nov 07

Inteligência Artificial na rastreabilidade da carne, da fazenda ao frigorífico

As soluções em inteligência artificial estão ganhando o mundo, mas muita coisa ainda está na fase de desenvolvimento. Os potenciais já são vistos pelas indústrias, apesar de a aplicação ainda ter alguns desafios relacionados a custos e infraestrutura.

Ainda assim, o Brasil já tem empresas da nova economia, as chamadas startups, trabalhando em projetos promissores, que estão próximos de ganhar tração. Durante a TecnoCarne 2022, a inteligência artificial foi tema de um painel que contou com a participação de empreendedores interessados em resolver problemas da indústria frigorífica brasileira. Assista a palestra na íntegra na Plataforma Digital Fispal Tec.

Alguns dos pontos sensíveis da cadeia, onde a inteligência artificial pode oferecer um grande ganho, está no trato do animal, no abate e na manufatura da carne. Ao longo dessas etapas, a rastreabilidade informatizada, que combina sensores, câmeras e inteligência artificial, pode ajudar no aumento da produtividade.

Rastreabilidade

A rastreabilidade pode ser utilizada para assegurar um dos pontos mais importantes da indústria de carnes no mundo, o bem-estar animal, diz Flavio Redi, CEO da Ecotrace Solutions, empresa de tecnologia que atende o setor frigorífico.

“Para fazer a rastreabilidade do animal, anteriormente, havia esse ponto sensível que era o humano classificando (os animais). É preciso substituir isso por computador para garantir mais eficiência”, diz o executivo.

O processo de substituição do trabalho humano pelo uso de máquinas para avaliação de carcaças tende a otimizar essa etapa e pode ser a diferença para que as empresas passem a ter acesso ao cada vez mais exigente mercado internacional.

“Tem país que não aceita carcaça com contusão. Neste caso, é melhor ter uma inteligência artificial reconhecendo os aspectos dessa carcaça do que um ser humano fazendo isso”, afirma Redi.

Monitoramento dentro da planta

O processo de rastreamento pode acontecer também dentro da indústria, e ser fundamental para identificar o que está acontecendo com o animal ao longo da cadeia.

“A evolução nos algoritmos permite que o frigorífico pegue uma carcaça, aplique uma máscara (digital) para identificar onde está maminha, contrafilé ou ponta de agulha, para dar alguns exemplos, e ver onde estão as eventuais contusões nessas partes”, detalha Redi.

Com essa capacidade analítica, a indústria identifica eventuais danos ao animal em etapas anteriores da cadeia, como no transporte ou mesmo na fazenda, e ainda pode evitar que a carne chegue ao mercado com baixa qualidade.

Essa identificação de problemas na carne, já dentro da indústria, é feita pela combinação de fotografias capturadas por equipamentos apropriados para frigoríficos (câmeras e sensores) e lidas pela Inteligência Artificial, que vai identificar lesões e outros problemas.

Informações ao produtor

Essas informações podem ser levadas ao produtor para melhorar a qualidade do animal comprado pelos frigoríficos.

“O produtor, antes, perdia os dados sobre a condição do animal quando ele era entregue à indústria. Mas, agora, a indústria pode ajudar esse produtor gerando dados sobre as carcaças e depois devolver os dados para a fazenda, tendo em mente ajustar a produção e melhorar toda a cadeia”, diz Flavio Redi.

Além disso, é possível fazer uma previsão de descarte e, portanto, de estoque, dentro das plantas industriais, o que ajuda os frigoríficos a organizarem sua produção na etapa final, agilizando todo o processo fabril, evitando uma eventual falta de produto por conta de perdas, segundo o executivo da Ecotrace.

Melhora de rendimento

Para Marcelo Coutinho, CEO da Brasil Beef Quality, empresa de tecnologia voltada para o setor frigorífico, todas as etapas da cadeia de produção podem utilizar inteligência artificial para melhorar seus processos e, por consequência, o produto final.

“Desde a parte de recepção dos animais, de abate e processamento da carne, até o relacionamento da indústria com o pecuarista, pode ser aperfeiçoado pelo uso de inteligência artificial”, diz Coutinho.

Mas há um ponto que ele considera fundamental para aplicação da tecnologia, que é o de identificação do rendimento da carcaça de cada produtor. “Uma necessidade bem latente em frigoríficos é entender o rendimento de desossa por produtor, que é muito variável dentro do mesmo produtor, e ainda mais entre pecuaristas distintos”, explica.

Ele diz que a inteligência artificial pode ajudar a ler dados sobre os produtores e identificar as diferentes características dos animais de cada um. “Se a indústria conseguisse mapear esse rendimento por produtor, acho que seria uma conta muito mais assertiva sobre o que ele poderia produzir”, detalha o CEO da BBQ.

Essa diferença pode ter a ver com o tratamento ao animal ou mesmo com a genética dele. No caso de diferenças genéticas, o uso da inteligência artificial poderia ver com mais precisão a variação de rendimento dentro de um mesmo rebanho, o que é difícil detectar apenas com as ferramentas tradicionais.

Diferenciar um animal com maior percentual de gordura de um mais musculoso pode ser difícil em processos analógicos, mas o uso de sensores e câmeras para captação das suas características, com o suporte de uma tecnologia de inteligência artificial, pode ajudar na identificação de nuances importantes e evitar perda de rendimento.

“Tem um ditado que diz que você não gerencia o que você não mede. Eu digo que você não gera inteligência se você não tem dado. Então, a indústria precisa coletar dados e isso é fundamental para você melhorar a gestão do seu negócio ao longo de diferentes etapas da cadeia, passando pela fazenda até o frigorífico”, conclui Marcelo Coutinho.

FONTE: https://www.foodconnection.com.br/proteina-animal/inteligencia-artificial-na-rastreabilidade-da-carne-da-fazenda-ao-frigorifico