicidade!

Um estudo da Universidade de Melbourne realizado em 2018 em diferentes partes do mundo mostrou que gestores que dão mais liberdade e autonomia aos seus subordinados, ao invés de controle, formam equipes mais motivadas, produtivas, criativas, engajadas e leais. Como consequência, promovem ambientes com pessoas mais felizes e com maior sensação de bem-estar.

“Foco no destino, e não na jornada”, destaca um artigo recente do empreendedor norte-americano Mitchell Demeter na revista “Fast Company”. “Combine a logística básica: local de encontro, horário de chegada, bagagens essenciais. E então deixe seus funcionários escolherem como querem chegar lá. Alguns podem querer ir de motocicleta, outros podem escolher voar ou até mesmo dirigir seu carro à noite. Se os veículos escolhidos, os horários do dia e as rotas que os funcionários escolhem levam todos a um mesmo lugar, então só há benefícios se eles tiverem a liberdade que desejam para ter mais prazer na jornada”, diz Demeter nessa ótima analogia.

A frase do empresário, um dos pioneiros no mundo dos bitcoins, reforça o ponto importante que nem tudo é bom para todos, e cabe às organizações gerenciar as potencialidades e o DNA de cada um de seus funcionários, individualmente. Dá mais trabalho do que gerenciar o grupo todo da mesma forma? Sim, dá. Mas os resultados podem ser surpreendentes.

Encerro este artigo, que nas minhas contas é o número 100 desta coluna, abrindo um parênteses para elogiar o esforço hercúleo e surpreendente que as organizações brasileiras de todos os portes e setores fizeram para se adaptar, em tempo recorde, ao home office nessa magnitude no meio desta pandemia avassaladora. Merecem aplausos.

FONTE: valor.globo.com