mar 11

NÃO É MAGIA, É TECNOLOGIA: A HOLOBOX “DÁ VIDA” A BONECOS COLECIONÁVEIS COM PROJEÇÕES DE HOLOGRAMA

O mineiro Bruno Zanetti Westin, 37, é de uma geração que cresceu assistindo a animações; Dragon Ball era uma de suas prediletas. Até pouco tempo, ele não poderia imaginar que um dia trabalharia com action figures — ou para os leigos, bonecos articulados colecionáveis que representam personagens de desenhos, games, filmes e séries.

Bruno é designer gráfico e não cria de fato esses bonecos (tarefa a cargo de fabricantes como BandaiIron StudiosNECA e Funko). Em vez disso, sua startup — a Holobox, fundada em 2015 — “dá vida” a personagens como Thor, Elsa e até R2-D2, reproduzindo suas habilidades com um projetor portátil que pode transformar a estante de casa em uma vitrine para um show de som e luz.

Basta colocar os action figures na caixa desenvolvida por Bruno e os hologramas projetados no computador dão conta do resto. Permitindo, assim, que o Deus do Trovão faísque raios pelos olhos, a Rainha de Arendelle solte gelo pelas mãos, ou que o robozinho de Star Wars projete, para seu amigo C-3PO, os planos secretos da Estrela da Morte.

O negócio não surgiu na vida do empreendedor como num passe de mágica. Na verdade, ele estava com um projeto parado na gaveta e nem imaginava que tinha um produto em mãos. Foi o mercado que cobrou dele uma atitude.

O PROTÓTIPO FOI CRIADO INICIALMENTE PARA UMA MARCA DE RELÓGIO

Nascido em Poços de Caldas (MG), Bruno sempre teve perfil empreendedor. Aos 16, antes mesmo de cursar Design Gráfico na FUMEC, em Belo Horizonte, ele já montava sites para amigos da família. Depois de 13 anos de carreira, decidiu investir no próprio escritório e fundou a ZW Design em 2011.

“Nunca fomos um escritório de design tradicional. Desde o começo, misturamos design com tecnologia e essa característica foi tomando força ao longo dos anos”

Foi essa linha mais “fora da caixinha” que permitiu à equipe apresentar, em 2014, uma campanha publicitária para a marca de relógios Seculus que se passava justamente em uma caixa de holograma.

Goku “ganha vida” no Holobox One: um vídeo viral com o personagem deu visibilidade à tecnologia.

A empresa tinha desenvolvido uma linha mais moderna de relógios e queria algum recurso chamativo em seus pontos de venda para destacar a resistência do produto.

A partir dessa ideia, a ZW Design criou do zero o próprio protótipo de projetor holográfico usando madeira e acrílico e bolou efeitos de raios e trovões que “atingiam” o relógio, ilustrando assim sua capacidade de resistir a situações extremas.

“A Seculus adorou o resultado, mas era ano da Copa do Mundo no Brasil e, em vez de o evento impulsionar as empresas, houve uma crise muito forte. No final, a proposta não foi usada por conta de cortes de orçamento do cliente”, diz Bruno.

A PRÉ-ESTREIA DA STARTUP FOI UM VÍDEO VIRAL “ESTRELADO” POR GOKU

Mergulhado no universo dos hologramas, Bruno continuou estudando o equipamento mesmo após o fim do projeto. E resolveu, um dia, colocar dentro da caixinha de madeira projetora um boneco do Goku que enfeitava a mesa de um de seus funcionários.

“Em vez de ficar apenas imaginando os superpoderes — aquela aura amarela do Goku, como se ele estivesse pegando fogo –, resolvi materializar aquilo no computador”

Em três noites, a metodologia foi criada. “Colocava o boneco na caixa, fazia o mapeamento da posição dele, levava para dentro do computador, criava as imagens em holograma e devolvia isso para o projetor. Funcionou super bem, mas aquilo ficou meio parado. Então, resolvemos ligar na festa de fim de ano da empresa como parte da decoração”, lembra

O enfeite da festa da firma fez tanto sucesso que ganhou um vídeo para as redes sociais. De 90 visualizações no primeiro dia, a gravação chegou a 400 no segundo, 1 500 no terceiro, 50 mil no quarto…

“Tivemos quase 20 milhões de visualizações em menos de três semanas, atraindo a atenção de gente em uns 90 países, em todos os continentes… Inclusive da fabricante do action figure que detém a licença para explorar a franquia no mundo. E eu nem sabia que estava vendendo alguma coisa”

A fabricante do action figure era a japonesa Bandai que entrou em contato para saber mais sobre o projetor holográfico. E assim, meio no “susto”, nascia em 2015 a Holobox. Naquele momento, porém, várias dúvidas formigavam na cabeça do empreendedor.

UMA IMERSÃO EM NOVA YORK TROUXE CLAREZA SOBRE O MERCADO

Como transformar aquele protótipo em um produto comercializável? Quais licenças seria preciso adquirir para usar os bonecos? Como sistematizar a operação de uma empresa, a ZW Design, que trabalhava com serviços, para uma mentalidade com foco em produto?

Bruno decidiu que a melhor coisa seria transformar a Holobox em uma spin-off. A ZW Design seguiria como um escritório parceiro, produzindo a parte gráfica do trabalho da startup. Além de Bruno, que assumiu a função de CEO, dois sócios embarcaram no novo negócio: seu irmão, Adriano Zanetti Westin, 35, e Sirley Filho, 42.

Para se inteirar do universo em que estava entrando, o designer gráfico começou a frequentar feiras de franquias. E descobriu que os Estado Unidos são o maior mercado consumidor de action figures, um segmento que movimenta mundialmente 5 bilhões de dólares por ano, de acordo com a The Toy Association.

“Fui morar em Nova York durante dois meses, batendo de porta em porta nas lojas de colecionáveis, apresentando o Holobox e procurando entender o consumidor destes produtos. E assim compreendi o que precisávamos fazer para transformar nosso protótipo em produto”

Dos 16 estabelecimentos visitados nessa imersão, só um não tinha visto o vídeo viral. E Bruno sacou que o mercado a ser explorado era o americano — enquanto os EUA representam 25% desse nicho, o Brasil tem apenas 3,8%.

PARA ESCALAR, ERA PRECISO CRIAR UMA BIBLIOTECA DE PROJEÇÕES

Depois de mergulhar no segmento e conversar com diversos especialistas, entre eles Renan Pizii, cofundador da CCXP, Bruno entendeu que seu hardware teria que funcionar com diferentes bonecos, pois um colecionador não iria investir em um projetor para apenas um único action figure.

Para escalar, ele precisaria desenvolver uma biblioteca na qual os clientes pudessem fazer downloads pagos dos respectivos bonecos que quisessem ver animados. E oferecer, também, opções para quem não é tão fã dos colecionáveis — entram aí as animações que não precisam de bonecos, como lareira, aquários, bolhas, aurora boreal etc.

Assim, a Holobox desenvolveu um sistema operacional complexo, com iluminação dinâmica, som volumétrico (é possível perceber sons que estão à frente e atrás) e suporte (para apoiar objetos e personagens que flutuam).

Em paralelo, a startup começou a produzir outros hologramas — Harry Potter é um dos que estão hoje em desenvolvimento — e entrou no programa de aceleração do FIEMG Lab.

ARRECADAR FUNDOS PELO KICKSTARTER ACABOU NÃO DANDO CERTO

Fabricar o equipamento é custoso. Para levantar grana, o empreendedor apostou suas fichas na Kickstarter, a plataforma de crowdfunding mais renomada do planeta.

Bruno precisou criar um endereço fiscal nos Estados Unidos, para viabilizar a campanha. A meta era alcançar 200 mil dólares. O plano, porém, não saiu como o esperado:

“Mesmo depois de muito esforço, só alcançamos 20% do objetivo. Após esse baque, assumimos os riscos e abrimos a venda direta em nosso e-commerce”

Assim, os custos para produzir as primeiras oito encomendas — quantidade de pedidos que haviam recebido pelo Kickstarter — foram arcados com bootstrapping. O lado bom é que, sem a plataforma de crowdfunding na jogada, não haveria atravessador no negócio.

Foram cerca de 150 mil reais diluídos na operação da ZW Design, já que na época a mesma equipe trabalhava nas horas vagas para a Holobox.

A startup prometeu entregar o produto em quatro meses. Acabou levando quase oito, por atrasos com peças que vinham da China e falhas no hardware.

Mas até aí tudo bem, pois logo viria uma notícia boa: a Holobox se tornara finalista na aceleração do FIEMG Lab, conquistando uma bolsa, a residência num coworking e o aporte de 165 mil reais do BMG, um dos financiadores do programa.

OS PRIMEIROS PROJETORES VENDIDOS QUEBRARAM NO CAMINHO

Depois de concluírem a fabricação, mesmo com os quatro meses de atraso, a primeira remessa, oito unidades da Holobox, estava pronta para ser despachada a compradores de sete países.

“A equipe estava muito animada. Registramos tudo em fotos. Foi emocionante”, lembra Bruno.

A alegria, no entanto, durou pouco. Apesar de terem seguido as instruções de embalo dos Correios e contratado seguro, todos os equipamentos, cada um com 15 quilos, chegaram quebrados aos destinatários.

“Para nossa surpresa, conseguimos salvar um projetor, enviado para a Cidade do México. O sistema estava com energia, mas não ligava. O cliente topou abrir o aparelho e, numa chamada de vídeo, passamos as instruções para fazê-lo funcionar, mesmo estando muito amassado. No fim, ele ficou satisfeito”

A maioria dos compradores, porém, não teve a mesma sorte:

“Tivemos que devolver a taxa de envio e a de alfândega, o que aumentou ainda mais nosso prejuízo. Depois, contratamos outra empresa de transporte com um custo três vezes maior, mas que usava as mesmas caixas. Ou seja, o erro não estava nas nossas embalagens.”

O PROBLEMA NO ENVIO INSPIROU A CRIAÇÃO DE UMA VERSÃO MAIS LEVE

Recuperado do tombo, Bruno viu que seria prudente criar uma versão mais leve. Assim, a startup desenvolveu um segundo produto, mais compacto.

O projetor da Holobox fazendo sucesso na CCXP: a startup exibiu hologramas nas pré-estreias paulistanas de Star Wars: Os Últimos Jedi e Thor: Ragnarok.

O Holobox Slim tem 5 quilos, 23 centímetros de largura, 26 de altura e 32 de profundidade. Ou seja, basicamente um terço do tamanho da versão original. A única diferença de formatação da imagem gerada é que ela não conta com a visão lateral dos personagens.

Falando em preços, o Holobox One — a versão mais robusta, com uma caixa transparente em forma de pirâmide — custa 1 700 dólares e vem com 16 hologramas pré-instalados. O Slim, por sua vez, sai por 1 000 dólares e vem com apenas um holograma. É possível fazer o download de outros pagando entre 5 e 40 dólares.

Somadas as duas versões, um total de 45 unidades já foram vendidas para 19 países incluindo Estados Unidos, França, Bélgica, Austrália, Japão e Índia. Apenas três delas foram compradas por clientes aqui no Brasil.

A META É SER MAIS DO QUE B2C (OU “BUSINESS TO COLECIONADORES”)

A Holobox já fez parcerias com a Disney e a Marvel nas pré-estreias paulistanas de Star Wars: Os Últimos Jedi e Thor: Ragnarok, ambos lançados aqui em 2017.

Bruno, porém, diz que o foco não é vender apenas para entusiastas do “mundo nerd”, e sim fortalecer outra ponta de atuação: a oferta de soluções para marcas.

O primeiro cliente B2B foi a Huawei, há dois anos, quando a empresa chinesa lançava um roteador. O CEO da startup mineira explica:

“Colocamos o equipamento dentro da Holobox e criamos imagens com as características do roteador, citando a presença da Huawei no Brasil. Isso ficou rodando em shoppings. Nesse caso, a gente vendeu o hardware e cobrou pelo serviço de desenvolvimento do holograma, como cobraríamos pelo desenvolvimento de um vídeo publicitário”

Outro produto que ganhou “poderes” no projetor da Holobox foi um tênis da Adidas. A marca queria mostrar as características especiais de seu pisante e escolheu a startup para montar uma apresentação especial.

Bruno conta que a startup também tem sido procurada por empreendimentos imobiliários, interessados em trocar as maquetes por projeções holográficas.

OUTRAS APLICAÇÕES: PALESTRAS À DISTÂNCIA E SHOWS PIROTÉCNICOS

Existe ainda uma terceira versão do aparelho, para projeções em tamanho real. Batizado de Holobox XL, tem sido por enquanto disponibilizado apenas para locação.

Um dos usuários é Renato de Castro, especialista em smart cities. Radicado hoje na Itália, ele faz uso da tecnologia para palestrar aqui no Brasil sem precisar entrar em um avião (confira um vídeo de uma “aparição holográfica” de Renato em um evento do Sebrae). Bruno explica:

“A gente criou um projetor de 1,70 metro e leva o equipamento para o local de exibição. Na outra ponta, o orador coloca seu celular em um tripé e utiliza a técnica de chroma-key em uma chamada de vídeo, para aparecer sobre o palco. O público pode fazer perguntas e até tirar selfies com o palestrante”

A tecnologia também turbina apresentações de música, com efeitos dignos de uma versão pocket da Industrial Light & Magic. Em 2019, a startup desenvolveu um holograma para o show de um rapper norueguês (sim, existem rappers na Noruega e eles também cantam os perrengues que vivenciaram).

Susanoo “em ação” no show de Arif Salum: com 3 metros de altura, é o maior holograma criado pela Holobox.

Arif Salum, o rapper, é fã do desenho Naruto. Seu desejo era que um holograma do Susanoo — um espírito protetor do personagem Sasuke — aparecesse ao seu redor, durante a performance da música “Sommeren Var Den Varmeste”, que fala sobre a perda de amigos para as drogas.

Pedido feito e atendido. Maior holograma já criado pela Holobox, o Susanoo — um esqueleto roxo de olhos flamejantes e 3 metros de altura — rodou a Europa “aterrorizando” o público nos shows da turnê do músico escandinavo.

O PLANO AGORA É ABRIR ESCRITÓRIO NA CHINA E REDUZIR OS CUSTOS

Em 2019, a startup faturou 282 mil reais com a venda dos equipamentos e dos hologramas avulsos. Pouco ainda para o potencial da tecnologia. Um empecilho é o custo alto de fabricação no Brasil. Por conta disso, Bruno quer levar a operação para a China. E “meio caminho” já foi percorrido.

No ano passado, ele inscreveu a Holobox num edital do StartOut Brasil. Aprovado, embarcou em dezembro numa missão a Xangai. Durante seis dias, com apoio da Apex e de representantes da diplomacia brasileira, Bruno teve a chance de apresentar seu produto ao ecossistema chinês .

Agora, conta que está analisando propostas de dois parques tecnológicos que querem abrir a Holobox no país asiático ainda no primeiro trimestre de 2020.  Outra meta é participar da Expo 2020, a feira multissetorial que será realizada em Dubai entre outubro deste ano e abril de 2021.

“Queremos focar na nossa solução B2B, mostrando oportunidades na área da educação e saúde. Para a medicina, por exemplo, podemos criar uma maca com um esqueleto e ajudar a visualizar onde ficam os órgãos, recobrir esse esqueleto com pele… E por aí vai”

Holográficas ou puramente especulativas, as projeções de Bruno não param. As aplicações para sua tecnologia são várias. O limite é a imaginação.

FONTE: DRAFT