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PayPal planeja oferecer crédito no Brasil

Por Flávia Furlan

De Nova York – A plataforma de transações on-line americana PayPal, cofundada pelo bilionário Peter Thiel, ampliará os serviços e as aquisições, com o objetivo de alavancar o crescimento no Brasil. Entre os principais focos, estará o pequeno varejista, público carente de serviços financeiros para o qual planeja oferecer crédito. “O PayPal costumava ser um botão de pagamento em um website, mas nos transformamos em uma plataforma de serviços para os varejistas e consumidores”, disse ao Valor Federico Schumacher, diretor-geral para Brasil e México do PayPal.

“Para a região da América Latina, há muitos serviços financeiros que queremos trazer.” Um deles é o Working Capital, uma linha de crédito que foi lançada há cinco anos nos EUA e já alcançou US$ 10 bilhões emprestados. O México conta com a modalidade desde fevereiro, em uma parceria com uma fintech chamada Konfio. O PayPal tem a meta de lançar a modalidade nos próximos meses ao Brasil, com uma parceria, uma vez que no país a empresa atua como instituição de pagamento desde maio.

“Na área de crédito, resolvemos entrar porque lidamos com negócios muito pequenos. E é onde podemos agregar valor, não nas grandes companhias”, diz. No modelo americano, o PayPal oferece, em parceria com um banco, até 35% das vendas anuais do varejista como crédito, sendo que a primeira operação não pode exceder US$ 200 mil. O próprio cliente escolhe quanto das vendas será descontado para pagamento do empréstimo, num modelo flexível para ser alterado conforme a necessidade.

Com dificuldade de obter empréstimos em bancos, a empresária americana Lisa Jones tomou cerca de US$ 75 mil emprestados com o PayPal para despesas como marketing e eventos. “Também desenvolvemos um software a quem quiser começar um negócio como o meu mais facilmente.” A americana fundou em 2006 o WorldWide Travel Group, empresa de turismo e eventos, após passar 20 anos em grandes empresas, porque queria um melhor equilíbrio entre a maternidade e a vida profissional. Na América Latina, o PayPal estima que existam 27,5 milhões de micro, pequenas e médias empresas. “Tradicionalmente, elas estão pouco servidas pelos serviços financeiros tradicionais de bancos de varejo.

É difícil elas terem capital, e nós queremos oferecer isso”, diz Usman Ahmed, diretor de políticas públicas globais da empresa. A região da América Latina tem se destacado entre as operações do PayPal porque tem crescido num ritmo acelerado, em dois dígitos, acima do restante do mundo. Chama a atenção da empresa o fato de as fintechs que atuam no Brasil terem sido foco de fundos de investimento neste ano. Como exemplo, a Creditas, plataforma de crédito com garantia, captou US$ 231 milhões, e o Nubank levantou US$ 400 milhões, sendo avaliado em US$ 10 bilhões.

Já o Softbank adquiriu R$ 1 bilhão de ações numa oferta de R$ 1,25 bilhão do Banco Inter. De acordo com Schumacher, esses aportes têm ocorrido porque o Brasil já começa a sentir um nível maior de maturidade do mercado de “fintechs”, que tinha talentos e investidores-anjo, mas precisa de mais capital para alavancar os negócios. “O país precisa agora de mais venture capital profissional. E o que percebemos é um ecossistema com fundos de venture capital brasileiros que aceleraram o investimento em fintechs, mas também empresas globais de venture capital abrindo escritório em São Paulo e aportando nesses negócios.”

Schumacher diz que o PayPal também tem interesse em investir em empresas no país, lembrando que os fundadores da empresa são importantes investidores do Vale do Silício e que a empresa tem um fundo de venture capital que faz aportes em startups. O presidente global, Dan Schulman, diz que a empresa tem US$ 3 bilhões para desembolsar anualmente em aquisições. As áreas de interesse, segundo Schumacher, são aquelas que têm sinergia com o negócio do PayPal.

“Somos muito ativos em aquisições. Mas investimos em negócios que adicionem valor e tenham potencial impacto na economia e na sociedade”, diz Schumacher. Na região, o PayPal investiu US$ 750 milhões no Mercado Livre, um tíquete bem superior ao que costuma ser considerado pela empresa. Sobre o mercado brasileiro, o executivo diz que a competição está elevada em pagamentos, o que tem reduzido fortemente as tarifas, mas abre espaço para ampliar o mercado.

No entanto, segundo Schumacher, os preços tendem a se estabilizar. O PayPal é acionista da IZettle, fintech sueca de pagamentos adquirida em 2018 por US$ 2,2 bilhões, que oferece taxa zero de antecipação aos clientes na modalidade crédito à vista. Fundado no fim dos anos 90, o PayPal foi comprado quatro anos depois pelo site de comércio eletrônico eBay, sendo separado em 2015. A empresa opera em 200 países, com 100 moedas diferentes. No total, tem 263 milhões de consumidores ativos e 23 milhões de varejistas conectados à plataforma.

FONTE: VALOR ECONÔMICO