mar 12

Localização precisa do 5G desafiará privacidade, diz especialista

‘Teremos mais antenas internas em shoppings, grandes edifícios e hotéis’, afirma Bellovin

O advento da tecnologia 5G promete downloads mais rápidos e tempos menores de resposta de rede. E muito mais preocupação sobre a privacidade.

Isso acontece em parte porque o 5G permitirá rastreamento de localização mais preciso e o recolhimento de vastas quantidades de dados pessoais adicionais.

Clientes experimentam internet 5G em loja de Shanghai, na China – Reuters

Em entrevista ao Wall Street Journal, Steve Bellovin, professor de ciência da computação na Universidade Columbia e ex-pesquisador da Bell Labs e da AT&T Labs Research, discutiu as questões de privacidade associadas ao 5G.

Como o 5G afetará a privacidade dos usuários?

Os sinais 5G terão alcance muito curto nos EUA e enfrentarão dificuldade para atravessar as paredes dos edifícios. Isso significa que muito mais torres de celulares serão necessárias.

A principal forma pela qual um celular —em contraposição a um site ou app— diz onde um usuário está é identificar a torre com a qual ele está conectado. As torres atuais têm raio de operação de 1,5 quilômetro.

Se as novas torres cobrirem área muito menor, isso significa que saberão com muito mais precisão onde o usuário está.

De que forma isso representa risco para a privacidade?

A localização do usuário é um dado muito delicado e revela muita informação sobre ele. As operadoras de telefonia em geral consideram que são donas desses dados e podem fazer o que desejarem com eles.

E o que elas podem fazer com eles?

Nos últimos meses, surgiram notícias sobre operadoras que venderam informações de localização. Imagine um advogado de divórcio que queira rastrear o paradeiro do cônjuge do cliente. Ou que um patrão possa determinar se o empregado está mesmo indo a uma consulta médica, quando ele na verdade está indo ver um jogo ou a uma entrevista em uma concorrente. Precisamos de regulamentação muito mais clara quanto ao que as operadoras estão autorizadas a fazer com os dados de localização.

Em que medida o 5G será mais preciso em ambientes urbanos, onde já existem muitas torres de celulares?

Como o 5G não atravessa paredes muito bem, teremos muito mais antenas de celulares internas —em shoppings, grandes edifícios de escritórios, hotéis, e assim por diante. Assim, nesse sentido a precisão se tornará muito maior.

Também pode ser que o 5G torne possíveis redes de sensores com ampla distribuição, instalados em todos os postes de telefonia ou em todas as esquinas. Os sensores poderiam detectar pessoas fazendo coisas. Um exemplo seria: um sensor de poluição poderia detectar pessoas fumando, enquanto um receptor de bluetooth identifica as identidades dos celulares que estejam por perto. As seguradoras poderiam se interessar por isso.

Quais são os riscos de segurança associados ao 5G na China?

A Huawei é a maior fabricante mundial de equipamentos 5G. E eles vendem esses produtos mais barato. Temos visto toda espécie de histórias sobre a Huawei ser, ou não, agente do governo chinês. Há um executivo da Huawei preso na Polônia por espionagem, e pode ser que a história tenha substância. O governo dos EUA vem dizendo há anos, de modo muito vago, que não devemos confiar na Huawei ou usar seus equipamentos —mas jamais surgiram provas concretas, e esse caso pode representar prova concreta. [O executivo, que nega a acusação, foi demitido pela Huawei, que afirmou que as acusações contra ele nada têm a ver com a companhia.

Houve preocupações de privacidade com o advento de cada geração de tecnologia de telefonia móvel ou o 5G e um caso único?

Não creio que seja único. A questão é se há coisas que você pode fazer agora e não podia fazer antes. Não conecto meu laptop à internet via celular porque a conexão via celular é lenta demais para aguentar a carga de dados do meu email. Se a conexão fosse 5G, eu poderia fazê-lo. Além do rastreamento de localização pelas operadoras de telefonia, a pergunta que você precisa repetir sempre é: Quais são as aplicações? Porque é nesse aspecto que surgem os problemas de privacidade —e é quanto a esse aspecto que existirão riscos.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO