dez 06

OS DESAFIOS DA NOVA ECONOMIA NO BRASIL

Evento realizado em São Paulo reuniu alguns dos principais expoentes do ecossistema de inovação do país

A ascensão no Brasil das primeiras startups unicórnio, avaliadas em mais de US$ 1 bilhão de dólares. A proliferação de aceleradoras, com fila de espera de jovens inovadores ávidos por entrar no circuito. Aportes de capital estrangeiro em empresas nacionais de tecnologia. A sinergia entre grandes corporações e imberbes da nova economia. O mercado de inovação vive um momento de efervescência sem precedentes no Brasil. Mas como ele está transformando os negócios? Quais os desafios desse fenômeno tão recente no país?

Para lançar luz sobre essas questões, líderes do setor, startups e investidores se reuniram no dia 22 de novembro, em São Paulo, no Tech Summit Brasil, evento promovido por Valor Econômico, Época Negócios e TechTudo, com o patrocínio da 99. “Temos uma visão muito positiva sobre o potencial do Brasil em relação à tecnologia. Por isso, a importância de iniciativas que incentivam o ecossistema de inovação e reúnem grandes idealizadores para avaliar e traçar juntos os rumos das mudanças, tendências e impactos da tecnologia na sociedade”, disse Felipe Feldens, diretor da 99 Empresas.

No evento, os especialistas concordaram que o ciclo acelerado de inovação pelo qual o país passa é fruto de um amadurecimento do mercado. “É incrível perceber não apenas o surgimento de startups revolucionando vários setores, mas também o movimento das grandes corporações em reconhecer o valor dessas empresas”, disse Renata Zanuto, head do Cubo. Para potencializar a união entre a nova economia e o mercado tradicional, ela considera que é preciso romper algumas barreiras. “As grandes empresas têm o desafio de moldar e mudar processos para se aproximar dessa inovação, compartilhar aprendizados e utilizar as soluções que as startups oferecem”, diz.

Um dos trunfos para o sucesso das startups é, segundo Renata, o foco nas necessidades dos clientes. “Elas nascem com esse propósito e fazem uso da tecnologia para entender cada vez mais o comportamento do consumidor e criar produtos para atendê-los”, disse. “A perspectiva de nunca nos distanciarmos do problema real que nos propomos a atacar é o que alimenta a constante inovação”, disse Davi Miyake, diretor de operações Brasil da 99. “Há cinco ou seis anos, era impensável pedir um carro via aplicativo. Hoje, essa solução transforma a vida de milhões de pessoas.”

As ideias disruptivas postas em ação contribuem para chacoalhar, inclusive, mercados considerados “sagrados”. Um dos cases apresentados no Tech Summit foi o do Nubank, operadora de cartões de crédito e banco digital. “Quando jogamos uma semente de concorrência no setor de serviços financeiros, que estava assentado em determinados padrões, promovemos uma mudança nos outros bancos com relação a cobrança de tarifas, uso de novas tecnologias e atendimento aos clientes”, contou Cristina Junqueira, cofundadora do Nubank. “Acredito que abrimos caminho para outras startups que estão desafiando o status quo e botando a cara, vendo que é possível.”

As perspectivas para que mais negócios inovadores floresçam são favoráveis. “Os últimos três anos foram, de longe, os melhores para o mundo da tecnologia no Brasil e na América Latina”, disse Anderson Thees, sócio-diretor da Redpoint Ventures. “Acredito que, pela primeira vez, temos todos os ingredientes na mesa para esse ecossistema funcionar bem. O entusiasmo é compartilhado por expoentes do setor que dividiram com Thees um debate do Tech Summit. Porém, todos concordaram que o Brasil tem um grande desafio pela frente: formar capital humano que suporte e acompanhe a inovação tecnológica. “Temos talentos para atuar como desenvolvedores, por exemplo, mas são poucos. Esse será um dos maiores gargalos que enfrentaremos”, disse Eduardo Musa, fundador da Yellow.

O caminho lógico para suprir essa demanda é a formação universitária. “Mas, por enquanto, vemos uma precarização do conhecimento, principalmente o técnico”, disse Juliana da Cunha Assad, CEO da CoinWise. Diante desse cenário, a contribuição das grandes empresas no aprimoramento da mão de obra é considerada fundamental. “Temos o papel de fomentar o capital intelectual e criar a massa crítica”, disse Cristina Palmaka, presidente da SAP Brasil. Ela citou o exemplo da multinacional alemã, que investe em ações de capacitação de jovens e mulheres, além de outros projetos. “Mantemos um laboratório de inovação em São Leopoldo (RS) que compete em pé de igualdade com outros que temos espalhados pelo mundo”, disse.

A aproximação entre grandes corporações e o ecossistema de inovação é considerada pelos especialistas uma via de mão dupla. “Treinar pessoas, puxar as startups para dentro e aproveitar os talentos é muito positivo para as empresas e vai acontecer cada vez mais”, disse o sócio diretor da Redpoint Ventures.

O mundo pós-startups

Considerando as bases que a inovação tecnológica está lançando hoje, como será a vida em 2084? Especialistas do setor arriscaram seus palpites no Tech Summit Brasil:

BIG DATA

As decisões de governos, empresas e indivíduos serão baseadas em dados, desde o orçamento de cidades e países até medidas que atendam às vontades da população. “Estamos apenas no começo”, diz Marcos Toledo Leite, cofundador da Canary.

CARREIRAS

Os diplomas (se ainda existirem) valerão menos que as capacidades que as pessoas desenvolverão especificamente para tocar os projetos destinados a elas naquele momento. Em outras palavras, teremos várias “carreiras” ao longo da vida.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Talvez décadas antes de 2084, já teremos conseguido reproduzir o cérebro em um modelo programático. Com isso, chegaremos a uma inteligência artificial mais poderosa do que a humana.

PROFISSÃO

As máquinas assumirão o lugar dos humanos nas atividades técnicas. “Mas não substituirão nossa capacidade criativa. O profissional será solicitado por suas soft skills”, apostou Juliana Mitkiewicz, do MIT Global Startup Labs.

EDUCAÇÃO

O modelo educacional será alinhado com microespecialidades. “O formato atual das universidades vai morrer. Elas serão espaços de convivência e troca entre mentes brilhantes”, imagina Camila Achutti, CEO da MasterTech.

ECONOMIA COMPARTILHADA

Viveremos em um modelo que valoriza mais o acesso do que a posse de bens. A popularização das criptomoedas vai revolucionar essa economia e criar novas formas de fazer negócios.

FONTE: VALOR ECONÔMICO