maio 09

Velho e antenado: faz bem querer acompanhar inovações após os 60 anos

Para quem é jovem, pode se dizer que os celulares são percebidos quase como extensões do próprio corpo, pois fazem de tudo com eles. Computadores, tablets, videogames, drones, o domínio de tudo isso também tiram de letra. Mas como os idosos podem se aproximar mais dessas tecnologias atuais? E quais os pontos positivos para eles, em diferentes aspectos?

Para responder a esses questionamentos, VivaBem consultou quem entende do assunto. Em uníssono, médicos concordam com a citação do cientista e pai da teoria evolutiva Charles Darwin de que “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças”.

Nesse sentido, idoso que se adapta busca por informação, se atualiza e quer fazer parte das mudanças para alcançar uma vida mais produtiva, saudável e longeva.

Bons exemplos não faltam. O cineasta Steven Spielberg, 75, para não “entrar em extinção”, como seus dinossauros, agora produz filmes também para a Netflix e investe em empresas de realidade virtual.

Outra que tem se reinventado é Iris Apfel, que de ícone da moda estadunidense virou influenciadora digital e, hoje, aos 100 anos, ostenta milhões de seguidores. E o que falar de Bill Gates, com 66 anos e planos sobre tatuagens eletrônicas?

Como aproximar idosos e inovações

vô com neto - iStock - iStock

Os netos, ou amigos e vizinhos podem ensinar a pessoa mais velha a mexer em dispositivos tecnológicos

Paulo Camiz, geriatra e professor de clínica geral do HC-FMUSP (Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), explica que idosos têm uma tendência natural à acomodação, por isso defende serem estimulados pelas gerações mais novas, que devem ajudá-los a reconhecer benefícios e vantagens do mundo moderno.

Depois, com o despertar do interesse deles, devem ainda, em conjunto, se predispor a ensinar e tirar dúvidas.

Um neto pode explicar como mexer no smartphone e acessar plataformas de streaming, outro a abrir uma conta de e-mail, a nora a pagar faturas via QR Code, o filho a chamar um carro por aplicativo. Quem acompanha o idoso no dia a dia também deve alertá-lo sobre boas maneiras nas redes sociais, fake news, golpes praticados na internet e como proteger dados pessoais.

Sem nenhum parente, o idoso pode recorrer a amigos, vizinhos (se forem da terceira idade, eles podem até indicar tutoriais, sites e apps simples para usar), ou se matricular em aulas de informática, tecnologia, internet, projetos sociais, oficinas.

A USP, por exemplo, conta com o Programa Universidade Aberta à Terceira Idade, com diferentes opções de cursos e atividades.

Inclusive, os mais velhos, por terem um grande repertório de experiências, acrescentam muito às aulas, pois são bastante participativos, curiosos, dedicados e encorajam os mais novos.

“Idosos apresentam um pouco mais de dificuldade para adquirir informações, podem até demorar mais quando comparados a jovens, mas eles conseguem. A não ser que tenham alguma doença que impeça isso, como uma demência, ou falta de vontade, que também pode ter relação com doença, como depressão”, complementa Camiz. Por isso devem se consultar regularmente com o médico, que ainda pode indicar um acompanhamento psicoterapêutico.

Mais propósitos, interação e saúde

Quem cruzou a linha dos 60 anos (no Brasil, são mais de 28 milhões, segundo o IBGE) deve ter autoconsciência de que pode viver até mais 40 anos, pois o mundo, apesar dos problemas atuais, melhorou muito.

Assim, a inclusão digital se faz necessária para que possam produzir, consumir e interagir mais, e a pandemia de covid-19 somada ao isolamento social pode se dizer que foi um marco, pois intensificou o uso das telas.

Dados deste ano do Pew Research Center, dos Estados Unidos, revelam que o YouTube ganhou força entre os adultos mais velhos. De 2019 a 2021, o uso da plataforma aumentou de 38% para 49% por aqueles com 65 anos ou mais.

No Brasil, a participação online de pessoas com 60 anos ou mais também saltou, de 34% para 50% entre 2020 e 2021, segundo estudos recentes. E os idosos ainda têm se dedicado mais a passatempos virtuais, 36% deles jogam diariamente.

Computador, inclusão digital, idoso, idosa, internet - iStock - iStock

Pois é, idoso que se adapta aos novos tempos, o que inclui acompanhar e discutir o que ocorre localmente e ao redor do globo, se abre para novos conhecimentos e amizades, mas, também, possibilidades de entretenimento, projetos profissionais e transformações na área da saúde.

“Aprender coisas novas preserva e exercita as funções cognitivas, como foco, linguagem, velocidade de resposta e raciocínio, aumentando o hipocampo, área do cérebro que ainda influencia na memória e nas emoções”, garante Júlio Barbosa Pereira, médico pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) e neurocirurgião, complementando que com a mente ativa melhora-se a autoestima e evita-se ainda doenças neurodegenerativas (Alzheimer, Parkinson).

Por mais simples que seja, manipular um mouse, painel ou teclado tátil para quem até então nunca praticou é um movimento complexo, capaz de acionar novas conexões neurais e aprimorar aspectos, no que diz respeito a tomadas de decisões, independência e motricidade.

Ajudam a si e aos outros

Idoso usa celular - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto

Os ganhos ainda se estendem para as pessoas que participam da rotina do idoso. Para evitar apreensão toda vez que saiam de casa, podem ser instalados em seus smartphones, com consentimento deles, dispositivos GPS, que rastreiam e dão suas localizações, enviam alertas e os orientam por trajetos, evitando que se percam e se coloquem em perigo.

Também vale que andem com carregador portátil e, caso dirijam, priorizem veículos modernos, com adaptações.

Para os que moram sozinhos, a tecnologia wearable (de dispositivos com conexão a outros aparelhos ou internet e que podem ser usados ou vestidos como acessórios) também é muito bem-vinda. O idoso utiliza colares e pulseiras que carregam botões “SOS”, ou sensores, para, em emergências, acionar imediatamente familiares, cuidadores e centrais de atendimento.

“Ainda existem vários aplicativos que os ajudam a se organizar, prevenir erros e lembrar de tarefas e atividades a serem realizadas ao longo do dia, como tomar remédios”, informa Lucas Oliveira, geriatra do Hospital Cárdio Pulmonar, da Rede D’Or, em Salvador.

Essas ferramentas apontadas pelo médico contam com funções personalizáveis, lembretes diários do que é preciso fazer em tal hora, de acordo com quantidade e até o tipo de medicamento.

“Geralmente, quando existe uma maior resistência, também existe alguma limitação. A família deve ter paciência em primeiro lugar e buscar um cuidado especializado para adaptar ou sanar as dificuldades desses pacientes. Um profissional que é de grande importância é o terapeuta ocupacional. Lembre-se: esse processo deve ser o mais natural possível”, acrescenta Oliveira.

FONTE: https://www.uol.com.br/vivabem/noticias/redacao/2022/04/29/velho-e-antenado-faz-bem-querer-acompanhar-inovacoes-apos-os-60-anos.htm