Grilo Mobilidade, de triciclos elétricos, atinge o ponto de equilíbrio após pivotar

Startup precisou recalcular a rota ao ser proibida de atuar em São Paulo com o modelo de negócio original, que visava o transporte de passageiros.

Carlos Novaes, CEO e fundador da Grilo Mobilidade — Foto: Divulgação

Grilo Mobilidadestartup de triciclos elétricos para entrega de produtos no last mile em Porto Alegre e São Paulo, chegou ao ponto de equilíbrio no primeiro trimestre deste ano. A novidade foi divulgada com exclusividade por PEGN. A empresa se junta a outras startups que alcançaram o feito recentemente, em um movimento que expressa a mudança na mentalidade das companhias – que antes buscavam crescer a qualquer custo e, após a torneira dos investimentos secarem, precisaram se preocupar mais com a sustentabilidade financeira dos negócios.

A startup foi fundada em 2019, em Porto Alegre, para oferecer corridas de curtos trajetos para pessoas e mercadorias. Dois anos depois, Carlos Novaes, CEO e fundador da Grilo Mobilidade, decidiu expandir a operação para São Paulo, acreditando que a megalópole seria o local perfeito para levar o propósito da marca: uma forma de transporte que não causa poluição sonora e gasosa, positivo para o meio ambiente e para a saúde da população, e que pretende resolver a ineficiência de deslocamento em distâncias curtas.

A Grilo se propôs a atuar em uma região de alta densidade com um raio de 5 km², nos bairros próximos da Avenida Paulista, replicando o que já estava sendo feito na capital gaúcha. “Recebi muito o questionamento sobre como seria em uma grande metrópole. Buscamos fazer a entrada da melhor forma possível”, relembra.

Apesar de ter o registro de Operadora de Tecnologia de Transporte Credenciada (OTTC), a startup foi impedida de circular uma semana após o início das operações, em abril de 2023, quando o Comitê Municipal de Uso do Viário (CMUV) da Prefeitura de São Paulo enquadrou a Grilo na mesma categoria que mototáxis e impediu que os aplicativos de transporte ofertassem corridas dessa modalidade na cidade.

Como a empresa já fazia o transporte de mercadorias para empresas, a saída foi pivotar e focar nessa vertical do negócio – decisão que também envolveu a operação em Porto Alegre. “Foi uma tomada de decisão que precisamos fazer na urgência pelo investimento de tempo e dinheiro. Se não há cumprimento dentro do movimento previsto, é explosivo, ainda mais para uma startup. É complicado para se manter se não vê resultado”, comenta.

Na época, Novaes declarou que buscaria os meios jurídicos para resolver a situação. Ele conta que deixou a questão na mão de quem entende de “juridiquês” para poder focar na operação do negócio e que o processo tramita na justiça. “A gente sabe que existem frentes de interesse para a Grilo retomar a atividade inicial. É um modelo de negócio que sabemos fazer e está guardadinho. Esperamos que as coisas continuem evoluindo no entendimento da necessidade [desse transporte]”, pontua.

Novaes afirma que a startup já previa chegar ao breakeven seis meses após iniciar as operações na praça de São Paulo. O grande salto no faturamento aconteceu no último quadrimestre de 2023, quando a startup registrou crescimento de quase 300% em relação aos primeiros oito meses do ano. No primeiro trimestre de 2024, cresceu 200% em comparação com o trimestre anterior.

“Esses números aconteceram porque entramos em um modelo gerador de receita. Eu acho que teria acontecido com o transporte de passageiros porque tínhamos um plano de negócios coerente, mas não posso opinar se seria mais rápido porque são naturezas diferentes”, indica. A startup está crescendo na faixa de 20% ao mês. Se o ritmo se mantiver, a Grilo deve registrar faturamento de R$ 2,5 milhões em 2024.

No modelo atual, a startup opera por aplicativo para a solicitação de triciclos para entregas de mercadorias e por meio de parcerias com empresas. A frota tem 35 veículos desenvolvidos pela Grilo, importados da China e com finalização da montagem no Brasil. Com o aumento da demanda a partir do atendimento de grandes clientes, Novaes diz que está testando novos fabricantes e outros tipos de veículos dentro do propósito da Grilo. Entre os clientes parceiros estão a farmácia Panvel, o supermercado online Zmart e a gestora de marcas esportivas Vulcabras.

Para ampliar a frota, a Grilo abriu a sua primeira rodada de investimentos com fundos de venture capital – anteriormente, se financiou com empréstimos –, e prevê levantar uma captação entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões. Além do aporte em novos veículos, Novaes também quer investir em tecnologia e crescimento da estrutura comercial da empresa. No momento, a ideia é seguir com as operações atuais. “O que buscamos ao captar é fortalecer as praças onde já estamos. São Paulo tem uma representatividade enorme para o PIB brasileiro, então vamos fincar a raiz e potencializar o que der”, finaliza.

Apesar da boa notícia do breakeven, o momento é delicado para a startup gaúcha. A entrevista para esta matéria foi feita na sexta-feira (3/5), quando a água começou a tomar as ruas de Porto Alegre e alguns bairros foram evacuados. Naquele momento, Novaes disse que estava pensando em formas de ajudar, apesar da limitação dos veículos elétricos, e descreveu a situação como “dramática”. Desde então, a situação piorou na capital gaúcha, e a base operacional da startup na cidade está submersa.

FONTE: https://revistapegn.globo.com/startups/noticia/2024/05/grilo-mobilidade-de-triciclos-eletricos-atinge-o-ponto-de-equilibrio-apos-pivotar.ghtml