No BR Angels, o impulso às startups vem com cheque ou divã

Grupo de anjos auxilia empreendedores em plano de negócios e valuations realistas; volume de aporte deve somar R$ 20 milhões este ano.

Orlando Cintra, fundador e CEO do BR Angels: cheque para startups precisa estar acompanhado de mentoria — Foto: Silvia Costanti/Valor

Um dos primeiros grupos de investidores-anjo criado fora do ambiente acadêmico no país, o BR Angels planeja investir R$ 20 milhões ao longo de 2023. O plano é trazer cerca de 10 novas startups para o portfólio, abrindo oportunidade para a rede de mais de 260 associados investirem em empresas ‘early stage’. Os setores que mais têm chamado a atenção são o de tecnologia, com iniciativas relativas à tecnologia, cripto e NFTs, além do mercado de RH e agronegócio.

Ainda no primeiro trimestre, o grupo deve realizar aporte em duas startups: uma no setor de games e outra cleantech com foco em ESG — os contratos ainda estão em fase de ajustes. Desde 2019, quando foi fundado, o BR Angels já investiu em 26 iniciativas e chegou a realizar um desinvestimento, em menos de um ano e meio, com a venda da Chilligum para a VidMob. Só nos últimos dois anos, foram R$ 45 milhões em aportes.

“Este deve ser um ano um pouco melhor que o anterior, mas ainda muito desafiador. Sinto que o cenário deve melhorar de fato só a partir de 2024. O grande termômetro será a volta dos IPOs, que medem a confiança do mercado como um todo e trazem liquidez”, avalia Orlando Cintra, fundador e CEO do BR Angels. “Agora, o que a gente viu em 2021 não vai voltar mais. Quem estiver em negação, procure um terapeuta.”

No divã do BR Angels, os anjos ajudam os fundadores a colocar o pé no chão, com plano de negócios e valuations realistas. Se é comum que isso já seja uma função de conselheiros e investidores em grandes empresas, a “chamada” de profissionais mais experientes se torna ainda mais necessária entre jovens empreendedores.

Com uma carreira de executivo de tecnologia, com passagens por HP, Informatica e SAP, Cintra buscava nos investimentos em equity uma oportunidade de seguir em contato com o universo de inovação. O grupo começou pequeno, com menos de 10 interessados avaliando um universo ainda limitado de startups no país. A ideia era oferecer experiência, e cheques moderados, em troca de participação nos novos negócios.

“Algo que eu entendi de cara é que o smart money precisa funcionar de fato, não pode ser um discurso. Nós temos uma diretriz que obriga todos os investidores a participarem com horas de mentoria em cada uma das startups”, explica. “Quem oferece essa orientação e participa ativamente dos empreendimentos também ganha prioridade na hora de realizar os aportes. Temos batches específicos para cada setor, em que os executivos podem contribuir de acordo com sua área de conhecimento.”

Quando o BR Angels foi criado, já existiam iniciativas semelhantes no país, como o Anjos do Brasil. Mas, além de o conhecimento e interesse sobre equity ser ainda muito incipiente, a maioria dos grupos de anjo eram restritos e voltados à academia. Um dos mais atuantes no país é o GV Angels, de egressos da Fundação Getúlio Vargas.

O BR Angels tem hoje cerca de 250 associados, sem restrição ao universo acadêmico. Todos chegam por indicação. São executivos das mais diversas indústrias, vindos de empresas como Siemens, Novonor, GerdauComgás, Coca-Cola e até dos maiores bancos no país. Cerca de 60% são C-Levels, 20% membros de conselho e outros 20% sócios ou fundadores. A expectativa é que em 2023, o grupo aumente em 100 pessoas.

Depois de passar por um processo inicial de avaliação, as startups se apresentam em eventos organizados pelo grupo. Os “pitch days” tem atmosfera descontraída e curiosa, pelo menos até que alguém faça uma pergunta espinhosa sobre o caixa da startup. Aliás, em alguns casos, a investida tem apenas um power point com uma ideia. Nesse caso, quem passa pelo crivo é o próprio fundador. O share do BR Angels nunca ultrapassa os 15%, para garantir a saúde do cap table.

Neste ano, o cheque médio vai permanecer em até R$ 2 milhões. “Percebemos que é possível criar mais impacto com aportes menores e mais recorrentes em iniciativas diversas”, diz Cintra. Para 2023, o grupo tem expectativa de realizar alguns retornos. Se não acontecerem exits via M&A, muito mais provável que qualquer IPO, já tem Série A para uma das investidas à vista no horizonte.

FONTE: https://pipelinevalor.globo.com/startups/noticia/na-br-angels-o-impulso-nas-startups-vem-com-cheque-ou-diva.ghtml