dez 06

Preservação e robótica, conheça as tendências do agro

Os desafios do campo nas próximas décadas foram abordados por especialistas no seminário Campo em Debate, na PUCRS Tadeu Vilani / Agencia RBS

Setor projeta maior uso de tecnologia em máquinas agrícolas, expansão do trabalho de robôs nas lavouras e preocupação crescente com a preservação de terras

Foi com um recorte de jornal na mão que o advogado e produtor rural Arlindo Müllich, 80 anos, propôs um programa diferente aos netos Stanzi e Johann Fensterseifer, de 22 e 26 anos. O passeio incluía acordar cedo e pegar a estrada de Santa Cruz do Sul rumo a Porto Alegre para debater o futuro. Convite aceito, o patriarca deu início a mais um capítulo do processo de sucessão que determinará os rumos do negócio da família. Ao lado dos netos, Müllich fez parte da plateia do Campo em Debate – O Futuro do Agronegócio, realizado no dia 14 de novembro no Teatro da PUCRS. Convicto de um amanhã promissor para a Granja Califórnia, propriedade de 800 hectares em Santo Augusto, onde cultiva soja, milho e trigo, acredita que a chave do desenvolvimento é a integração.

O dia a dia do homem do campo está distante das cidades. Temos que começar a pensar melhor esse país, hoje fracionado em grupos antagônicos e que nada têm de antagônicos. Todos lutamos por um objetivo comum que é sobreviver e legar um país agradável de se viver.

O desafio é grande, mas há inovações para ajudar. Na Granja Califórnia, se usa tecnologia nas máquinas para aprimorar a tomada de decisão, alinhamento sugerido no evento pelo professor da Universidade de São Paulo (USP) Rafael Vieira de Sousa. Segundo o especialista, uma tendência é o uso de robôs. Em 2050, prevê, serão 9 bilhões de unidades em ação em diversas áreas, mesmo número de pessoas projetado para o Planeta.

Müllich lembra que os investimentos permitiram avanços na produtividade nos quase 50 anos dedicados à atividade. Mas ainda há muito a melhorar. Segundo o gerente de Inovação e Sustentabilidade da Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andef), Roberto Sant’Anna, apesar de o potencial produtivo de algumas sementes de soja ser de 300 sacas por hectare, a média nacional ainda é de 50 sacas.

– Temos que nos preparar para tirar o melhor proveito da tecnologia – disse, reforçando a importância de alternar o uso de defensivos químicos e biológicos.

Os ganhos também advêm de investimento em correção do solo e rotação de cultura, medidas que, segundo Müllich, impactam a colheita. Uma preocupação crescente que o produtor também acompanhou por meio da palestra do analista de geoprocessamento da Embrapa Monitoramento por Satélite, Paulo Roberto Rodrigues Martinho. De acordo com o especialista, apenas 30% do território é utilizado para lavouras e pastagens, enquanto 66,3% é destinado à vegetação protegida e preservada.

Cuidado com o ambiente

A sustentabilidade dos cultivos está nos planos dos novos líderes rurais. Segundo a jovem Stanzi, ganha força na cidade a preocupação sobre a origem dos alimentos e como são produzidos.

– Cada vez mais, as coisas se entrelaçam. É importante ressaltar essa ligação do alimento com o produtor e com o consumidor. É essencial a sociedade compreender que é um ciclo, e não partes isoladas – avaliou a neta.

Tadeu Vilani / Agencia RBS
O agricultor Arlindo Müllich, 80 anos, convidou os netos Stanzi e Johann Fensterseifer, de 22 e 26 anos, para debater o futuroTadeu Vilani / Agencia RBS

O aumento do interesse das cidades pelo campo deve estimular pesquisas de outras áreas em prol do agronegócio. Como pretende fazer Johann Fensterseifer, que estuda engenharia química e ambiental para levar novos conceitos à propriedade do avô no futuro. Juntos, eles têm diferentes atributos para qualificar o manejo e a gestão da fazenda. Mesmo assim, não deixam de buscar novos aprendizados.

– Estamos aqui por curiosidade. É ela que move o mundo – diz Müllich.

Falta de capital é entrave à tecnologia

As lavouras inteligentes que os especialistas preconizam como lastro do desenvolvimento ainda estão distantes da realidade de muitos produtores. Sem capital de giro e com preços de grãos abaixo do suficiente para pagar as contas e garantir reinvestimento das lavouras, muitos olham para as inovações como pacotes em uma prateleira inacessível. É o caso de Deni Caminha que, depois de anos cultivando arroz em Pelotas, trocou a várzea gaúcha pelo Tocantins e, do fundo do auditório, acompanhou o desenrolar do Campo em Debate – O Futuro do Agronegócio. Nesta safra de verão, o agricultor está cultivando 2 mil hectares de arroz irrigado na chamada Bacia da Lagoa da Confusão, em Pium (TO). Lá, conta ele, há menos riscos climáticos, mas os altos custos de produção ainda corroem o lucro dos arrozeiros.

– Essa produção tecnificada é muito cara, e ainda não temos o retorno para isso. O preço do nosso produto não vale. Há 10 anos, vendia o arroz no mesmo preço de hoje e os custos eram bem mais baixos. Desse jeito, ninguém fecha a conta – reflete Caminha.

Apoio do governo

O caminho, sugere o produtor, é um pacote de políticas públicas eficientes que ajude quem produz e, ao mesmo tempo, repare distorções. É o caso do déficit logístico e do custo Brasil, dois pontos citados pelos produtores Caio Nemitz e Carlos Scheibe, que representaram os agricultores no evento. Nemitz pontua a falta de investimento em modais ferroviário e hidroviário para desafogar estradas e evitar filas nos portos no pico da safra.

– Se conseguirmos colocar locomotivas e vagões mais modernos, iremos bem mais longe no transporte ferroviário – avalia Nemitz, alertando para a urgente necessidade de obras de infraestrutura logística para levar a produção de forma mais racional ao porto de Rio Grande.

Setor precisa de diálogo com a cidade

A necessidade de mostrar à população urbana os dilemas do homem do campo e a importância de um cultivo sustentável para a sobrevivência do planeta foi a tônica da abertura do seminário Campo em Debate – Futuro do Agronegócio, promovido pelo Grupo RBS com apoio da Syngenta e mediado pela jornalista e colunista de ZH Gisele Loeblein.

– O agronegócio está no coração do Rio Grande, e estamos muito felizes por traduzir e conectar essa linguagem do campo e do agronegócio para a cidade – comentou Claudio Toigo Filho, CEO de Mídias do Grupo RBS, ao abrir o evento.

Diretor de Assuntos Corporativos da Syngenta, Pablo Casabianca lembrou que este é exatamente um dos propósitos da multinacional que lançou, em 2013, o chamado The Good Growth Plan. O plano reúne compromissos a serem cumpridos até 2020. O projeto consiste em produzir mais com menos recursos naturais, preservar a biodiversidade, recuperar terras degradadas e melhorar a vida de comunidades rurais ao redor do mundo.

– As iniciativas não podem parar no campo, precisam ser conhecidas pela cidade – disse.

 Importância do campo

Na opinião do secretário estadual da Agricultura, Ernani Polo, o projeto Campo e Lavoura – Da Terra à Mesa contribuiu para desmitificar a atividade rural, pois leva à cidade uma concepção mais real do campo e do trabalho realizado nas lavouras. Citou o empenho necessário para produzir ao lembrar que, em apenas uma safra, o agricultor precisa tomar mais de 2 mil decisões.

– Estamos vivendo um momento de transformação. Quem não avançar acabará ficando excluído do processo – frisou.

O secretário estadual do Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo, Tarcísio Minetto, ponderou que transformar e desenvolver o campo é um desafio de todos que fazem parte do setor primário.

 – Temos a responsabilidade de estar juntos nesta caminhada e buscar o melhor para os produtores rurais gaúchos.

DESAFIOS À FRENTE
• O Código Florestal Brasileiro precisa incluir previsões acerca dos avanços tecnológicos. Quem faz agricultura de baixo carbono ou trabalha com integração lavoura-pecuária deve ser ainda mais valorizado.
• Órgãos públicos e agricultores devem estar preparados para a chegada de novas pragas no país.
• É importante uma mudança nas leis para incluir as inovações no dia a dia do campo, como a compra de insumos agrícolas pela internet.
• É necessário investimento nos modais ferroviário e hidroviário.
• O produtor precisa estar aberto à tecnologia para produzir em áreas e condições cada vez mais hostis.
• O avanço da mecanização no campo exigirá integração entre marcas.  O produtor deve reivindicar junto aos fabricantes a adoção de sistemas de comunicação que conversem entre si e permitam troca de informações.