jul 11

“Precisamos fazer menos coisas, mas muito bem feitas”, diz CEO do Nubank

Cristina Junqueira, cofundadora e CEO do banco no Brasil, fala à coluna

Cristina Junqueira, cofundadora e CEO do Nubank no Brasil Divulgação/VEJA

Nas últimas semanas, o Nubank esteve na berlinda, depois que suas ações mostraram queda de mais de 60% em relação ao valor de mercado alcançado no IPO, em dezembro passado. Teria a fintech perdido o seu encanto? Seria um sinal de que os bancos tradicionais, que cresceram em larga medida baseados em sua rede de agências de rua, vão voltar a dar as cartas? “O Nubank é uma realidade concreta”, responde Cristina Junqueira, cofundadora e CEO do banco no Brasil, em entrevista à coluna. “Posso dizer que nosso modelo de negócios sempre foi forte e rentável.”

Aos 39 anos, essa engenheira por formação, com passagens anteriores por Luiza Cred (antigo braço de financiamentos do Magazine Luiza) e Itaú Unibanco, está no comando de um grupo que conta hoje com mais de 60 milhões de clientes no Brasil, México e Colômbia, depósitos que superam os US$ 12 bilhões e sete mil funcionários. Tudo isso em apenas nove anos, desde que se uniu a David Vélez e Edward Wible.

Por tudo isso, Cristina foi a escolhida para abrir a série de entrevistas que, nos finais de semana, deverão ser publicadas por esta coluna. Além do Nubank, ela falou também sobre o futuro das fintechs – ela aposta, por exemplo, numa consolidação do mercado, depois da expansão vertiginosa dos últimos anos – e sobre a crise econômica no País, com inflação em dois dígitos, alta dos juros e política fiscal em xeque.

Pergunto o que vem pela frente? “Acreditamos que precisamos fazer menos coisas, mas necessariamente muito bem feitas.” Acompanhe:

No boom de fintechs, o Nubank tem superado a concorrência, e isso vale também para os bancos tradicionais, que passaram a ser voltar para o atendimento digital. Qual o diferencial-chave do Nubank que explique seu sucesso?

Desde nosso começo, lá em 2013, apostamos em resolver as dores e os problemas reais dos clientes em relação ao sistema bancário. E posso dizer que não eram poucos: muita complexidade, serviços caros e ruins, falta de transparência no dia a dia, péssimo atendimento, entre tantas outras coisas que atormentam quem usa o serviço de um banco no País. Por isso, vejo vários diferenciais, não apenas um, que explicam nosso sucesso. Um deles é que oferecemos uma plataforma atrativa e eficiente para não cobrar tarifa – o resultado é que economizamos US$ 5,1 bilhões para os clientes até hoje. Quebramos paradigmas com foco em produtos que facilitem a vida deles. O fato é que o ‘boca a boca’ desses clientes que se sentiram atendidos e acolhidos por nós alavancou nosso crescimento ao longo dos anos. E, dentro dessa perspectiva de proximidade do cliente, lançamos nesta última semana nossa nova campanha de marca de alcance nacional – ‘O futuro acontece um passo de cada vez. Pode acreditar’. Nosso parceiro nessa jornada é, simplesmente, o Emicida, que na campanha conta sua trajetória em busca de seus sonhos. Queremos estar no dia a dia de nossos clientes, de seu estilo de vida, ajudando a construir seus sonhos e acreditar no futuro. Gosto sempre de reafirmar que somos pioneiros, e isso tem feito a diferença até hoje. Desde o começo de nossa história, apostamos na consolidação da digitalização. Para nós, e acho importante frisar, todo consumidor é digital. Outras fintechs e bancos investiram na digitalização, buscaram focar em tecnologia, mas até agora não conseguiram fazer o que fizemos. Acredito na ‘plataformização’ para que toda a vida financeira dele ocorra dentro do Nubank. Tenho obsessão para que encontremos cada vez mais um ecossistema completo de serviços e soluções.

O mercado financeiro no Brasil começa a dar sinais de saturação: muitos bancos digitais, fintechs que começam a encolher, inúmeras administradoras de recursos. Quem vai sobreviver? Voltaremos à era dos grandes bancos?

Não vejo assim. É importante deixar claro nossas diferenças em relação a outras empresas de tecnologia. O Nubank é uma realidade concreta. Posso dizer que nosso modelo de negócios sempre foi forte e rentável, inclusive no caso de produtos sem cobrança de tarifas. O movimento para as contas digitais é irreversível. E o Nubank está consolidado num mercado onde as empresas que são mais fortes e preparadas vão prevalecer. Como o David Vélez (CEO global e fundador) tem falado, haverá um momento de consolidação no setor. Não terá espaço, por exemplo, para 30, 40 bancos digitais no mesmo smartphone. Contamos com mais de 7 mil funcionários, um caixa robusto de US$ 3,4 bilhões após o IPO, e mais de US$ 12 bilhões em depósitos. Somos uma das fintechs mais bem capitalizadas do mundo. Tivemos em 2022 o melhor trimestre de nossa história, superando as expectativas dos analistas. Estamos crescendo dentro e fora do Brasil, vivendo um momento incrível no México e na Colômbia. Nossa base de clientes tem crescido de forma exponencial, com quase 60 milhões na América Latina (33% da população adulta do Brasil). Não dá para falar em volta da era dos bancos, pelo menos no nosso caso.

O que mais preocupa o banco: inflação, juros altos ou recessão no País? Ou mesmo a política fiscal (ou a falta dela) neste e no próximo governo, seja qual o eleito em outubro?

Somos novos, mas não novatos na adversidade. Crises econômicas vêm e vão, e o importante é estarmos preparados. Desde nosso nascimento, em 2013, sempre convivemos com recessão, crises de juros, crise política, pandemia, retração do PIB. Só problema. Não sabemos como é viver num período bom na economia. E, mesmo assim, chegamos a quase 60 milhões de clientes, num ritmo permanente de lançamento de novos produtos. Ou seja, nossa preocupação deve ser com o que temos controle, como avançar no market share. Há um espaço enorme para crescer. Somos muito pequenos ainda. Os momentos de crise nos dão oportunidades para tornar nossa operação ainda mais eficiente e inteligente.

O cartão de crédito ainda é o melhor negócio financeiro no Brasil?

Sempre digo que o melhor negócio é resolver os problemas e as dores dos clientes. Ter a lealdade deles é fundamental. É a consequência de que estamos no caminho certo. E isso vejo desde o começo no Nubank. O cartão de crédito é por onde começamos, porque é um produto que as pessoas usam muito, sentem necessidade de tê-lo. Havia (e há até hoje) muitas dores nessa seara. E conseguimos atrair e acolher milhões de brasileiros com nossos serviços. O cartão é o melhor exemplo, mas o principal negócio é ter uma relação cada vez mais profunda com os clientes. Por isso, estamos crescendo nosso portfólio. Para atender as necessidades deles. Este ano já lançamos nosso produto para transações de criptomoedas no nosso app; além de soluções para pagamentos, como o Nu Pay, que facilita o pagamento de compras online, e o Nu Tap, que permite que nossos clientes PJ ofereçam aos seus clientes a possibilidade de pagamento com cartão com custos reduzidos. Há poucos dias, anunciamos uma ferramenta para o cliente agendar Pix recorrentes, podendo programar as transferências pelo aplicativo. E não vamos parar. Trabalhamos com o conceito de self-driving banking, no qual os clientes têm um nível completamente novo de controle sobre suas finanças e seu planejamento financeiro.

Como o Brasil conseguirá atrair investidores, com a perspectiva de piora do quadro fiscal?

Penso que sempre teremos bons investidores para as boas empresas que estão resolvendo os problemas de verdade, cuidando de seus clientes, empresas que possuem um diferencial e que se destacam das demais. E esse, definitivamente, é o nosso caso. Queremos que os investidores caminhem conosco na visão de longo prazo. Estamos focados na expansão do nosso ecossistema de negócios tanto de forma orgânica, quanto por meio de fusões e aquisições. Apesar de tudo que conquistamos até aqui, estamos apenas no início da nossa jornada. O maior desafio hoje é atravessar a tempestade em meio a vários fatores globais. Quero olhar daqui a cinco, dez anos, e continuar vendo com muito orgulho o que construímos, onde chegamos e como ajudamos nossos clientes, diminuindo suas dores.

Depois dos celulares, qual a próxima fronteira do atendimento bancário?

É difícil saber qual é a próxima fronteira. Mas posso dizer que, no caso do Nubank, vai ser onde o cliente precisar. Vamos estar lá. Isso eu garanto. Vamos continuar perseguindo as coisas novas do mesmo jeito que fizemos até hoje, mirando no que o cliente precisa e valoriza. Acreditamos que precisamos fazer menos coisas, mas necessariamente muito bem feitas. Não vamos parar de atravessar fronteiras.

FONTE: https://veja.abril.com.br/coluna/neuza-sanches/nubank-mais-qualidade-menos-quantidade/