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O app chinês que passou a Uber e se tornou a startup mais valiosa do mundo

Há seis anos, Zhang Yiming era visto como uma piada: um jovem engenheiro de software de apenas 29 anos que acreditava ser possível derrubar o domínio do mercado de notícias de gigantes como a Tencent utilizando inteligência artificial e lucrar em um mercado em que até mesmo a Googlefalhou em abocanhar.

Hoje aos 35 anos, Zhang provou como todos estavam errados: a Bytedance hoje é avaliada em quase US$ 75 bilhões, desbancando a Uber do topo da lista de startups mais valiosas do mundo. E isso tudo criando uma experiência de internet que parece uma mistura entre Google e Facebook.

O mais impressionante é que a empresa é a primeira a conseguir esse crescimento sem receber nenhum centavo da Tencent ou da Alibaba, duas gigantes que controlam praticamente toda a internet na China. E a Bytedance não só não recebeu investimentos delas como já se provou mais apta a chamar a atenção de uma audiência mais jovem do que as concorrentes.

Vivendo de conteúdo

A trajetória da Bytedance começou com uma percepção de mercado que Zhang teve em 2012: ele percebeu que os usuários do país tinham dificuldades para encontrar a informação que os interessavam através dos diferentes apps existentes no país. Zhang achava que poderia fornecer a esses usuários um serviço melhor do que o Baidu, então a única ferramenta de busca que podia ser utilizada para encontrar as últimas notícias que chegavam ao país.

Assim, o empresário adquiriu o site de notícias Jinri Toutiao e, a partir dos conteúdos dele, criou um algoritmo de IA para fornecer aos usuários as notícias que mais se adequam aos interesses de cada um, de forma bem parecida com como funciona o algoritmo do Facebook, mas também oferecendo uma mecanismo de busca para encontrar notícias com termos mais específicos.

Após garantir o investimento do Susquehanna International Group, Zhang lançou o app da Bytedance em agosto de 2012 e utilizou o algoritmo de busca para estudar o que seus usuários liam e pesquisavam na plataforma. Esses dados, então, foram utilizados para sugerir artigos e notícias de interesse da pessoa antes mesmo de elas precisarem por eles. Quanto mais o app era usado, melhor a experiência que o usuário tinha com ele, e mais tempo esse usuário passava dentro da plataforma. Na metade de 2014, o aplicativo já possuía mais de 13 milhões de usuários ativos e passou a chamar a atenção de grandes investidores, como a Sequoia Capital. Mas foi apenas quando começou a utilizar conteúdos em vídeo que o Bytedance se popularizou de vez.

Por volta de setembro de 2018, a empresa lançou o Douyin, app que permite que os usuários gravem e editem vídeos de até 15 segundos e os compartilhem através de apps como o Weibo (uma espécie de Twitter chinês) e o WeChat (aplicativo equivalente ao WhatsApp). O app foi um sucesso e é o principal responsável pelo crescimento da Bytedance, que hoje é a maior startup do mundo.

O caminho para os dólares

A Bytedance não é uma empresa de notícias: Zhang garante que o negócio não contrata diretamente um único editor ou repórter. E o que começou como um agregador de notícias hoje é uma verdadeiro hub de diferentes aplicativos, possuindo não apenas o Douyin, mas também outros apps de sucesso no mercado chinês como o Tik Tok e o Musical.ly. E é essa variedade que faz com que a empresa seja a primeira agregadora de conteúdo do país a ser bem-sucedida numa empreitada internacional, conseguindo grande aceitação pública nos Estados Unidos, Japão e outros países do sudeste asiático.

Mas, assim como já aconteceu com o Facebook, o maior dilema enfrentado pela empresa é como transformar esse público em uma fonte de lucro.

Zhang Yiming, fundador da Bytedance (Imagem: Giulia Marchi/Bloomberg)

Hoje, a Bytedance tem investido cada vez mais na venda de anúncios. E ainda que muitas agências de marketing vejam com bons olhos a enorme base de usuários e o tempo que cada um desses usuários passa no aplicativo, há ainda alguns fatores que impedem essa expansão de ser um sucesso absoluto.

Um deles é o preço: comparado às concorrentes, anunciar com a Bytedance é muito mais caro. Ainda que o fato de prenderem a atenção de um público mais jovem ser um estímulo para que as anunciantes paguem esse preço elevado, os problemas da empresa com o governo chinês fazem com que potenciais clientes pensem duas vezes antes de fechar negócio.

Isso acontece porque a Bytedance já teve diversos problemas referentes à maleabilidade do governo chinês e censura. Em abril deste ano, por exemplo, a startup precisou deletar um aplicativo de piadas quando ele estava no auge da fama; em outros momentos, o Douyin e o Toutiao foram suspensos por tempo indeterminado. É essa instabilidade das regras de censura do governo que dificulta a empresa fechar contratos de divulgação de conteúdo com agências de notícia estrangeiras. Mas, para quem conseguiu peitar as duas maiores empresas de internet do país e se tornar a principal agregadora de notícias da China, parece ser apenas questão de tempo até que a Bytedance consiga solucionar mais esse problema.

FONTE: CANAL TECH