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Satélites Starlink: o que são e como funcionam

A enorme constelação de satélites da Space X, do bilionário Elon Musk, promete internet mais eficiente e alcance de sinal em todo o globo. Mas ela pode mudar o céu tal como o conhecemos.

Visualização gráfica dos 30 mil satélites da mega constelação Starlink 2 planejados para serem lançados (em vermelho). Até agora, mais de 3 mil equipamentos já estão em órbita. Diferentes sub constelações são ilustradas com uma cordiferente.

Space X, empresa de serviços de transporte espacial fundada por Elon Musk, lançou o primeiro grupo de 60 satélites de telecomunicação Starlink em maio de 2019. Hoje, a mega constelação formada por esses equipamentos já ultrapassa os 3 mil satélites girando na órbita da Terra.

Os aparelhos foram desenvolvidos para oferecer internet banda larga de alta velocidade e via satélite para todo o planeta. De acordo com a empresa, o serviço é capaz de suportar transmissões e jogos online, chamadas de vídeo e é destinado, principalmente, a regiões remotas que ainda não possuem acesso à conexão, como áreas rurais.

O lançamento mais recente da Space X enviou cerca de 52 satélites para a órbita no último dia 24 de setembro, segundo anúncio feito na página oficial do twitter da empresa. O envio expandiu a constelação de satélites para quase 3.400 unidades já disparadas.

Esse total de equipamentos faz da Starlink o maior grupo de satélites que existe. Atualmente, a meta da Space X é expandir esse número para pelo menos 30 mil unidades. Apesar de ser um marco, o tamanho do “enxame” de Starlinks em atividade já causa preocupação nos astrônomos.

“Em observações astronômicas pré-Starlink, sempre havia uma ou outra atividade afetada por um satélite. Isso é aceitável. Agora, com o aumento do número desse tipo de equipamento, a situação se complica e uma só imagem do céu pode ser riscada por vários satélites”, afirma o astrônomo Ricardo Ogando, especialista sênior em tecnologia do Observatório Nacional, instituto de pesquisa que fica no Rio de Janeiro.

Como os satélites Starlink funcionam

O astrônomo também explica que a maioria dos serviços de internet via satélite vem de equipamentos geoestacionários únicos que orbitam o planeta a uma altitude de mais de 35 mil quilômetros. “Esses satélites cobrem sempre a mesma região do planeta por girar na mesma velocidade de rotação que a Terra. Mas, a distância em que ficam prejudica o uso para atividades que precisam de um ‘ping-pong’ rápido do sinal, como as videoconferências, por exemplo”, diz.

Os satélites Starlink, por sua vez, orbitam muito mais perto da Terra, a uma altitude de cerca de 550 quilômetros, e cobrem todo o planeta. “São milhares de satélites em órbita baixa, de forma que sempre há um equipamento em cima de uma dada região da Terra, permitindo comunicação constante e mais rápida por estarem mais próximos”, explica.

Na comparação, a Space X informa que a taxa de latência do Starlink, ou seja a velocidade de comunicação entre o satélite e dispositivos terrestres, é de cerca de 20 milissegundos (ms), enquanto os geoestacionários levam mais de 600 milissegundos.

Essa velocidade de comunicação é o que garante uma internet mais ágil para seus usuários, como defende a empresa. Em relação a esse tema, a firma de consultoria em conectividade Ookla, referência mundial quando se trata de medir a eficiência de redes de internet, produziu um relatório sobre os satélites Starlink, divulgado no segundo trimestre de 2022.

A análise feita pela consultoria aconteceu na Europa, Oceania, América do Norte e América do Sul, a partir de dados do Speedtest Intelligence (ferramenta usada para fazer os testes de velocidade). O resultado concluiu que a Starlink é o provedor de internet por satélite mais rápido da América do Sul e, na América do Norte, é a internet via satélite mais rápida no México.

A Starlink ameaça a observação astronômica? 

Por mais que formem uma corrente de pontos luminosos interessantes de serem observados em movimento no céu noturno, o brilho gerado pelos satélites Starlink está preocupando os estudiosos da astronomia.

Um relatório de especialistas representantes da comunidade astronômica global concluiu que grandes constelações de satélites de baixa órbita, como a Starlink, podem afetar a aparência do céu noturno para observadores de estrelas em todo o mundo.

O relatório foi desenvolvido durante o workshop Satellite Constellations 1 (Satcon1), de 2020, e organizado pelo NoirLab – laboratório de pesquisas espaciais da Fundação Nacional da Ciência dos Estados Unidos –, e pela Sociedade Astronáutica Americana. Seu material alertou que as mega constelações de satélites mudarão radicalmente a astronomia óptica e infravermelha terrestre.

“As constelações de satélites afetam desproporcionalmente programas científicos que exigem observações crepusculares, como a busca por asteróides e cometas que possam ameaçar a Terra, objetos no Sistema Solar exterior e retornos de luz visível vindas de ondas gravitacionais breves (como as emitidas por buracos negros)”, informa o alerta da comunidade científica.

Para o astrônomo Ricardo Ogando, a resposta inicial dos responsáveis pela Starlink a esse problema não foi satisfatória. “Um dos argumentos utilizados é que esse não era um problema conhecido e que seria um preço pequeno a se pagar pela distribuição de internet para lugares inacessíveis e pobres”, afirma.

No fim, a demanda por mega constelações de satélites cresce a cada dia para acompanhar a necessidade de uma cobertura de comunicações global. Entretanto, Ogando alerta que a decisão de enviar milhares de satélites ao espaço não pode ficar nas mãos de poucos. “É fundamental nos preocuparmos, não apenas como fãs e profissionais da astronomia, mas como seres humanos, com o destino que está sendo dado para o céu – que é de todos”, ressalta.

FONTE: https://www.nationalgeographicbrasil.com/espaco/2022/09/satelites-starlink-o-que-sao-e-como-funcionam