No open finance, uma lacuna entre bancões e fintechs

Taxas de compartilhamento de dados têm variado a depender do perfil da instituição financeira.

O open finance — celebrado por executivos do setor financeiro por promover o compartilhamento de dados dos clientes entre as instituições — tem apresentado uma certa lacuna entre bancos e fintechs. A proporção de usuários que de fato finaliza o processo de consentimento de suas informações é superior nas instituições mais novas ou de menor porte.

Entre fintechs como Nubank, Mercado Pago e PicPay, a chamada taxa de transmissão, que calcula o percentual de clientes da instituição que concluiu a a autorização para ceder os dados a outra, variou entre 47% e 86% nos últimos três meses. Já bancões como BradescoItaúSantander e Banco do Brasil apresentam um intervalo com desempenhos menores, entre 25% e 48%.

No universo de fintechs que participa do open finance, há uma ala que acredita que essa lacuna reflete uma maior dificuldade dos bancos para liberar os dados de seus clientes a uma outra instituição. “É estranho as fintechs conseguirem e os grandes bancos, não. Isso é má fé ou incompetência?”, disse ao Pipeline um executivo que participou das discussões com o BC para estruturar o open finance.

O incômodo em relação ao outro lado mostra que o open finance não é apenas um esforço conjunto do mercado para criar um ecossistema mais favorável aos clientes. Por trás da promessa de entregar ao usuário um crédito com juro menor, há também o interesse de ter acesso a dados que permitam à instituição fazer um análise mais assertiva do público, reduzindo o risco e a inadimplência. O receio, porém, é que uma instituição atue para receber os dados em posse da concorrência, mas não trabalhe com o mesmo empenho para compartilhar os dados dos seus clientes.

Os bancões, contudo, entendem que as taxas de transmissão não representam a capacidade de cada instituição em abrir caminho para o compartilhamento, mas, sim, a vontade do usuário em seguir com o processo. E o que está por trás dessa diferença, na visão deles, é principalmente o fato de que bancões e fintechs têm clientes com perfis e motivações distintas.

Entre os argumentos citados por executivos de bancões ouvidos pelo Pipeline, está a percepção de que o cliente de fintech em geral é mais jovem, mais digitalizado e, portanto, tem menos receio em compartilhar dados. Já o cliente de bancão costuma encontrar na sua instituição uma oferta mais completa de produtos e serviços, o que lhe faz ter menos incentivos para buscar outro player.

Em geral, o compartilhamento via open finance parte de um convite feito pelo concorrente, com a oferta de um produto em tese mais vantajoso, como um crédito com juros mais baixos. A depender das condições oferecidas pelo outro lado, isso pode gerar maior ou menor motivação para seguir com o consentimento, argumentam os bancões.

Por último, um dos executivos ainda citou que os aplicativos de bancos costumam ter mais camadas de segurança, como um tempo mais curto em que o app fica ativo sem precisa fazer um novo login, o que por vezes pode dar por encerrada uma jornada de consentimento que ficou à espera do usuário.

A maior parte desses fatores foi ressaltada em nota ao Pipeline por Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Itaú, que disseram que seguem todas as normas de padronização determinadas pelo Banco Central. O Itaú ainda ressaltou que há uma outra taxa que demonstra melhor a competência das instituições para concluir o processo, que calcula a proporção de dados compartilhados após o fim do procedimento de autorização por parte do usuário. Nesse quesito, todo o mercado tem ficado acima de 90%. A do Itaú gira em torno de 98%.

Para o BC, a lacuna que há entre bancos e fintechs nos consentimentos já era esperada, e a autoridade monetária ainda apontou outras duas razões. A primeira é que as instituições de maior porte foram obrigadas a aderir ao open finance no início, e algumas das de menor porte, que chegaram depois, acabaram se beneficiando do aprendizado que o sistema já havia adquirido até então.

Além disso, as instituições de maior porte são também as mais antigas e, por isso, têm mais problemas em relação a sistemas legados. “A transmissão de informações no tempo e no padrão exigido pela regulação do open finance representa maior desafio tecnológico nos casos em que envolve esses sistemas mais antigos”, disse o BC em nota.

Para as fintechs, porém, o gap também reside na experiência que cada aplicativo oferece aos seus clientes. “A jornada do usuário é muito mais fluida em fintechs do que em um grande banco, que não é tão satisfatória, que costuma ter várias telas intermediárias, vários fluxos que não são a melhor forma”, diz Marcelo Martins, diretor-executivo da ABFintechs.

Martins, contudo, reconhece que os bancos têm feito um esforço para evoluir, assim como todo o ecossistema. E lembra que há também um desafio do mercado de educar o usuário a respeito do open finance, uma novidade que, diferentemente do Pix, ainda não caiu na boca do povo. “Em pesquisas que foram feitas, teve gente achando que o open finance era open bar. Ainda é um termo que assusta.” Desde o início do sistema, são 26,2 milhões de CPFs que já aderiram.

Um dos principais fornecedores de tecnologia para instituições que operam no open finance, a Sinqia tem percebido também, ao analisar os resultados de seus clientes, que a comunicação tem feito a diferença. “Nos bancos de porte maior, quando o benefício do open finance está claro para o cliente, como saber que terá uma taxa de juros melhor, o consentimento chega a 50%. Quando não está claro, fica em 4%”, diz Bruno Salles, gerente de produto da companhia.

O executivo da Sinqia, assim como boa parte dos bancões, acredita ainda que a taxa de transmissão é um dado difícil de analisar, porque esconde nuances, como o próprio perfil do cliente. O ideal, ele diz, seria que os indicadores públicos trouxessem também números desagregados em relação aos produtos. “Vai ficar mais claro quando soubermos o desempenho para operações específicas”, afirma.

Ainda que os resultados estejam longe do ideal, há uma percepção do mercado de que já há um avanço significativo em relação ao início do open finance, em 2021. “Há dois anos, essa taxa de conversão [na média] ficava entre 20% e 30%. Agora, está entre 40% e 50%. É uma evolução bem consistente”, diz um dos conselheiros do open finance no BC, o advogado Rubens Vidigal.

Praticar taxas mais baixas, porém, não é motivo para uma punição por parte do BC, uma vez que o fraco desempenho pode refletir vários fatores. A punição, segundo a instituição, só será aplicada se for percebido algum descumprimento de norma. O BC, no entanto, disse ao Pipeline que há estudos em andamento para estabelecer taxas de referência ou um patamar mínimo a ser cumprido.

FONTE:

https://pipelinevalor.globo.com/negocios/noticia/no-open-finance-uma-lacuna-entre-bancoes-e-fintechs.ghtml