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Brasil amarga quatro anos de atraso no mercado de computação em nuvem

Apesar da alta demanda, estratégias política e econômica equivocadas fizeram com que custo do serviço de computação em nuvem no País seja 78% mais alto do que nos EUA, informa Henrique Cecci, diretor sênior de pesquisa do Gartner

A última semana do mercado de tecnologia foi marcada pelo AWS Summit, evento promovido pela fornecedora de serviços de computação em nuvem pública, na capital paulista. Mais de 10 mil pessoas participaram dos dois dias do Summit, dentre elas Henrique Cecci, diretor sênior de pesquisa do Gartner (foto), convidado para dar um panorama do mercado de cloud no país e no mundo. Nesta entrevista, Cecci abre o jogo do mercado, fala sobre as diferenças entre os provedores de serviços, explica porque a AWS lidera este mercado, e posiciona o Brasil em relação aos demais países. Estamos, segundo ele, quatro anos atrasados em relação às economias mais desenvolvidas do mundo e dependemos de mão de obra qualificada para reduzir esta defasagem. Somam-se à lista de dificuldades, as estratégias política e econômica empreendidas por aqui nos últimos anos fizeram com que os serviços de computação em nuvem sejam 78% mais caro do que nos Estados Unidos, por exemplo. Além de aprofundar nestes temas, Cecci também revela que, na sua visão, o 5G vai empreender uma nova configuração no mercado de data center. Acompanhe.

O que é motor no mercado de nuvem hoje?

Gradativamente, há muito tempo, estamos transformando produto em serviço. Os valores básicos de cloud, como escalabilidade, elasticidade, flexibilidade, agilidade, todos estes atributos são fundamentais hoje para os negócios. Quando vemos as empresas falando de cloud, no Gartner definimos quatro fases: migração, transformação de aplicações em cloud, e a partir daí muito business. O grande aspecto de cloud é o fato de as plataformas digitais possibilitarem o crescimento e a transformação dos negócios. Imagina que não preciso reinventar muitas coisas e consigo rapidamente entregar resultados através dos serviços existentes, consumindo estes serviços de uma forma muito rápida. Evolutivamente, a gente vem de uma visão muito técnica, depois mais para serviços e hoje muito mais voltada a serviços com o enfoque de agilidade, velocidade e inovação. Com isto, cloud vem crescendo muito rápido. Se pegarmos, por exemplo, o caso da Amazon, a lucratividade da AWS frente ao grupo como um todo é muito grande. Hoje, no Gartner, já falamos que não há estratégia de negócio apartada de uma estratégia de cloud.

São muitos novos serviços com cada vez menos fornecedores, a tendência de consolidação é real? Quantos fornecedores devem sobrar no mercado?

Quase todos os business, no futuro, vão ter quatro ou cinco players. Resta a quem não está entre os líderes trabalhar em nicho ou colaborar com os grandes. Acredito que quatro ou cinco continuarão. Mas precisamos analisar sob a ótica global e sob o ponto de vista local. Globalmente, devemos ter quatro ou cinco. Mas, por exemplo, a Alibaba é a terceira maior do ponto de vista global, mas na América Latina não tem presença. Outro aspecto também é o tamanho dos EUA que, sozinho, representa 57% de todo o gasto de cloud no mundo. Isto também faz com que os números de cloud fiquem muito concentrado nos Estados Unidos. No mundo, nem todas as economias são exatamente iguais ao mercado americano. O Brasil tem as suas limitações. A América Latina, Europa, Ásia, têm preferências e custos diferenciados.

Você está dizendo que a liderança global não se repete aqui no Brasil?

Não, necessariamente. A gente tem mais ou menos o mesmo modelo, mas há diferenças, em especial com relação ao mercado asiático. A Huawei, por exemplo, que aqui no Brasil chega a ser o número dois não existe nos Estados Unidos e, globalmente, está em 7o ou 8o lugar. As vezes há características locais que acabam criando um mercado particular. Mas, de forma geral, aqui no Brasil temos a mesma representação que o mercado global. A AWS tem o maior market share, o maior ecossistema de parceiros e canais, a maior estrutura, etc.

Mas está muito próximo de Azure, não?

Não. Eu vejo diferente.

A diferença é muito grande?

Os últimos market share trazem números bem distintos. Há várias maneiras de olhar. Em revenue, em 2021, estava 57% AWS e 28% para Microsoft, no Brasil. No mundo, Azure tinha 18% de market share.

Eles têm posicionamentos diferentes?

Quando olhamos de forma superficial, os serviços são muito parecidos. Mas, se aprofundarmos, vemos que são muito diferentes. Cada um tem a sua natureza, a sua identidade, seus pontos fortes e fracos, infraestrutura, arquitetura. Por exemplo, a AWS tem quatro anos de vantagem dos demais. Começou antes e adotou uma estratégia voltada à inovação, agilidade, oferta de muitas plataformas digitais. O futuro de cloud segue muito esta linha. Os demais têm um viés, as vezes até pelo seu legado e participação nas empresas, um pouco diferente. A Microsoft, por exemplo, tem o Office 365 e o legado de enterprise, que exigem a migração dos clientes. A Goolge tem um DNA muito voltado a big data, query e analytics, é mais centrado na informação. Enfim, cada um tem uma característica muito única. Embora AWS não tenha SaaS e os demais tenham, ela tem o Aurora, por exemplo, que é um banco de dados que vem ganhando market share muito rápido. Tem inteligência artificial, machine learning, blockchain… eles têm fortalezas e fatores competitivos únicos. Acredito que sejam os maiores indiscutivelmente em serviços, distribuição e localização.

Pensando no mercado brasileiro, você acredita que as empresas já tenham esta visão que você está descrevendo?

Acredito que não. Eles veem de uma maneira muito superficial. O Brasil tem algo interessante, que é diferente quando comparado a países mais maduros em cloud. No Brasil ainda vemos cloud como sinônimo de infraestrutura, como capacidade computacional, armazenamento etc. Lá fora, o pessoal enxerga como plataforma de serviços. No universo de infraestrutura é muito mais fácil comparar. No ambiente de plataformas, é mais difícil comparar, porque há coisas que um tem e o outro não. De forma geral, o brasileiro tem um conhecimento muito básico de cloud, infelizmente, e não consegue diferenciar muito bem os fornecedores.

Vi que este papel de diferenciação tem sido assumido pelos provedores de serviços gerenciados, isto não só no Brasil como no mundo. Este é um mercado que tende a crescer junto com cloud?

Claro! A gente tem três momentos. No começo o pessoal de consultoria ajuda muito na migração, nas jornadas de cloud básicas; depois se tem a parte de implementação; e, por fim, o managed service. Há um potencial de crescimento bastante importante no futuro destas ofertas de serviços gerenciados na nuvem. Depois de migrar os workloads é preciso fazer uma boa gestão do ambiente e as empresas demandam ajuda para isto, seja na questão de custos, de segurança ou na administração dos recursos. Há um mercado muito bom em expansão.

Que é diferente da oferta inicial cloud, que era muito mais voltada para o self-service, não é?

As empresas conseguem fazer o self-service. Masm hoje, como há muitas opções disponíveis, geralmente há um parceiro que ajuda a companhia, um broker, etc. Mas ainda é possível ter autonomia em cloud, depende apenas do limite do cartão de crédito.

“Uma cloud má gerenciada pode custar bem caro”

Sim, mas temos visto muitas empresas se enrolando na hora de administrar os serviços de nuvem, principalmente os custos.

É uma tarefa fácil, mas quando chegam os boletos eles veem que o budget não está na mesma proporção que o gasto de cloud. Esta é uma mudança de paradigma cultura. Cloud exige um processo contínuo de ajuste, adaptação, regulação. É preciso estar sempre ajustando, adaptando, monitorando, verificando. Por isto falamos muito de governança, de centro de excelência, compliance. Todas estas questões são muito relevantes. No mundo on-premises estes problemas apareciam muito no momento da compra da infraestrutura. Mas, no ambiente de serviços, se você bobear, a conta no final do mês vem muito alta. Infelizmente, a maioria das empresas tem uma maturidade baixa no quesito gestão de cloud. Uma cloud má gerenciada pode custar bem caro. Todo serviço que não é utilizado de forma adequada pode ser tornar mais caro do que deveria.

“Algumas estimativas do Gartner que apontam que algo acima de 50% de tudo que é gasto em cloud é ineficiente, poderia ser otimizado”

Isto é um ponto negativo para cloud?

Não. A gente precisa de pessoas qualificadas, com skills qualificados para saber usar cloud de forma adequada. Cloud pode ser muito eficiente, segura, boa. Mas é preciso saber fazê-la funcionar desta maneira. Se for usada de forma errada, sem as boas práticas de segurança e otimização, pode-se acabar com gastos acima do esperado, com problemas de performance, de segurança etc. Cloud é super-segura, mas precisa ser administrada de forma segura. Ela pode ser bastante eficiente em termos de custo, mas se você não souber utilizá-la direito, há perdas. Por exemplo, há algumas estimativas do Gartner que apontam que algo acima de 50% de tudo que é gasto em cloud é ineficiente, poderia ser otimizado. Em alguns países, como o Brasil, talvez este número seja até maior.

Você disse que as empresas precisam de skills, mas faltam 500 mil profissionais em TI (dados da Brasscom) no mercado brasileiro. Como fechar esta conta?

Skill é o desafio número um. É por isto que os salários são maiores e há todos os incentivos. Mas é preciso ter gente boa nesta área.

Mesmo com as ferramentas de automação e os serviços gerenciados…

Você precisa de gente que saiba usar as ferramentas de automação e tudo mais. Uma gestão ruim de cloud pode levar ao fracasso, ao insucesso e, eventualmente, até a repatriação. Isto às vezes acontece, porque o profissional não tem o conhecimento de fazer a coisa ficar muito boa. E, por outro lado, na mesma vertical há negócios que alcançam muito sucesso, porque soube utilizar. As vezes fazendo um rightsizing, usando espaços reservados, infraestrutura flexível, ele começa a explorar todas as boas práticas e, ao final, consegue achar economias, inovação, coisas boas para serem utilizadas. Este é um desafio importante: skills, pessoas.

“O Brasil é três vezes mais IaaS do que PaaS, em geral. Nos EUA esta relação é muito diferente: PaaS, em alguns casos, é superior a IaaS”

Qual é a maturidade do Brasil em relação ao mundo?

Estamos atrasados em relação a Estados Unidos, Canadá, Inglaterra etc., a turma do primeiro mundo, em termos de utilização destas plataformas, de saber usar todos estes recursos em benefício do negócio. O pessoal acaba usando muito como infraestrutura básica e reclamando mais tarde. Se compararmos os números de IaaS (infraestrutura como serviço) e PaaS (plataforma como serviço), proporcionalmente, o Brasil é três vezes mais IaaS do que PaaS, em geral. Nos EUA esta relação é muito diferente: PaaS, em alguns casos, é superior a IaaS. Isto é uma demonstração concreta de que a gente não está reproduzindo o que os outros estão fazendo para alcançar resultados positivos.

E como viramos esta chave?

Com educação. Temos que mostrar ao pessoal como fazer. Aprender com outros. Os cases ajudam, como o caso do Itaú e outros milhares bem-sucedidos. Mas aqui no Brasil ainda enfrentamos desafios locais: 1) os serviços aqui estão muito concentrados no eixo Rio-São Paulo, e o país tem dimensões continentais; 2) temos questões de telecomunicações; 3) os nossos custos locais – o custo de cloud, em dólar, é mais alto no Brasil; 4) algumas verticais enfrentam questões regulatórias – bancos e governos são cuidados na questão de colocar dados fora do Brasil e, às vezes têm restrições de fato. A penetração de cloud no Brasil hoje está em torno de 8% a 9% do Total IT Spendings (gasto total de TI – tudo que se gasta em TI no Brasil). Isto, nos países mais avançados varia entre 16% e 17%. A tendência, nos EUA, em 2025, é chegar a 30%/35% de tudo que se gasta com TI. Nós devemos chegar a 15%/16%. O nosso mix de investimento total de cloud x o total de IT Spending não é exatamente igual, porque temos mais dificuldades locais, como mão de obra mais cara, o custo local de cloud… Fizemos um estudo corporativo, utilizando Índices de comparação de preço, considerando o preço o Big Mac, por exemplo, e vimos que o custo local de cloud é 78% mais alto do que nos EUA (comparado ao poder de compra). Nos EUA, o custo de implementação é muito mais baixo do que no Brasil. Infelizmente, nem todos têm a mesma característica. Não temos a presença dos provedores em todos os cantinhos do Brasil, mas está melhorando. Vejo uma melhoria significativa. Estamos três a quatro anos atrasados. Infelizmente, por fatores econômicos e políticos, a história não nos ajudou muito. O fato é que nós ficamos um pouco atrasados. \outros países, inclusive na América Latina, conseguiram acelerar um pouco mais, veja o caso do México que está indo super bem na jornada de cloud.

Vemos o mercado de cloud crescendo e ao mesmo tempo um grande investimento em data center. Como é esta relação?

Os data centers não estão crescendo muito. Nós vemos um crescimento de edge, principalmente, por conta da expansão de IoT (internet das coisas) e 5G etc. Há o crescimento dos grandes data centers, mas a tendência é que os data centers médios e pequenos diminuam. Isto com exceção da Ásia onde tudo cresce. Os DCs diminuem porque as operações se movem para cloud ou collocation. Custa caro manter data center.

Mas ainda tem muita empresa investindo em data center?

Sim, mas o número é estável. Não é crescente. O número total gasto em data center oscila pouco ano a ano. O ciclo de vida útil de data center é longo, até 20 anos. Mas os DCs vêm encolhendo e a maioria deve desaparecer. A tendência é que existam pequenos data center estratégicos distribuídos às vezes por meio de empresas de telco etc., por conta do 5G, que quebra paradigma de velocidade, conectividade, latência, com uma característica interessante na relação preço/performance. Por isto a tendência é vermos uma maior quantidade de edge data centers distribuídos. Estes pequenos DCs distribuídos devem ganhar volume. Vamos vê-los muito nas proximidades das torres de transmissão. Mas o DC médio, tradicional, que conhecíamos, tende a desaparecer. Este é um segmento que cresce nas pontas – no ambiente de grande porte, que é onde as empresas de cloud vivem – tipo Equinix, Ascenty etc. -, ou no pequeno, que tem IoT, o pessoal de manufatura… O Brasil é muito grande e precisa de performance, por isto o pequeno de edge usando 5G é a tendência.

O 5G vai impactar a configuração do mercado de data center?

Vai.  Basta ver quanta coisa nova a AWS está lançando para telecomunicações. E há outros mercados surgindo, como o 6G, os satélites de baixa órbita, que também vêm mudando esta configuração. É tudo combinado, que precisa de cloud junto. Quase tudo estará centralizado, para reduzir custo e risco. Mas também precisa estar distribuído por conta da performance.

Onde as operadoras estão hospedando o core do 5G?

As antenas têm uma área de distribuição de sinal relativamente curta, o que exige a distribuição de antenas pelo país todo. Isto causa uma grande demanda por pequenos data centers espalhados. O processamento precisa estar próximo à antena, que não pode estar longe de quem usa, o que gera a necessidade de distribuição.

A tendência é que as operadoras montem data center próprios?

A tendência é modular, pré-fabricado, e a operadora fazer o deployment, muitas vezes com parceiros locais.

FONTE: https://ipnews.com.br/brasil-amarga-quatro-anos-de-defasagem-no-mercado-de-computacao-em-nuvem/