maio 03

Startups de construção civil ganham espaço com empurrão de tradicionais do setor

O Brasil possui 21.783 startups, mas apenas cerca de 400 são voltadas à construção civil

O setor de construção civil tem passado por drásticas mudanças nos últimos meses – tanto em termos conjunturais como estruturais. O cenário tem sido prejudicado pelas perspectivas de desaceleração econômica, inflação galopante e taxa de juros.

Por outro lado, o momento de crise também muda a perspectiva estrutural do ponto de vista da entrada de novas empresas que prometem inovar no setor de construção civil: as startups, ou no caso, construtechs.

A pandemia acelerou iniciativas e investimentos em tecnologia ao redor do mundo, sobretudo em momentos onde o distanciamento foi necessário e as políticas monetárias procuravam resgatar o que restava das economias.

Porém, de acordo com a ABStartups (Associação Brasileira de Startups), o setor de construção civil corresponde a apenas 1,84% das empresas inovadoras do país. Os principais segmentos são Educação (10,59%), Finanças (7,22%) e Saúde e Bem-estar (6,04%).

Segundo a associação, o Brasil possui 21.783 startups. Com isso, o número de mentes empreendedoras voltadas especificamente para o setor é de aproximadamente 400.

As chamadas construtechs têm grandes desafios e modelos de negócio que dependem de alta expertise em investimento e alocação de capital no âmbito da construção civil, entendendo as maiores dores do setor.

Mesmo que com uma estrutura mais enxuta, as empresas precisam lidar com implementação de tecnologia escassa, ou seja, com pouca efetividade provada no país, além de trazer uma mudança cultural para o canteiro de obras brasileiro – que é controlado por grandes incorporações.

As startups da construção civil

Não há nenhum unicórnio, aquelas startups que valem mais de US$ 1 bilhão, dentre as construtechs. Isso não significa que o mercado não esteja aquecendo.

Em dezembro do ano passado, a Ambar recebeu um aporte de R$ 204 milhões em uma nova rodada de investimentos. Foi a Série C, encabeçada por Echo Capital e Oria Capital, além de outros acionistas que acompanharam a operação.

A startup, que quase dobrou de tamanho, opera em duas frentes de negócio: Industrialização e Digitalização.

A primeira oferece soluções para que os parceiros operem de forma estruturada e progressiva, abrangendo componentes até paredes prontas para empreendimentos, focando no melhor custo de produção evitando desperdícios.

Segundo a empresa, US$ 1,6 trilhão é perdido anualmente pela baixa produtividade do setor em todo o mundo, ao passo que 50% do custo da construção pode ser de mão de obra.

Do outro lado, a empresa opera em digitalização com a Autodoc, líder em SaaS (software as a Service) desde 2003 para a construção civil.

Ao todo, já são R$ 300 milhões captados por meio de cinco fundos de investimento que acreditam no case. Mas, como a maioria das startups no Brasil, a Ambar opera B2B (business to business).

De acordo com a ABStartups, 47,41% das empresas inovadoras do Brasil trabalham diretamente com outras companhias. No caso da Ambar, os grandes parceiros são empresas como MRV (MRVE3), Cyrela (CYRE3) e Direcional (DIRR3).

Isso porque não é trivial atuar B2C (business to consumer). Operar diretamente com o público final, especialmente neste segmento, demanda uma série de vantagens competitivas que, a princípio, as startups não têm, como expertise na precificação de produtos e robustez em períodos de crise imobiliária.

Contratos e parcerias que trazem recorrência de receita às startups parecem ser mais factíveis em negócios com a contraparte sendo um business.

Todavia, ainda há muito espaço a ser preenchido. O setor de construção civil, que parece consolidado no Brasil, ainda carece de eficiência em todas as áreas da incorporação – principalmente em momentos como o atual, que a inflação da construção civil segue em alta e o desperdício é um real inimigo.

Outro destaque do setor que recentemente se capitalizou foi a DataLand. A startup usa dados e inteligência artificial que otimizam o estudo de viabilidade de incorporações.

Na prática, a empresa propõe soluções para coleta e catalogação de dados que auxiliam na tomada de decisão de clientes.

Nesse caso, a empresa ainda está em estágio inicial. Em agosto do ano passado, o multi-family office GHT4 investiu R$ 5 milhões na empresa, em uma rodada seed money que pode atingir R$ 25 milhões.

A DataLand tem uma plataforma que analisa a cidade de São Paulo em um a um dos 3,5 milhões de lotes registrados. O objetivo é atingir essa granularidade de dados de cerca de 40 municípios nos próximos anos.

A operação da startup promete preencher algumas das lacunas que as inovadoras do setor têm no radar para solucionarem, como inteligência artificial e análise de dados avançada para o investimento em projetos por parte de grandes incorporações.

Atualmente, é pouco provável que uma startup pura do segmento de construção civil, deixando de lado aquelas focadas em distribuição e anúncio de imóveis, possa fazer frente às tradicionais construtoras e incorporadoras.

Por ora, uma análise sugere justamente o contrário: de complementaridade das operações e otimização dos processos.

Ganhos de eficiência se tornam latentes sobretudo em momentos em que a demanda possa ser restrita, forçando a oferta a acompanhar a precificação de mercado.

Construção civil tradicional não deixa barato

Por mais que a perspectiva atual não ofereça riscos ao setor de construção civil tradicional do ponto de vista de concorrentes inovadores, o segmento parece não estar contente com o mainstream.

Três das grandes empresas do setor no Brasil, que atuam em certa medida desde a baixa renda até a alta renda, têm investido em inovação, tecnologia e otimização de processos de suas atividades.

MRV tem uma área exclusiva para parcerias com startups, com o intuito de desenvolver soluções para o ramo imobiliário. Atualmente, a empresa tem três desafios em aberto para que startups possam se inscrever e, então, passar a atuar junto à construtora.

Os três programas são relacionados a eficiência operacional, qualidade e durabilidade das entregas e experiência dos clientes. Eficiência é uma palavra que a MRV tem procurado.

No quarto trimestre do ano passado, a empresa sofreu com sua operação core no Brasil, com o aumento dos custos, e viu seu resultado ser sustentado por subsidiárias – entre elas, uma considerada startup.

A Luggo adquire terrenos, constrói apartamentos e depois aluga. Em seguida, os edifícios são vendidos.

No quarto trimestre de 2021, a empresa vendeu dois empreendimentos, por R$ 106 milhões, trazendo um efeito positivo sobre o Ebitda da MRV.

Ebtida da MRV custa a despontar

Fonte: TradeMap

Cyrela também tem um forte viés para a tecnologia no setor. A iniciativa Next Floor procura construtechsproptechs e startups que possam auxiliar a companhia em processos internos que não necessariamente têm relação com a construção civil.

Proptech é uma empresa que usa tecnologia, dados, inteligência artificial pra oferecer serviços que tenham ligação com propriedades – a QuintoAndar é um exemplo delas.

Construtechs proptechs cresceram 235% entre 2016 e 2021, de acordo com a Terracotta Ventures, o que chamou atenção da Cyrela.

Até o momento, a construtora já criou duas startups, investiu em cinco e tem contato com mais de 100 projetos. Ainda há caminho a se trilhar: no último release de resultados, a empresa não citou desempenho de qualquer iniciativa ligada a startups, tecnologia ou inovação.

A Eztec (EZTC3) também tem demonstrado interesse em adicionar inovação ao seu trabalho no dia a dia. A empresa paulistana tem uma área voltada para Inovação e Processos, que enxerga a tecnologia como necessária para o desenvolvimento do mercado.

Na visão da empresa, as novas ideias precisam ser viáveis e, de fato, agregar valor ao negócio como um todo, o que é desafiador. Contudo, isso pode ser alcançado através de parcerias com startups e desenvolvimento de soluções para a indústria.

Em termos práticos, a Eztec já utiliza tecnologias para otimizar suas atividades, por mais que não estejam ligadas exclusivamente à construção civil. Uma delas é uma parceria com a DocuSign, de assinatura eletrônica. De acordo com a empresa americana, suas soluções reduzem em 67% o tempo de conclusão dos contratos, saindo de 60 dias para 20 dias.

Além disso, a empresa tem menor despesa com papel e transporte. Mesmo que indiretamente, já é observada uma redução das despesas administrativas da Eztec, com queda de 7,9% nesta linha entre 2020 e 2021 (abaixo da inflação no período).

Cenário negativo até quando?

A conjuntura para o setor de construção civil está longe de ser o melhor dos mundos. De acordo com a apuração da Agência TradeMapo setor deve pisar no freio em lançamentos.

Isso porque a perspectiva para a taxa de juros é de manutenção na casa dos dois dígitos por mais tempo que o esperado inicialmente, enquanto a inflação se mostra menos transitória e mais estrutural em todo o mundo. Para piorar, o desemprego ainda segue alto no Brasil.

O cenário tende a impactar sobretudo a média renda, que depende da contratação de crédito junto a instituições financeiras para consumir.

De um lado, a alta renda é menos suscetível a esse tipo de movimento, e do outro a baixa renda faz uso de subsídios. No caso da construção civil, as empresas operam junto ao programa Casa Verde e Amarela.

A visão geral, porém, é de que o Brasil é um país com taxa de juros altas por natureza – ou seja, a indústria já opera com esse viés.

É esperado que ao longo deste ano haja alguma volatilidade em termos de resultado, principalmente em função da desaceleração de lançamentos, gestão dos estoques e inflação de custos – mas nada que interrompa os negócios das grandes construtoras e incorporadoras, que têm caixas abastados.

O contexto é de controle de despesas e, eventualmente, de suspensão de investimentos, o que sugere que o setor de construção civil deve se preparar para os próximos anos sem muitas mudanças. Contudo, tempos de crise tendem a abrir oportunidades para que startups se destaquem com propostas complementares.

FONTE: https://trademap.com.br/agencia/analises-e-relatorios/construcao-civil-startups-inovacao-tecnologia-mrv-mrve3-eztec-eztc3