jun 26

Impressão 3D ainda é sistema de nicho, mas começa a deslanchar

Após mais de três décadas de estreia no mercado mundial, a impressão tridimensional, ou 3D, continua a ser um produto de nicho. Mas está atraindo setores de peso. No Brasil, vem sendo usada para fabricar peças para automóveis e para aviões; e produtos menores como aparelhos para corrigir a dentição e até órgãos humanos.

A HP, fabricante de impressoras tradicionais com sede nos Estados Unidos, lançou há dois anos seu sistema para impressão tridimensional, vendido em pouco países até agora. Em maio deste ano começou a fornecer esse tipo de tecnologia no Brasil. As máquinas impressoras são importadas dos EUA.

“Temos que desenvolver todo o ecossistema ao redor [de 3D]”, diz Claudio Raupp Fonseca, presidente da HP Brasil, ao explicar o porquê da presença da tecnologia apenas nos EUA, na Europa, na China, no Brasil e no México. Para prover o mercado com a nova tecnologia, a HP precisa desenvolver seus próprios fornecedores e fazer parcerias para que produtos e sistemas se integrem, formando o que o executivo chama de ecossistema.

Pete Basiliere, vice-presidente de pesquisa do Gartner, sediado em New Hampshire, Estados Unidos, disse ao Valor que HP e Ricoh são as únicas fabricantes de impressoras 2D “tradicionais” que desenvolveram e estão vendendo equipamentos 3D.

Mas elas enfrentam concorrência de empresas que nasceram especificamente para vender esse tipo de equipamento. A quantidade de fabricantes globais de impressoras 3D de classe empresarial triplicou para mais de 180 em três anos. Esse movimento “indica uma crença significativa no potencial do mercado mundial”, diz Basiliere.

A HP vai disputar o mercado brasileiro com a Stratasys, que só fabrica 3D.

Tornou-se a maior indústria mundial desse tipo de equipamento, por receita, segundo o Gartner. Em sua carteira de clientes consta até a Nasa. No ano passado, registrou vendas líquidas mundiais de US$ 663 milhões.

No Brasil desde 2013, a Stratasys não tem produção local. Todas as impressoras são importadas. A empresa tem sede em Mineápolis (EUA) desde sua fundação em 1989, quando seu cofundador Scott Crump descobriu e patenteou a FDM – uma das nove tecnologias de impressão 3D existentes.
Em 2012, em Rehovot (Israel), houve uma fusão da empresa local Objet detentora da tecnologia PolyJet – e a Stratasys, estabelecendo outra sede no local.

O volume de negócios da companhia no Brasil dobrou em relação a 2017, diz Anderson Soares, gerente da Stratasys, sem revelar números. Para 2019, sua projeção é mais modesta, crescer em torno de 20% sobre o ano passado. O executivo diz que já atende praticamente a todas as montadoras de veículos, com exceção de uma – cujo nome não declina.

Também fornece para a indústria aeronáutica e o varejo, entre outros setores.

Já a HP registrou receita líquida global de US$ 28,8 bilhões no negócio de impressoras, no ano fiscal 2018 encerrado em outubro. O relatório financeiro da companhia não destaca as vendas com 3D. Em dois anos, a HP produziu mais de 10 milhões de peças industriais 3D, diz o presidente da empresa. “O mercado está engatinhando, o potencial é imenso para esse negócio ficar exponencial”, afirma Raupp, como é conhecido.

A estratégia da companhia na diversificação para essa nova linha de produtos se apoia em quatro pilares. No primeiro, a HP desenvolve os equipamentos impressora e sistema de impressão. Em outra ponta, dez indústrias químicas no mundo ajudam-na a criar materiais novos para impressão. O terceiro pilar é formado por desenvolvedores de software, enquanto o quarto elemento no ecossistema é o capital humano, por meio do desenhista industrial.

Os preços de impressoras 3D da HP vão de US$ 150 mil a US$ 500 mil, sem os custos de importação, dependendo do modelo. Outras máquinas para uso pessoal de concorrentes têm grande variação de preço e configuração, e podem ser compradas por R$ 2,5 mil no país.

Os investimentos globais em 3D devem crescer 21% em 2019, para US$ 13,8 bilhões, de acordo com o estudo IDC Worldwide Semiannual 3D Printing Spending Guide, de 2018. Na América Latina, o avanço no período é estimado em 25%, para US$ 53 milhões. “Não tem projeção para o Brasil, mas deve ser acima da região, de acordo com conversas com o mercado, que está otimista”, diz Rodrigo Pereira, analista de mercado de impressão da IDC Brasil.

Em tecnologia da informação e comunicações, o Brasil representa 37% dos investimentos nos países da região. Com base nesse indicador, Pereira estima que os gastos com 3D no Brasil em 2018 alcançaram US$ 15 milhões.

A adoção mais intensa da impressão 3D começou no Brasil a partir de 2014.

Naquela ocasião, a tecnologia foi associada a protótipos iniciais, não muito fiéis ao produto, de produção caseira sem muita qualidade, diz Soares, da Stratasys. Nos últimos anos, a tecnologia foi aperfeiçoada e vários setores passaram a adotá-la, seja para fazer protótipo de controle remoto de TV, totalmente funcional, antes de iniciar a produção em escala; seja para estudo cirúrgico.

Por meio de ressonância magnética, por exemplo, é possível pegar a imagem do coração do paciente e imprimir o órgão em 3D para que os médicos possam analisar antes de fazer a cirurgia.

Segundo Soares, isso reduz o tempo e os custos da cirurgia, que pode ser mais precisa e menos invasiva, com recuperação mais rápida do paciente. Soares diz que há hospitais que contratam o serviço de provedores de impressão 3D da marca, como o Sabará e o Albert Einstein, ambos de São Paulo.
As grandes montadoras no Brasil usam a tecnologia da Stratasys para construir o molde (chamado de ferramental pela indústria) que faz o logotipo da marca que vai estampada nos carros e os encaixes de borracha, diz Soares.

Uma mesma montadora tem de cinco a seis impressoras, cada uma voltada para uma finalidade. A 3D também produz peças, por exemplo, para auxiliar na colocação de bancos. Tudo isso antes era usinado, normalmente em nylon, aço e ferro. Soares cita o caso da BMW, que produzia o ferramental em alumínio usinado, pesando 4 quilos. Em 3D, pesa 400 gramas.

A 3D também fornece para um fabricante de aeronaves, cujo nome não foi informado, imprimir peças usadas nos aviões. Produz, por exemplo, parte do painel e fixadores de cabos. O sistema é usado tanto para aeronaves novas quanto para o Legacy, que não está mais em linha, para produzir peças de reposição sob demanda.

Uma fabricante de perfumes em São Paulo, cujo nome é mantido em sigilo, iniciou em 2018 um plano para reduzir R$ 4 milhões em peças de reposição do estoque. A 3D é usada como impressão de peça de uso final para reposição de maquinário da empresa. Em ano e meio já havia sido atingida mais de 40% da meta, diz Soares.

Se um produto usinado quebra, a reposição pode demorar seis meses devido ao processo que requer, inclusive licitação. Em 3D, é só pegar o arquivo do ferramental e imprimir novamente, do dia para a noite.
No varejo, tem empresa que produz em 3D uma peça de plástico por um processo a vácuo (“vacuum form”) para acomodar perfumes e vender a supermercados.

A impressão 3D vem sendo aplicada em diferentes áreas. Na dental, substituiu o corretor ortodôntico tradicional, que era de aço, por acrílico. O dentista escaneia a boca do paciente e imprime a mandíbula e as arcadas em 3D. Com esse modelo perfeito, faz o mesmo processo em “vacuum form”.

Uma placa de acrílico aquecida toma a forma exata da boca do paciente e se torna o alinhador dos dentes. “Está sendo fabricado em massa aqui [no país]”, diz Soares, da Stratasys. “A indústria dental demorou para adotar, mas a demanda é tão grande que a impressora 3D facilita e impulsiona o negócio.” O processo é feito pelos grandes laboratórios.

A linha branca adotou 3D na manufatura e também para fazer protótipos, diz Soares.

No segmento de consumidores, 3D continua sendo um mercado emergente que está em período de calmaria em todo o mundo. Para Basiliere, do Gartner, “é altamente improvável que uma impressora 3D será um dia encontrada em todos os lares”. Ele cita como barreiras o preço, embora possam ser encontrados equipamentos rudimentares na faixa de US$ 300 fora do Brasil que extrudam material plástico. Além disso, é preciso software de criação 3D. E por fim, é difícil decidir qual dispositivo comprar e o que imprimir com ele.

Para quem está determinado a ter a sua própria tridimensional, há desenhos disponíveis na internet para baixar e imprimir, inclusive grátis. Há trabalhos voltados também a universidades e escolas técnicas, como o Senai Cetic, citado pela Stratasys.

 

FONTE: JORNAL ECONÔMICO