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Professora leva robótica à periferia de SP e ganha reconhecimento mundial.

Professora e os alunos da Escola Almirante Ary Parreiras(Foto: Débora Garofalo, Arquivo pessoal)

Antes de chegar a Dubai, Débora Garofalo conquistou o Prêmio Professores do Brasil, do Ministério da Educação

Da Vila Babilônia, periferia de São Paulo, e do vilarejo de Pwani, área rural do Quênia, saíram dois nomes que durante a semana ganharam destaque na imprensa mundial. A professora brasileira Débora Garofalo, 39 anos, colocou a Escola Municipal Almirante Ary Parreiras no mapa da educação. Assim como o franciscano queniano Peter Tabichi, 36 anos, da Escola Secundária Keriko Mixed Day, em Pwani Village, no Vale do Rift — esse reconhecido como o melhor professor do mundo pelo prêmio Global Education and Skills Forum, anunciado nos Emirados Árabes.

Concedido anualmente desde 2014 pela Fundação Varkey, de Dubai, o prêmio para o vencedor é de US$ 1 milhão (R$ 3,9 milhões) e tem que ser usado para fins educacionais. Antes de chegar ao evento de Dubai, Débora conquistou o Prêmio Professores do Brasil, do Ministério da Educação (MEC).

Foram 10 mil candidatos de 177 países que neste ano se inscreveram no Global Teacher Prize. Depois de uma primeira seleção ficaram 50 semifinalistas e, na final, 10 com perfis diferentes, apesar de todos comprometidos com comunidades escolares cercadas de problemas. É exatamente isso que une a brasileira Débora e o queniano Tabichi.

No início, professora venceu a desconfiança de alunos

(Foto: Débora Garofalo, Arquivo pessoal)

Um carrinho feito de rolo de papelão e movido a balão de ar, desses de festa de aniversário, foi o primeiro protótipo do projeto Robótica com Sucata. No começo, lembra a professora, houve desconfiança por parte dos alunos de que a junção daquelas peças iria dar certo.

Ao ver o carrinho se movendo os olhares passaram a ser de admiração. A experiência trabalhava com a terceira Lei de Newton, o princípio da ação e reação, e algo científico se tornava acessível através da dinâmica de laboratório. Com o tempo foram construídos outros objetos, como aspirador de pó, mão mecânica, placas solar para gerar energia. Sobre o uso das tecnologias, Débora considera que é necessário perder o medo.

O receio de não dominá-la faz com que muitos educadores não inovem seguindo métodos tradicionais e pouco atrativos para estudantes.

— Nós nunca vamos dominar a tecnologia, pois ela está em constante modificação, mas não podemos ter medo. Nosso papel mudou e somos mediadores, sendo possível fazer grandes coisas com poucos recursos — diz.

Para a professora, é importante mostrar aos alunos que eles podem ser construtores da própria aprendizagem. O uso de garrafas PET na criação de sistemas automatizados foi uma grande surpresa. Além disso, o projeto retirou uma tonelada de recicláveis das ruas. Fato que diminuiu o alagamento de determinadas áreas, como constata a comunidade, e doenças perigosas.

Com aula mais interessante, diminuiu a indisciplina e a evasão. Os resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) da escola cresceram de 4.2 para 5.2. O projeto Sucata também revelou um avanço na questão de gênero: existia um pensamento de que meninas não mexiam em ferramentas e agora já tem moça pensando na ciência como profissão.

Educadora defende uso do celular como recurso pedagógico

Débora defende a necessidade de aproveitar os processos disponíveis, como o celular, o qual considera um recurso pedagógico fundamental. Além disso, sugere que problemas sociais sejam atrelados ao currículo.

— Nossa experiência colocou a educação pública no cenário internacional, e isso é algo fantástico. Provamos ser possível ter excelência e qualidade na educação pública — afirma.

O reconhecimento mundial está fazendo com que os alunos da professora compreendam bem mais os ensinamentos. Na quinta-feira, uma discussão entre alguns deles foi interrompida:

— Vamos parar com isso: esta semana a professora levou nossa escola para o mundo por uma coisa boa. Chega de briga — pediu um deles. Foi atendido.

Orgulho dos estudantes e colegas no retorno à escola

Os alunos e a professora durante atividades(Foto: Débora Garofalo, Arquivo pessoal)

A manhã do dia 27 de março foi com abraços e agradecimentos na Escola Municipal Almirante Ary Parreiras, distrito do Jabaquara, periferia de São Paulo. Três dias depois de ser anunciada entre os 10 melhores professores do mundo, Débora foi recebida pelos colegas e alunos com orgulho. De tudo que ouviu, conta, o que mais a marcou foi o que disseram os estudantes:

— Professora, não importa se não venceu o prêmio principal. A senhora já faz a diferença, pois faz diferença nas nossas vidas — contou emocionada ao DC, por telefone.

Débora avalia que, como professora do ensino público, significa muito ter participado do Global Teacher Prize 2019. A premiação a fez repensar o papel do educador e o quanto é necessário valorizar os professores e as suas boas práticas. Além de transformar as iniciativas bem-sucedidas em políticas públicas que melhorem o sistema de ensino. Sem isso, diz, as realidades ficam ainda mais difíceis.

— Eu vi isso durante a premiação. Todos os países que lá estavam valorizam a educação como premissa para ter uma nação próspera. É fundamental que no Brasil valorizemos os professores — sugere.

Com 14 anos de magistério e há quatro na escola na Escola Municipal Almirante Ary Parreiras, Débora leciona Tecnologias há três anos. Os alunos são crianças e adolescentes do 1º ao 9º ano do Ensino Fundamental. Em 2015, quando ingressou no corpo docente, encontrou estudantes desinteressados e com baixo desempenho escolar.

Motivá-los com aulas interessantes foi um dos objetivos da professora formada em Letras e Pedagogia e que viu no uso de peças recicláveis recolhidas no entorno do colégio uma possibilidade.

Ministério da Educação vive disputa entre dois grupos

Uma disputa interna opõe dois grupos que têm visões distintas de como o Ministério da Educação (MEC) deve operar. De um lado, os militares, do outro os seguidores do escritor Olavo de Carvalho e também ex-alunos do ministro Ricardo Vélez. O próprio ministro foi indicado por Carvalho.

O saldo dessa disputa: a exoneração de 17 funcionários do alto escalão, o cancelamento de decisões, pedidos de desculpas e de demissões e a falta de execução de metas e programas. Com isso, a educação, um dos temas mais importantes da agenda nacional, está à deriva.

A desavença pode afetar programas importantes, como o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) de 2019. Apesar de ser aplicada apenas em novembro, a prova é pensada durante todo o ano. A educação básica e a implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) também são áreas que, apesar de não serem de oferta direta do MEC, podem ser afetadas.

Enquanto o MEC está sem rumo, a professora Débora Garafalo mostra ao mundo uma educação que dá certo.

FONTE: nsctotal.com.br