dez 28

Na nova sociedade digital, os dados são o novo petróleo, mas o motor é a IA

Os efeitos da IA ainda serão amplificados exponencialmente a partir da próxima década.

Recentemente li com atenção um estudo profundo e muito instigante, “Artificial Intelligence and National Security”, do Belfer Center for Science and International Affairs, da Harvard Kennedy School, nos EUA. Algumas de suas afirmativas são emblemáticas: “Future progress in AI has the potential to be a transformative national security technology, on a par with nuclear weapons, aircraft, computers, and biotech”  e “Advances in AI will affect national security by driving change in three areas: military superiority, information superiority, and economic superiority”.

Aí você se depara com um artigo da Wired, “For superpowers, artificial intelligence fuels new global arms race”, relatando um discurso do presidente Putin, da Rússia, onde ele explicitamente afirma “Artificial intelligence is the future, not only for Russia but for all humankind. Whoever becomes the leader in this sphere will become the ruler of the world”. E em julho, o Conselho de Estado da China lançou uma estratégia detalhada destinada a tornar o país “o líder e o centro de inovação global em IA” até 2030.

Já começamos a discutir se algoritmos podem ser considerados inventores e portanto detentores de patentes (Should a computer be recognised as an inventor?) ou mesmo se podem ser considerados artistas e portanto deter propriedade intelectual de suas obras de arte. A leitura do artigo “Robot Art Raises Questions about Human Creativity” indiscutivelmente nos induz a levantar este ponto. Também não conseguimos saber até onde poderão evoluir. Serão capazes de chegar a autoconsciência? O artigo “Will Artificial Intelligence Become Conscious? debate este espinhoso e provocante assunto.

O que sabemos é que os avanços da IA são exponenciais. Por exemplo, o reconhecimento de imagem, como os sistemas de visão dos veículos autônomos, que há poucos anos cometiam erros à taxa de 1 por 30 quadros (as câmeras desses sistemas registram 30 quadros por segundo), hoje erram apenas um em 30 milhões de quadros. No reconhecimento de voz a taxa de erro é mínima. E é pelo menos 3 vezes mais rápido usar este recurso que digitar um texto em um smartphone. Não é à toa que voz passará a ser o principal meio de interação com a tecnologia nos próximos anos.

Tudo isso mostra, de forma clara e explícita, que IA é algo que deve ser levado muito a sério. Mas, por quê?

Nas revoluções industriais anteriores, o petróleo foi a base energética e as tecnologias (como a máquina a vapor), a eletricidade e os motores de combustão interna provocaram ondas de inovação que moldaram nossa sociedade. Surgiram os automóveis, aviões e caminhões. Daí vieram as megacidades, os shopping centers, os centros de distribuição e as organizações empresariais que conhecemos hoje.

Todas estas inovações potencializaram nossa força física. O automóvel nos permitiu correr mais rápido, o avião nos permitiu voar, o guindaste nos permitiu levantar toneladas e os tratores a transportar outras tantas toneladas. Na nova sociedade digital, os dados são o novo petróleo, mas o motor é a IA. A IA tem o potencial de causar impactos transformacionais tão ou mais significativos quanto as tecnologias que citamos anteriormente. E, portanto, tem a capacidade de moldar uma nova sociedade. Ainda estamos no início de sua curva evolutiva e embora já possamos ver muitos exemplos interessantes, a maioria das grandes oportunidades ainda não foi explorada. Os efeitos da IA ainda serão amplificados exponencialmente a partir da próxima década.

Mas, como as empresas estão adotando IA? Um estudo muito interessante foi efetuado pelo MIT Sloan com a BCG, chamado “Reshaping Business with Artificial Intelligence: Closing the Gap Between Ambition and Action”, acende algumas luzes  amarelas. Ao ler o estudo observei que a situação é muito similar a que vejo nas empresas nas quais convivo como consultor, e nas conversas com centenas de executivos nos eventos dos quais participo.

Na imensa maioria das empresas existe claramente um grande gap entre a ambição e a execução. O estudo mostrou que três quartos dos executivos acreditam que a IA permitirá que suas empresas criem novos negócios e quase 85% acreditam que permitirá que suas empresas obtenham e sustentem vantagem competitiva. Mas apenas uma em cada cinco empresas já incorporou IA em algumas ofertas ou processos. Somente uma em cada 20 empresas incorporou extensivamente IA em suas ofertas ou processos, e menos de 39% de todas as empresas possuem uma estratégia de IA implantada. Ou seja, ainda muita conversa e pouca ação.

As causas desse gap são muitas, e vão do pouco conhecimento do que é realmente IA à falta de dados adequados, passando, é claro, pelo fato de que a maioria dos CEOs ainda não se comprometeu com o tema. Iniciativas de IA realizadas exclusivamente por áreas como TI continuarão exatamente como iniciativas, não terão “acabativas”!

Falando francamente, não se trata de investir em IA, em processamento de linguagem natural ou análises de imagens. O investimento deve ser na solução de problemas de negócios e IA é o meio. Quando o foco é tecnologia, perde-se o alvo.

reconhecimentodeimagem

A IA deve ser estratégica para a empresa. Devin Wenig, CEO do eBay, acerta o alvo ao afirmar “If you don’t have an AI  strategy, you are going to die  in the world that’s coming”. Verdade. Se na sociedade digital todas as empresas serão, de alguma forma, empresas de tecnologia (leia-se, de software), todas as empresas precisarão ser um negócio de Inteligência Artificial.

É indiscutível que a IA vai afetar as organizações, a sociedade e o emprego como conhecemos. A automação, em seu início, afetou apenas as linhas de produção nas fábricas. Agora o risco de desemprego afeta funções que antes eram reservadas aos humanos, como por exemplo, motorista de caminhão. É um dos trabalhos mais comuns no mundo todo. São 3,5 milhões deles nos Estados Unidos e aqui no Brasil temos mais de um milhão registrados para o transporte de carga.  O governo holandês já realizou um teste bem-sucedido de caminhões sem motorista cruzando a Europa. O Uber pagou US $ 680 milhões para comprar Otto, uma startup que desenvolve tecnologia para caminhões autônomos e que foi fundada por especialistas de IA do Google. A consultoria McKinsey previu que dentro de oito anos, um terço de todos os caminhões na estrada serão autônomos, rodando sem motoristas. Em talvez 15 anos, o motorista de caminhão, como o ascensorista, será um anacronismo.

Estamos vivenciando uma nova era de mudanças, mas ao contrário das anteriores, está é de uma velocidade nunca vista. Estamos vivenciando mudanças exponenciais. Os avanços na Inteligência Artificial e na Robótica estão impulsionando uma nova era automatização inteligente, que será um importante motor de disrupção empresarial e social nos próximos anos. A IA afetará as empresas, empregos, sociedade e a economia. Obrigará a revisão da atual formação educacional, e demandará fortes ações por parte de governos e das empresas. É essencial que as corporações de todos os setores de negócio compreendam seu impacto potencial ou ficarão para trás.

A IA tem o potencial de mudar as maneiras com que as empresas geram valor e exige um pensamento inovador e radical. Seus novos concorrentes podem ser startups que não usem pessoas como sua empresa usa, mas robôs de software, quebrando seus parâmetros de comparação.  Portanto, as empresas precisam pensar de forma bem ampla sobre seus negócios, criar cenários futuros e validar a resiliência de seus negócios atuais e estratégias futuras às mudanças transformacionais provocadas pela IA.

IAexecutiva

É essencial atrair e reter talentos para as ações que envolvam IA. Ainda são recursos escassos, e a empresa deve buscar atrair esses profissionais ativamente. Também é fundamental mostrar o que e como a IA vai afetar as pessoas internamente. Uma percepção que seu uso vai gerar desemprego pode afetar o ambiente profissional profundamente. O jogo tem que ser claro e conduzido com transparência.

IA será a nova eletricidade! Assim, pela importância do assunto devemos estudar e compreender seus impactos nas empresas.  Os executivos não podem ignorar o assunto. Não sabemos quais as empresas que dominarão o ambiente de negócios no novo cenário digital. Sabemos as que perderão: as que não adotarem IA de forma ousada e estratégica. As organizações que perceberem o potencial da IA e reagirem antes das outras terão dado um passo significativo em termos de vantagem competitiva.

Sim, a IA não vai substituir os executivos das empresas, mas os executivos que souberem explorar as potencialidades da IA irão substituir os que não souberem.

FONTE: CIO FROM IDG