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A era de ouro para as agtechs brasileiras

Um dos setores mais importantes para a economia do país, o agronegócio brasileiro está cada vez mais aquecido. Dados do IBGE referentes ao PIB municipal apontam que de mais de 5 mil cidades brasileiras mostram forte crescimento nas principais regiões agrícolas. De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, quando isolados os 100 maiores produtores agrícolas, o crescimento médio foi de 9,81%, no período de 2014 a 2016. O Ministério diz ainda que esses municípios respondem por 7,2% do PIB do Brasil, e por 27,5% do Valor Bruto da Produção (VBP Lavouras).

O empreendedorismo tecnológico, hoje, é um dos principais fomentadores deste mercado. No StartupBase, da Associação Brasileira de Startups, são mais de 1 mil startups relacionadas ao agronegócio. Por conta do tamanho deste mercado, o Brasil posiciona-se hoje como um forte candidato a se tornar potência mundial no cenário das agtechs.

“É difícil estabelecer limites de como a tecnologia e as startups podem inovar no agronegócio. É possível alcançar a transformação, através das startups e da inovação, em toda cadeia produtiva do início, desde a seleção das sementes, germinação até o plantio, podemos utilizar tecnologias de monitoramento no combate de pragas, eficiência e controle da saúde, na produção, na gestão de funcionários, na gestão de máquinas e na logística”, diz Amure Pinho, presidente da ABStartups, no Mapeamento de Agtechs da Associação, lançado em 2018.

O STARTUPI foi conhecer de perto algumas empresas que atuam no setor do agronegócio, para falarmos sobre o cenário destas startups hoje no Brasil, as tendências para o futuro e os principais desafios e oportunidades para quem empreende no terreno fértil das agtechs do Brasil.

Quem fomenta

A BASF, gigante alemã da indústria química, é um dos grandes players no Brasil que mais investe no setor das agtechs. Em 2016 a companhia lançou o AgroStart, programa de aceleração em parceria com a ACE – uma das maiores aceleradoras da América Latina.

O objetivo do programa, que logo comemorará seu terceiro ano, é promover e fomentar startups que tenham soluções para, principalmente, automação, agricultura de precisão, reposição contínua, gestão da lavoura e rastreabilidade. Almir Araújo, responsável pela área de agricultura digital da BASF para América Latina, diz que mais de 400 startups já se inscreveram no programa, cujo objetivo é acelerar empresas de toda a América Latina.

Almir acredita que estamos passando pela melhor época no Brasil para a atuação das agtechs. “O amadurecimento deste mercado está acontecendo. Lá no começo (do programa de aceleração) não existia tanto interesse assim em tecnologia pelo setor agro, mas hoje a gente vê que este interesse está crescendo cada vez mais. Os empreendedores estão descobrindo o potencial deste segmento, e tem muita coisa pra descobrir dentro do campo. A fazenda é uma fábrica a céu aberto. O objetivo da BASF é ajudar o produtor a dar continuidade no legado dele”, diz.

Desde que o programa foi lançado, não só o mercado agro tem se movimentado, mas também a própria companhia, ao começar a trabalhar tão de perto com startups. “A partir do momento em que ajudamos startups com a aceleração, a BASF começa a entender a dinâmica e velocidade destes empreendedores: aprender a fazer rápido e encerrar rápido um projeto. Uma das principais mudanças internas da empresa, definitivamente, foi de mindset. Hoje temos um time muito mais maduro em termos de digitalização e agilidade”, explica.

O AgroStart, programa de aceleração da BASF para o agronegócio, é composto por ciclos, realizando 3 ou 4 rodadas anualmente. Cada turma acelerada fica no programa por até 8 meses. São dois blocos por rodada: inicial, para ajudar as startups a validarem o produto e a aceleração. “Utilizamos uma metodologia para validar todos os pontos de dúvidas e de aperfeiçoamento do produto.Cada um destes blocos dura de 3 a 4 meses, dependendo de cada startup.”

O objetivo do programa este ano é intensificar estas rodadas de aceleração em outras regiões da América Latina, como México, Chile e Argentina, onde as peculiaridades do agronegócio são diferentes do Brasil. A BASF também pretende criar uma garagem de inovação, para que o AgroStart passe a ser uma plataforma, o que levará as metodologias do programa também para dentro da companhia, através do intraempreendedorismo.

Em março, a companhia anunciou também o Ecossistema AgroStart, em que grandes nomes da tecnologia se tornam parceiros do programa, criando assim uma rede de apoio aos empreendedores participantes da aceleração, cujo objetivo é criar soluções mais competitivas para este mercado. Atualmente, Bosch e Samsung fazem parte deste ecossistema, mas Almir garante que novos gigantes da tecnologia serão anunciados em breve para compor este time.

Quem acelera

Quem também está chegando neste mercado brasileiro é a The Yield Lab, Após ser lançada nos EUA há 5 anos e expandir suas operações pela Europa, é a vez da aceleradora especializada em agtechs chegar ao mercado latino-americano.

A aceleradora está selecionando startups inscritas e investirá até US$100 mil nas selecionadas, além de oferecer mentoria, consultoria e acesso a toda a rede global da The Yield Lab. Kieran Gartlan, diretor-geral da operação no Brasil, diz que serão 5 startups latino-americanas selecionadas e o processo de aceleração começará em maio.

“O desembarque da The Yield Lab Latam no Brasil fortalece o espírito de expansão regional da empresa e aposta na busca, seleção e desenvolvimento de talentos em inovação e tecnologia Agtech no país. O Brasil já e um importante produtor agrícola global, e com tecnologia vai poder crescer ainda mais”, afirma Kieran.

Ele diz que um dos benefícios mais relevantes encontrados pelas empresas selecionadas para o processo de aceleração será a participação ativa dentro do ecossistema empreendedor. Além do investimento em milhares de dólares, as empresas participarão de um programa de aceleração de quase um ano, com sessões de trabalho com modalidades “on-site” ou virtuais, distribuídas entre Buenos Aires, São Paulo e St. Louis, nos Estados Unidos.

O programa, que dura um ano, busca soluções em todas as verticais dentro do setor Food e Agtech, incluindo soluções de Agfintech (fora do campo, como logística, crédito, marketplace etc.). Após a versão latino-americana, Kieran explica que a aceleradora expandirá suas operações para a Ásia, em Singapura, ainda este ano. Desde o primeiro programa, em 2015, já foram mais de 30 startups aceleradas pela empresa em todo o mundo.

“Este mercado no Brasil está muito promissor. As agtechs estão ganhando seu momento faz dois anos, com vários hubs importantes, como Piracicaba, Londrina, Cuiabá. Temos mapeada mais que 300 empresas no Brasil, mas este número cresce a cada dia”, afirma.

Quem empreende

“Internet das vacas”

Startup detentora de uma das soluções mais distuptivas para o segmento agro no Brasil, a BovControl nasceu em 2013, a partir da necessidade de um dos seus fundadores, Danilo Leão, de gerenciar a produção leiteira da família à distância. Chamada de “internet das vacas”, a tecnologia da startup é utilizada “em tempo real no campo por todos que estão envolvidos na atividade pecuária em uma propriedade rural, auxiliando na consulta de informações específicas de cada animal e dessa forma facilitando os manejos no campo”, explica Marcelo Murachovsky, UX Designer da empresa.

O App pode ser integrado com leitores de chips RFID, balanças de pesagens e outros dispositivos, facilitando a coleta de dados no campo que são então sincronizados na nuvem e ficam disponíveis em um dashboard que ajuda os pecuaristas na tomada de decisões. Ele explica que a tecnologia funciona sem a necessidade de conexão com a internet e pode ser usado para atividades de corte, leite e genética.

Aplicativo BovControl

Hoje já são mais de 45 mil fazendas pelo mundo inteiro utilizando a solução brasileira. Além de potencializar a produção de alimentos, a tecnologia da startup pode ser utilizada em outros tipos de controle no campo, uma vez que uma das maiores dificuldades dos pecuaristas é o controle financeiro e gestão de funcionários. “O BovControl tem funcionalidades específicas para auxiliar o gerenciamento financeiro – no qual o pecuarista tira fotos de suas despesas e receitas, e montamos um DRE que mostra a saúde financeira do negócio – e também a gestão de tarefas e pessoas, que possibilita ao gestor da propriedade criar e designar tarefas para seus funcionários, otimizando as atividades realizadas”, explica Marcelo.

Ele diz que a startup está trabalhando também, em parceria com uma empresa sediada no campus da NASA na Califórnia, em uma ferramenta para fazer a gestão de pastagem por imagens de satélite.

A startup, que é um grande case de sucesso do segmento, fica hoje sediada na Califórnia, onde também tem uma fazenda-laboratório, na cidade de Fresno. Outros escritórios estão em Boston e São Paulo. No interior paulista também há outra fazenda-laboratório.

Para Marcelo, “o Brasil é referência em agro e cada vez mais passa a ser referência em agtech. O ecossistema tech em torno do agronegócio está cada vez mais forte o que cria grandes oportunidades de criação e potencialização de solução de agtech”. Para ele, empreender neste setor esbarra em desafios comuns a outros segmentos, como acesso a capital e um time complementar, mas “especificamente no setor de ag ainda sofremos com a falta de entendimento da necessidade do mercado em usar tecnologia no agronegócio”, afirma.

“Tinder” para equipamentos agrícolas

Marco Aurélio Chaves fundou, há três anos, a Alluagro, em Minas Gerais. O ponto de partida foi uma dor comum a muitos produtores rurais. “Em uma conversa com um tio que planta soja em Rondonópolis, ele me falava da grande dificuldade de encontrar colheitadeiras durante o pico da safra. Esse mercado de terceirização agrícola já existe a muito tempo, mas é muito desorganizado, amador e sem referência”, explica o fundador e CEO.

A statup é uma plataforma de geolocalização de máquinas e implementos agrícolas, conectando as pontas da cadeia do agronegócio: o produtor rural que precisa locar máquinas e implementos, com o prestador de serviço que precisa encontrar áreas produtivas para realizar o trabalho, seja ele preparo de solo, plantio, aplicação de corretivos, pulverização ou colheita. “Ainda contamos com uma dashboard de controle na nuvem onde o fazendeiro acompanha a operação da terceirização de colheita, informações tais como hora rotor, hora motor, perdas de plataforma e picador e consumo de combustível”, diz.

A empresa tem quatro sócios, cada um com uma expertise diferente: Marco, Marcia Malaquias (COO), Werther Ferreira (CSO) e Celso Villela (CSS). “Todos com grandes experiências no mercado, mas cada um com uma visão diferente para cada setor que atua”, explica Marco.

A empresa foi acelerada pela ACE, dentro do programa AgroStart, da BASF, e por meio dele recebeu uma rodada de investimento-anjo de R$150 mil. Em 2018 a plataforma da Alluagro transacionou R$3,5 milhões de reais, e o objetivo é que 2019 dobre este valor. A startup ainda não atua em outros países, mas Marco garante que o processo de internacionalização da startup começará pela América Latina, como Argentina e Paraguai.

A visão do empreendedor quanto ao ecossistema de startups deste mercado no Brasil é bastante promissora. “O agronegócio é uma grande potência que ajuda a manter o país de pé, os desafios são gigantescos para o setor, mas temos visto, de dois anos para cá, uma grande revolução digital acontecendo com uma velocidade muito grande. O produtor rural de hoje tem uma gama de soluções tecnológicas para ajudá-lo no dia-a-dia da fazenda, com isso ele aumenta sua produtividade com rentabilidade. E isso é apenas o começo, as Smart Farms serão uma realidade constante daqui para frente. Os grandes fundos de investimentos estão aportando milhões de dólares na agtechs e isso ajuda a alavancar o setor e promover essa revolução digital no campo”, diz Marco.

Time de sócios da Alluagro

Para o CEO, um dos desafios para este mercado era a adoção da tecnologia pelos produtores rurais. Atualmente, entretanto, ele acredita que este cenário está se tornando cada vez mais favorável para as startups. “Isso é um trabalho de evangelização e mudança de mindset, não é do dia para noite que se muda e quebra paradigmas tecnológicos, pois o produtor precisa da certeza que a tecnologia de fato vai ajuda-lo e trazer benefícios para o seu negócio. A transição familiar vai ajudar muito nesse processo, pois os filhos dos produtores que estão entrando nas fazendas já possuem a cabeça mais voltada para o mundo digital e irá facilitar e muito essa transição digital nas fazendas.”

Entre as oportunidades neste vasto segmento, Marco diz que ainda há muito para fazer no agronegócio brasileiro em relação à tecnologia. “Muitos gaps e oportunidades aparecem todos os dias. Logística é um grande entrave no país e, com isso, muitas oportunidades para esta vertical. Os sensores agrícolas, drones, irrigação inteligente, veículos autônomos, entre outros, vão ganhar muito espaço ainda no mundo do agronegócio”, acredita. Ainda há outros desafios, como telecomunicação e infraestrutura rodoviária. “Ano passado nossa equipe rodou mais de 42 mil km e sentimos na pele essas dificuldades”, conta.

Fazendas urbanas

Quem não quer ter à disposição diariamente alimentos frescos, saborosos, limpos, de qualidade e pertinho de casa? A Pink Farms oferece o gosto do interior em produções urbanas. A ideia nasceu em 2016, com o propósito de pensar na sustentabilidade de produções agrícolas.

Os sócios da startup são os irmãos Mateus e Rafael Delalibera, e Geraldo Maia. “Somos engenheiros com diferentes especialidades e trabalhamos anteriormente em startups de serviços e comércio eletrônico, antes de acharmos que era o momento certo para construirmos nossa própria empresa”, explica Geraldo, que também é CEO da empresa.

A fazenda vertical da Pink Farms funciona hoje na Vila Leopoldina, em São Paulo, e a empresa está finalizando a construção de sua fábrica em escala comercial. Para Geraldo, os principais pontos para trazer a produção para dentro dos centros urbanos são “a eliminação de diversas etapas na cadeia produtiva de hortaliças, no nosso caso, prontas para consumo, e fomentar o conceito de farm to table, que é essa aproximação entre os locais de produção e de consumo.”

As produções da agtech não utilizam luz solar no cultivo das plantações, mas sim uma iluminação LED cor-de-rosa, que dá nome à empresa. Ele explica que a decisão de não utilizarem a fonte natural de iluminação nas plantações é para que a empresa tenha controle de todas as variáveis ambientais da produção. “Assim, conseguimos fazer com que as plantas estejam na condição ideal para maximizar o crescimento, além de garantir sua qualidade e sabor. A iluminação rosa na verdade é uma composição de luzes vermelha e azul, que são as com comprimento de onda mais absorvido pela clorofila das plantas, aumentando a taxa de fotossíntese nas folhas”, explica.

Produção de hortaliças da Pink Farms

Ele ressalta também que plantas diferentes podem requerer espectros luminosos diferentes. “Essa tecnologia traz diversos benefícios tanto ambientais quanto também em qualidade e diversidade da produção. Sistemas de cultivo em ambiente controlado chegam a gastar 95% menos água que produções convencionais em campo aberto e o uso de fertilizantes chega a ser 50% menor”, diz. A eliminação de processos na cadeia de produção, já que as hortaliças são produzidas e processadas no mesmo local, dentro dos centros urbanos, aumenta sua durabilidade. “Como podemos simular condições climáticas de diversos lugares do mundo, podemos plantar espécies que não são comuns aqui no Brasil, aumentando o leque de ingredientes para que chefes de cozinha e mesmo a população em geral montem seus pratos”, afirma Geraldo.

Os produtos da empresa são totalmente rastreáveis, já que a startup coleta dados durante todo o cultivo e colheita das hortaliças, para que possam ser acessados posteriormente caso haja necessidade. Os produtos são entregados diretamente para o consumidor final, centros varejistas ou restaurantes.

O site da startup garante um produto melhor que os orgânicos porque, de acordo com Geraldo, além de não utilizarem nenhum tipo de defensivo agrícola, a startup é capaz de chegar a uma redução maior no uso de recursos naturais. “Um dos principais problemas que enxergamos nos orgânicos é a sua baixa eficiência, que torna ganhos de escala mais difíceis”, diz o CEO.

A startup também afirma que pode ser dezenas de vezes mais produtiva que as plantações no campo. Geraldo diz que esta afirmação se deve às produções verticais. “Trabalhamos com um adensamento maior, possibilitado pelas particularidades do sistema produtivo. Outro ponto importante é a independência de fatores climáticos. Ou seja, com as condições ideais conseguimos realizar mais ciclos de cultivo ao longo do ano.”

A startup pretende, para 2019, ampliar a atual produção na Vila Leopoldina, além de desenvolver canais de venda, incluindo loja física e online. Em breve, o objetivo da empresa é implementar plantações em outros estados. Até 2020, o plano é ter maior capacidade de produção e maior automação.

Para ele, uma das maiores oportunidades para o segmento agrícola no Brasil é justamente o que a startup ataca hoje. “Atualmente vemos uma grande quantidade de startups focando na área de serviços, mas poucas no desenvolvimento de produtos físicos, por exemplo de equipamentos que auxiliem na produção.”

Para ele, as tendências para este mercado estão cada vez apresentando mais oportunidades. “Uma tendência que vem sendo proposta por diversas agtechs atualmente é o uso de inteligência artificial para auxílio na solução de problemas relacionados ao cultivo. Isso reduz o custo de amostragem de análises em campo feitos atualmente e possibilita uma alta precisão nas análises com um custo mais baixo. Para que isso seja possível, é necessário que um volume grande de dados seja coletado, o que também é o foco de muitas startups da região”, completa.

FONTE: STARTUPi