ago 07

Inteligência artificial e redes colaborativas no combate à violência contra a mulher

Surgem novas startups, com diferentes tecnologias, para combater a violência contra a mulher

No Brasil, só no ano passado, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram tentativa de estrangulamento. Os dados são de um levantamento do Datafolha encomendado pela ONG Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Neste cenário, a tecnologia surge como uma ferramenta que pode ajudar e até mesmo salvar vidas em momentos de emergência.

É o caso do Malalai, um aplicativo que analisa a segurança da rota planejada pela usuária em seu deslocamento pela cidade. O sistema analisa cinco questões referentes ao caminho desejado: se as ruas são movimentadas; se há policiamento fixo nas proximidades; se existem edifícios com porteiros ou estabelecimentos comerciais abertos; se há trechos com má iluminação pública; ocorrências de assédios reportadas ao longo da rota sinalizada.

As informações apresentadas no aplicativo são geradas de forma colaborativa pelas próprias usuárias da ferramenta.

Dos 10 países mais violentos do mundo para mulheres, sete estão na América Latina. O Brasil ocupa a quinta posição, com um agravamento dos índices entre mulheres negras, em média, 24% maior. “Acredito haver uma conexão entre cultura patriarcal, desigualdade social e, no caso do Brasil, racismo, que coloca estas mulheres em situação de maior vulnerabilidade”, diz Priscila Gama, fundadora do Malalai.

Priscila Gama, fundadora da Malalai

A Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, define a violência contra mulheres como “qualquer ato ou conduta baseada no gênero, que cause morte, dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico à mulher, tanto na esfera pública como na esfera privada. A ativista de Direitos Humanos e presidente da Comissão da Mulher Advogada da OAB SP, Claudia Luna, ressalta outras formas de agressão ao público feminino.

“No caso das mulheres LBTs (lésbicas, bissexuais e transexuais), temos uma violência mais específica que são os estupros corretivos e coletivos, que tem por objetivo corrigir a sexualidade destas pessoas. Quando uma mulher lésbica sofre um estupro, a mensagem é a de que através do ato sexual violento ela seria corrigida da sua homossexualidade, a ponto de aprender a ser a mulher que ela não é”, diz Claudia.

Transporte com segurança 

Quase todas as mulheres brasileiras (97% delas mostra um estudo deste ano do Instituto Locomotiva e do Instituto Patrícia Galvão) já sofreram algum tipo de assédio no transporte público e privado no Brasil. “O simples fato de ser mulher e usuária de transporte público nos coloca em risco”, diz Simony Cesar, fundadora do NINA Mobile, tecnologia que nasceu para mapear e denunciar os casos de assédio que acontecem no transporte público.

Simony Cesar, do Nina Mobile

O projeto NINA surgiu em 2016 enquanto Simony estudava na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). O nome foi uma homenagem a cantora americana Nina Simone, famosa ativista pelos direitos civis dos negros e das mulheres. Com os primeiros testes dentro do campus, ficou claro que a NINA deveria ser um software integrado, que pode ser inserido em outros apps, como uma espécie de botão e/ou ícone. Deste modo, a tecnologia conectaria usuários, empresários de diversos aplicativos de transporte e o poder público para que possam dar respostas efetivas de forma emergencial, mas também preventiva.

“Acabamos de publicar os primeiros resultados da utilização da tecnologia NINA no aplicativo Meu Ônibus em Fortaleza para denunciar assédio sexual. Foram quase 1 mil denúncias em quatro meses de operação, o que dá uma média de um caso a cada três horas. As vítimas são mulheres e 56% das ocorrências acontecem dentro dos ônibus. As demais, acontecem nas paradas e terminais” diz Simony.

App no Financial Times

E não é somente no transporte público que os crimes acontecem. Conversei também com a Gabryella Corrêa, fundadora da Lady Driver, serviço de transporte exclusivo para mulheres, em que todas as motoristas também são mulheres.  Assediada por um motorista chamado via aplicativo, Gabryella transformou a experiência em solução que ajuda a proteger outras mulheres de viverem a mesma experiência.

Gabryella, CEO da Lady Driver

“Temos um cadastro rigoroso, por meio do nosso sistema checamos a veracidade do cadastro na polícia e na Receita Federal. Se não for real, a passageira não consegue finalizar o cadastro e chamar uma corrida. Esse método é extremamente seguro e graças a ele não temos violência e assédio dentro do nosso app”, diz Gabryella.

A empresa está concentrada somente em São Paulo, mas já tem mais de 1 milhão de downloads, mais de 45 mil motoristas cadastradas e faturamento de R$ 10 milhões em 2018. A Lady Driver foi eleita pelo jornal Financial Times o maior app de transporte feminino do mundo.

Mulheres Negras

Segundo Maria Sylvia, presidente da Geledés – Instituto da Mulher Negra, os números de feminicídio contra mulheres negras indicam que o racismo é um fator que impacta de forma letal as mulheres negras. “A vulnerabilidade social é consequência direta das desigualdades no Brasil. Essas vulnerabilidades são um forte obstáculo, dificultam o acesso das mulheres a políticas públicas que as ajudem a sair de situações de violência”, diz.

Para a advogada Patrícia Barreto, coordenadora do Oi Advogado, um app que conecta pessoas comuns a advogados para resolver questões jurídicas, a vulnerabilidade social pesa não só para as mulheres, mas para as minorias. “Não deixe de procurar um profissional especializado e denuncie o agressor”, diz.

Minha Amiga Inteligência Artificial

Priscila Caldas, idealizadora do aplicativo ELA – que deve ser lançado no segundo semestre deste ano – passou por violência doméstica durante quatro anos. Primeiro foi o ciúme, depois o afastamento, as restrições e por último a agressão física. “Desde quando consegui sair, eu queria ajudar mais mulheres. Então assisti a um filme chamado HER e vi que poderia unir a tecnologia e a psicologia num só lugar. Como eu acabei entrando no mundo tecnológico, decidir fazer um aplicativo com todos os verdadeiros recursos que as pessoas que passam por isso precisam”, conta.

Muitas outras iniciativas também surgiram neste ano, como a parceria entre o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Microsoft, que lançaram a campanha #NamoroLegal. Idealizada pela promotora de Justiça Valéria Scarance, coordenadora do Núcleo de Gênero do MPSP. A ação reúne uma série de dicas para que adolescentes consigam identificar possíveis situações de abuso antes que se tornem violência física.

Além de uma cartilha reunindo as informações, o projeto tem como protagonista a MAIA (Minha Amiga Inteligência Artificial), uma assistente virtual que conversa sobre relacionamentos abusivos de uma forma leve e descontraída.

“Mesmo mulheres adultas, muitas vezes, só percebem que estão em uma relação abusiva quando já estão sofrendo muito, isoladas da família e dos amigos, afastadas do estudo, do trabalho e sem amor próprio”, diz Valéria Scarance, coordenadora do Núcleo de Gênero do MPSP.

Relacionamentos Tóxicos 

Renata Albertim, fundadora do Mete a Colher

Segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre os casos de violência contra a mulher no Brasil, 42% ocorreram no ambiente doméstico e após sofrer uma violência, mais da metade das mulheres (52%) não denunciam o agressor ou procura ajuda.

Foi pensando neste cenário que um grupo de mulheres criou o aplicativo Mete a Colher – uma rede colaborativa que auxilia mulheres que vivenciam a violência doméstica. O aplicativo conecta mulheres que precisam de ajuda com outras que podem oferecer apoio de forma voluntária.

“As plataformas digitais vêm ganhando espaço porque conseguem garantir uma rede de apoio segura. O nosso app, por exemplo, exige senha para acesso e as conversas são apagadas a cada 48 horas”, diz Renata Albertim, CEO e cofundadora do Mete a Colher.

Outra iniciativa idealizada no mesmo ano do Mete a Colher (2016) foi o Mapa do Acolhimento, fundado porum grupo de ativistas em resposta ao estupro coletivo de uma adolescente no Rio de Janeiro. A plataforma conecta mulheres que sofreram violência e não podem pagar pelo atendimento a psicólogas e advogadas dispostas a acolhê-las gratuitamente.

“O Estado não consegue dar conta da demanda e da urgência do acolhimento a mulheres que sofrem ou sofreram esse tipo de violência. O Mapa surge como uma rede de solidariedade com o objetivo de não deixar que nenhuma mulher fique desamparada”, diz Larissa Schmillevitch, coordenadora do projeto.

A psicóloga Pamela Magalhães conta que nem sempre é fácil reconhecer um relacionamento tóxico. “O abusador pode deixar marcas visíveis com a violência física ou marcas não visíveis, por meio da violência emocional. É possível perceber por críticas exageradas, comportamentos manipuladores, torturas psicológicas e muito controle camuflado de ciúmes”, diz Pamela.

Homens que participam da luta

Antônio Carlos dos Santos Filho é designer gráfico e pai de uma jovem de 25 anos. Ele foi trabalhar para a Geledés – Instituto da Mulher Negra com o intuito de entender melhor o universo feminino. Para ele, o debate deveria ser constante para mudar a naturalização do machismo em todos os setores da sociedade, e um dos caminhos imprescindíveis é o da educação “O maior problema que encontramos são os caminhos sutis que levam a essa violência, como o machismo camuflado de amor e cuidado e que tanto os homens quanto as mulheres são suscetíveis a essas armadilhas”, diz.

Victor Marcondes é responsável pela criação de textos na Cosmobots – uma plataforma de gestão e criação de chatbots que já apoiou projetos femininos, como o Mapa do Acolhimento. Para Victor, é de extrema importância que as mulheres tenham mais canais com que possam contar com ajuda.

“O Mapa do Acolhimento, vai estar no WhatsApp e isso possibilita que mulheres de diferentes classes sociais e partes do Brasil tenham acesso e possam buscar ajuda a partir desse canal. O fato do WhatsApp rodar nos smartphones mais simples, aumenta essa abrangência”, diz Victor.

FONTE: STARTSE