jul 20

Metaverso: fim das limitações para os arquitetos?

Dilara Ozturk

Todo mundo fala sobre o Metaverso, mas quase ninguém concorda sobre o que ele é. Por enquanto, ainda é enigmático, no entanto, parece que sua ambiguidade é uma força, já que todo dia surge um novo artigo ou um vídeo sobre este assunto, tentando convencer as pessoas de que o Metaverso inevitavelmente fará parte de nossa vida diária em breve. Arquitetos e designers são partes essenciais para a discussão em andamento, pois a inovação espacial exige que a Internet seja redesenhada como um ambiente 3D.

Quando os arquitetos pensam dentro dos limites da arquitetura da vida real, sua resposta inicial a este novo universo é celebrar as “possibilidades ilimitadas” do Metaverso. Leon Rost, diretor do BIG afirma que no Metaverso“estrutura, materialidade e custo, vão para o espaço”, enquanto Rashed Singaby, projetista sênior da HOK acredita que “entre projetar para o metaverso e alavancar suas capacidades, o potencial é quase ilimitado”. O metaverso parece uma luz ao fim do túnel como um reino sem limites para os arquitetos, que geralmente projetam como se os recursos fossem infinitos nas últimas décadas e agora são forçados a restringir sua imaginação devido à atual crise ambiental e econômica no mundo. No entanto, a construção de um ambiente virtual – vivenciado simultaneamente pelas massas – ainda tem seus limites, tais como orçamento, gravidade ou materiais, ao invés de ser um domínio ilimitado.

O orçamento, ainda é a questão principal

Como os edifícios e o ambiente não serão construídos fisicamente no Metaverso, os arquitetos podem se libertar de empreiteiros, equipes de gerenciamento de projetos e clientes mal-humorados que reclamam dos orçamentos. Contudo, desta vez, livres de todas as partes problemáticas acima, os arquitetos ainda farão parte de uma equipe para criar habitats virtuais, com designers de UI-UX, desenvolvedores de software e codificadores que também precisam de tempo e dinheiro para construir um ambiente virtual. Dr. Tuna Çakar, um pesquisador AR-VR do Departamento de Engenharia Informática da MEF University, nos lembra que a questão financeira ainda é uma das restrições significativas, especialmente se os projetos arquitetônicos para o Metaverso se tornarem mais interativos e personalizados. Se a arquitetura não utiliza as possibilidades das novas tecnologias, tais como big data, IA e AR/VR, então a oportunidade é perdida. Mas se o projeto arquitetônico for combinado com programação, codificação ou computação, torna-se mais desafiador em termos de tempo e orçamento. Embora os arquitetos tendam a ignorar as questões monetárias no Metaverso, projetar um universo virtual pode ser tão caro quanto um físico.

Cópia da vida real ou um novo universo?

Embora o Metaverso tenha sido introduzido como um novo universo digital cheio de oportunidades, as principais ações deste novo domínio – no momento, com a rápida ascensão das criptomoedas – são quase similares ao nosso cotidiano: compras e negócios. Seja na compra de terrenos ou roupas, a principal atividade dos metaversos existentes é principalmente a compra ou venda. Até mesmo os sistemas de parcelamento desse novo reino, um mapa virtual dividido em grades, duplicam os métodos cartográficos usados há séculos. Para alguns, o Metaverso será uma cópia da vida real, incluindo todos os detalhes e imperfeições que os bens reais têm. Mas será que faz sentido gastar tanta energia e tempo criando uma cópia do existente? Ou podemos encontrar novas maneiras de habitar um universo vasto e desolado em vez de replicar nossas tradições de planejamento ou ambições imobiliárias para o mundo real, das quais já vimos resultados desagradáveis em todo o planeta?

Teddy Bergsman, co-fundador da Quixel, uma empresa que visa escanear o mundo inteiro para criar ambientes digitais convincentes, afirma ser necessário reconstruir o mundo digital escaneando objetos reais para obter habitats mais imersivos. Como a ideia principal de criar mundos virtuais imersivos é enganar nossos cérebros para acreditar que o que vemos é real, o objetivo da empresa de escanear, por exemplo, cada rocha nos Canyons de Utah é legítima até certo ponto. E se o principal gatilho para que as pessoas continuem suas atividades diárias no reino digital não for a semelhança com a vida real, mas sim a “novidade e singularidade”?

Ainda estamos em uma fase inicial do Metaverso, e esta demanda por ambientes realistas não reflete as tendências virtuais em todo o mundo, diz Alper Özyurtlu, co-fundador da Timelooper, uma empresa que constrói ambientes virtuais para clientes internacionalmente. Özyurtlu acrescenta que enquanto os clientes das Américas esperam ideias mais fundamentadas em habitats virtuais realistas, as expectativas mudam radicalmente em países como Japão ou Coreia do Sul, onde os clientes buscam persistentemente a novidade, a inovação e atmosferas digitais sem precedentes, em vez de réplicas do mundo real.

Quando se trata de nossos corpos no reino digital, ser extraordinário é uma tendência geral dos usuários, independentemente de sua localização. Nossos corpos, como avatares, serão representados no Metaverso, utilizando toda a flexibilidade e variedade que a tecnologia nos proporciona. Ao contrário dos edifícios virtuais, os avatares ultrapassam os limites da imaginação. Paradoxalmente, seu avatar único com asas fantasiosas ou uma cabeça de monstro gigante poderia se encontrar com amigos em um acampamento virtual, porém comum. Então eles escalam uma casa na árvore virtual, apresentada precisamente como uma duplicação de sua versão real, projetada inicialmente há quase séculos. A arquitetura no mundo virtual parece ser mais lenta na adaptação às mudanças tecnológicas em curso do que em outros campos, assim como na vida real. Mas, mais cedo ou mais tarde, ela precisa se reconstruir considerando as novas tecnologias de IA, VR, blockchain ou big data.

Circulação, teletransporte

Os especialistas que querem duplicar o mundo real no Metaverso têm explicações neurocientíficas. Pesquisas recentes mostram que nosso cérebro percebe novas imagens relacionando-as com experiências passadas. Portanto, mesmo que você não precise de uma porta no mundo digital para entrar em um espaço, ou pilares em uma ponte a ser atravessada, ainda precisamos usar esses elementos reais para convencer nosso cérebro, pelo menos na fase de transição. Mas, é claro que, embora o Metaverso não se baseie necessariamente nas tradições da arquitetura, ele cria suas próprias regras para o jogo. Por que alguém caminharia por um longo calçadão, ou subiria uma rampa moderna por metros se há a possibilidade de se teletransportar? Com a tecnologia atual, o teletransporte é uma ação que limita a experiência espacial, já que é um botão que direciona seu avatar de um ponto a outro sem poder refletir o percurso. No entanto, não é plausível caminhar longas distâncias, com um fone de ouvido, em um espaço fechado.

Gravidade, apenas quando necessário

A gravidade amarra os arquitetos. Muitas vezes, os sonhos de uma arquitetura excepcional precisam ser domados e fundamentados quando os engenheiros civis se juntam à discussão. Os arquitetos estão felizes por não haver gravidade no Metaverso, no entanto, a gravidade é outra ferramenta para enganar nossos cérebros e levá-los a pensar que o ambiente virtual é real. Mesmo em nossos sonhos, a gravidade é um dos sentimentos mais substanciais. Pessoas com medo de altura não conseguem andar em uma passarela e pular de um prédio de 50 andares de altura em um ambiente virtual, onde os usuários experimentam uma sensação real de queda. Assim, uma ponte no Metaverso pode ter colunas mais esbeltas – já que não há nenhum engenheiro estrutural para intervir ou condições geológicas para se preocupar. No entanto, ela ainda precisa de grades para evitar que as pessoas caiam. Além disso, como disse Galina Balashova, designer da espaçonave soviética Soyuz, é muito difícil para um arquiteto projetar espaços como se houvesse gravidade zero. A gravidade, que torna as coisas complicadas ao construir na vida real, é uma regra importante ao criar as faces da vida digital.

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Energia

O principal dilema da arquitetura no Metaverso é que se o ambiente digital construído tem que imitar a realidade para enganar o cérebro dos usuários, então ele tem que ser projetado como se houvessem as restrições da vida real, como a gravidade e as condições climáticas, que não existem no reino digital. Portanto, é muito mais desafiador renderizar detalhes e texturas de um ambiente virtual que milhares de pessoas irão visitar.

Além disso, é uma discussão contínua sobre como a energia necessária para renderizar ambientes realistas multiusuários será produzida sem prejudicar ainda mais o planeta. Embora o resultado seja virtual, o Metaverso ainda precisará explorar vastos recursos, a menos que seja projetado com uma abordagem consciente, começando do zero. Considerando a quantidade de energia que cada renderização requer dos ventiladores dos CPUs, a representação digital da arquitetura virtual precisa ser repensada para um futuro melhor para o planeta.

Ao invés de acolher este novo universo como um território sem fronteiras que só ajudará a acelerar as crises existentes que o planeta tem atualmente, os arquitetos têm a chance de criar um universo híbrido de imagens herdadas emergentes para este novo reino. A menos que nós, como arquitetos, encontremos uma nova linguagem que não exija grandes recursos, em colaboração com desenvolvedores e engenheiros de software, as mesmas limitações da arquitetura da vida real continuarão prevalecendo no Metaverso.

FONTE: https://www.archdaily.com.br/br/985375/metaverso-fim-das-limitacoes-para-os-arquitetos