Startups verdes criam soluções ‘tech’ sustentáveis e Brasil pode alcançar US$ 75 bilhões até 2030

‘Greentechs’ estão no radar de organizações e investidores.

A escassez de recursos naturais e o avanço das mudanças climáticas, aliados à pressão de consumidores por melhores práticas de ESG (sigla para ambiental, social e governança) pelas empresas, têm feito organizações e investidores mirarem nas chamadas greentechs, as startups sustentáveis. É um mercado crescente, e o Brasil tem potencial para se destacar nele, avaliam especialistas. Relatório da Allied Market estima que o mercado de greentechs, avaliado em US$ 10,32 bilhões em 2020, deverá atingir US$ 74,64 bilhões até 2030.

Há pelo menos 223 startups verdes no país, segundo levantamento da Climate Ventures, plataforma de inovação focada em soluções climáticas. São negócios de diferentes áreas, do saneamento e gestão de resíduos e florestas à indústria, energia e agropecuária. Desse montante, cerca de 57% dos negócios já têm o mínimo produto viável (MPV), indicador de validação, e já estão em fase de avanço acelerado ou ganhando escala.

Os dados se referem a 2022, pesquisa mais recente publicada pela plataforma. Mas a Climate Ventures prevê divulgar números atualizados no segundo semestre, em nova pesquisa juntamente com A Onda Verde, plataforma com apoio do Pacto Global da ONU que conecta empresas que buscam soluções de baixo carbono com quem as oferece.

Um dos exemplos é a umgrauemeio, startup que criou um algoritmo capaz de identificar focos de incêndio em três segundos. A empresa foi criada em 2016 com o nome de Sintecsys, mas mudou três anos depois para refletir o compromisso com a meta de limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C, conforme o Acordo de Paris.

Após anos operando com capital próprio, a empresa captou R$ 18,7 milhões em uma rodada de investimento este ano e prevê expandir para mercados internacionais. A ideia é ampliar o uso do software Pantera, ferramenta que usa inteligência artificial num sistema de monitoramento de câmeras instaladas no topo de torres de comunicação. Por meio de imagens enviadas em tempo real, o sistema reconhece focos de incêndio e notifica operadores. São monitorados mais de 17,5 milhões de hectares no Brasil.

Contra incêndios

Entre os 28 clientes, estão empresas como Suzano, Raízen e JBS. Segundo Osmar Bambini, cofundador da startup, clientes reportaram redução de 85% na área queimada, 80% no tempo de resposta, 100% nas penalidades por incêndios e queda de custos operacionais de até 70%. Agora, a empresa está investigando a proteção contra outros eventos climáticos, uma demanda crescente no mercado, principalmente depois das cheias no Rio Grande do Sul:

— O clima extremo apresenta outros desafios e impacta gravemente pessoas e negócios, como observado agora no Rio Grande do Sul. Novas soluções de adaptação serão essenciais para enfrentar a crise climática — diz Bambini.

Já a startup franco-brasileira Morfo, criada em 2021, utiliza tecnologia para restaurar ecossistemas florestais nativos em grande escala. Drones e satélites coletam dados da área a ser reflorestada. Em seguida, profissionais desenham uma estratégia para definir padrões de plantio. Daí entram em ação os drones, que dispersam sementes em cápsulas e processam até 50 hectares por dia. Por fim, há um monitoramento para acompanhamento a longo prazo.

A empresa restaurou 600 hectares até agora, sendo 500 no Brasil, e quer recuperar 100 milhões de hectares de floresta até 2050 em regiões tropicais e subtropicais.

Adrien Pages, CEO da Morfo, considera promissor o ambiente de negócios no Brasil. As empresas têm equipes qualificadas em ESG graças ao Código Florestal e às regulamentações ambientais de longa data, diz:

— É um destino atraente para empresas europeias e americanas que investem em iniciativas verdes. Estamos otimistas de que a próxima COP30 mostrará a liderança brasileira na condução de uma revolução verde global.

Também franco-brasileira, a startup Net Zero caminha para a sua segunda fábrica de biocarvão no país. Com certificação internacional, a empresa gera créditos de carbono a partir do biochar, um resíduo sólido agrícola que se assemelha ao pó de carvão.

Carvão do carbono

Ele é obtido por meio da extração do carbono, durante um processo de combustão, e está presente em resíduos vegetais como cascas de café e bagaços de cana-de-açúcar. Além de armazenar o carbono longe da atmosfera, o produto ainda retém nutrientes ao ser aplicado no solo e reduz o uso de fertilizantes.

A startup captou € 11 milhões no ano passado com Stellantis, L’Oréal e CMA CGM para acelerar os negócios. E acabou de conseguir mais € 18 milhões com o fundo de investimentos de impacto STOA para dar escala à sua produção.

A primeira fábrica foi inaugurada em Lajinha (MG) em abril de 2023, e a próxima unidade em Brejetuba (ES) está prevista para o fim de junho. Com foco na economia circular, seus parceiros de fornecimento de biomassa e compra de biochar são produtores rurais locais, incluindo a cooperativa Coocafé. Além disso, fechou acordos com multinacionais que estão no Brasil, como EISA e Nespresso.

Para Olivier Reinaud, co-fundador e diretor da NetZero, o maior desafio hoje é tornar o biochar popular. E a empresa tem avançado nisso:

— As mudanças climáticas estão à mesa, e muitas gigantes agroindustriais no mundo desenvolveram comitês de emissão zero de carbono. Todos têm identificado o biochar como peça-chave nesse objetivo, especialmente quando se olha para redução no uso de fertilizantes, um dos grandes provedores de pegadas de carbono na agricultura.

Em Hortolândia, no interior de São Paulo, a startup Eco Panplas opera uma planta onde recicla embalagens de óleos lubrificantes sem o uso de água no processo — resultado de uma tecnologia própria, patenteada e única no mundo, que reduz custos e impacto ambiental. O plástico reciclado é vendido, e a startup ainda revende o óleo residual que é recuperado no processo.

A cada 500 toneladas de plástico reciclado pela Eco Panplas, são recuperados 17 mil litros de óleo e preservados 17 bilhões de litros de água. A solução também evita emissões de 800 toneladas de CO2.

Foram seis anos até validar a tecnologia, atingir as viabilidades técnica, econômica e ambiental e produzir em escala de operação. O desafio agora é encontrar parceiros para captar suprimentos e acelerar o ganho de escala.

— A gente vem conversando com investidores estratégicos, sejam empresas ou fundos de capital, que têm sinergia com o negócio. Só 9% das embalagens de lubrificantes são coletadas no mercado hoje — conta Felipe Cardoso, sócio fundador da Eco Panplas.

Segundo ele, o objetivo é ter mais unidades aqui no Brasil e licenciar a tecnologia fora do país. Cardoso diz que houve reuniões com CEOs no Fórum Econômico Mundial em Davos, com empresas da Índia, Japão, Coreia do Sul e da América Latina:

— Estamos avançando em negociações.

Desafios

Daniel Contrucci, diretor executivo e cofundador da Climate Ventures, vê uma expansão do mercado de greentechs no país nos últimos seis anos, mas avalia que ainda há menos negócios do que o necessário. Há dificuldade para levantar capital junto aos investidores. A ausência de incubadoras para startups em estágio inicial é outro entrave.

Soluções de blended finance, financiamento que reúne aportes de filantropia, dinheiro público e recursos privados, têm sido um instrumento para reduzir o risco de um negócio e compensar a falta de um ambiente ideal para investimentos de capital de risco. A Estratégia Nacional de Economia de Impacto (Enimpacto) que vem sendo desenhada pelo governo federal também é vista com bons olhos, já que prevê criar um ambiente de negócios mais favorável.

— A gente espera que o aumento de regulamentações, diminuição de impostos e simplificação de aspectos jurídicos facilitem o ambiente. Além, claro, de uma taxa de juros menor para que esses investimentos sejam mais atraentes — diz Contrucci.

FONTE: https://oglobo.globo.com/economia/negocios/noticia/2024/05/29/startups-verdes-criam-solucoes-tech-sustentaveis-e-brasil-pode-alcancar-us-75-bilhoes-ate-2030.ghtml