jun 01

Disrupção pandêmica e o futuro da gestão

Alex Fabiane Teixeira*

Quando falamos em administrar todo mundo tem um pouco de conselhos a dar. Ao antigo jargão que diz que ‘de médico e louco todo mundo tem um pouco’, podemos acrescentar a administração, afinal, em um livre dicionário de sinônimos, podemos obter a associação do termo a conduzir, comandar, dirigir.

O fato é que todos nós, mesmo sem ter a noção de sua cientificidade, administramos alguma coisa: a mãe, a sua casa; os filhos, seus estudos; o pai, os seus negócios; enfim, do nascer ao pôr do sol, estamos administrando alguma coisa.

No entanto, quando falamos de organizações, sejam públicas ou privadas, administrar exige mais do seu líder do que simplesmente estar à frente do seu negócio. A gestão demanda planejar, agir, acompanhar e avaliar as atividades em prol de se alcançar objetivos, metas e resultados que se alinhem à visão e à missão da empresa ou entidade.

Assim, é possível perceber que gerir e tomar decisões adequadas sobre quais caminhos seguir são mais complexos quanto maior for a adversidade a qual se está submetido.

Dessa forma, obter resultados positivos em um ambiente competitivo, dinâmico e pandêmico torna a arte de administrar cada vez mais científica, e a percepção de que mudanças nos levam a inovações que conservarão a sobrevivência.

Nesse contexto, a humanidade foi desafiada em sua história por eventos que a pressionaram, mas ao mesmo tempo, que lhe serviram de impulso e de alavancagem. Igualmente, é possível separar da história da administração dois marcos, não exaustivos, que auxiliaram a revolucionar a humanidade ao chacoalhar a gestão das organizações.

A Revolução Industrial, durante os séculos XVIII e XIX, com o surgimento de fontes energéticas alternativas, de novas matérias-primas e da máquina a vapor, quebrou o paradigma manufatureiro ao introduzir a economia de escala.

Bens que eram de acesso restrito a poucos, agora podiam estar ao alcance das mais diversas mãos. Fenômeno similar foi proporcionado pela revolução tecnológica que teve início na segunda metade do século XX com a expansão do uso dos computadores digitais, cujo auge ainda não podemos afirmar, pois a cada dia é dado mais um passo nessa escada sem fim, mas que marcou a era da informação.

De tal modo, dois acontecimentos estão atrelados a essas revoluções, primeiramente a redução do esforço físico do trabalhador pelas operações automatizadas, e a segunda, o arrefecimento do seu esforço mental com o auxílio das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC).

Logo, os momentos de estresse são especiais para que a humanidade gere inovação e desenvolvimento a partir da criatividade, transformando de forma estrutural o presente e impactando o futuro das relações, em especial das organizacionais e sociais e, consequentemente, do trabalhador.

De qualquer forma, se por um lado as rupturas se propõem a tornar a vida humana melhor e mais fácil, por outro, desfrutar dessas possibilidades frequentemente se constitui um grande desafio para a humanidade.

Em pouco mais de quatro meses o mundo vem enfrentando uma grande ruptura em seus principais paradigmas sociais. Em 31 de dezembro do ano passado, a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu o primeiro alerta sobre o coronavírus após a notificação de casos de uma misteriosa pneumonia na cidade de Wuhan – China. De lá para cá, muitos países ficaram alertas e muitas pessoas, infectadas.

E o vírus? Se espalhou a uma velocidade estarrecedora deixando lideranças públicas e organizacionais sem informações suficientes para enfrentar confinamentos, isolamentos, fechamentos, lockdown, nem mesmo para avaliar o impacto social, econômico e pessoal de uma pandemia. Ou seja, será preciso “trocar o pneu do avião com ele voando”. Quão grande estresse! Quão grande movimento disruptivo!

Nessa esteira, com as condições sanitárias direcionadas, sobressaíram-se as relações organizacionais. A lógica econômica gerada na estruturação de mercados produtores e consumidores foi posta em check. O consumo foi interrompido abruptamente, impactando não só a produtividade, mas toda a atividade econômica conhecida. No entanto, as melhores oportunidades surgem em meio às maiores adversidades!

São nesses momentos que as grandes invenções e descobertas são realizadas. É em meio a situações adversas que importantes inovações são desenvolvidas. A primeira revolução industrial foi motivada por uma forte expansão do mercado consumidor que pressionou os manufatureiros a ofertarem mais e mais produtos abrindo as portas para o mundo moderno, para a globalização. A revolução tecnológica foi catapultada notadamente após a segunda guerra mundial quando houve profunda busca por informações. Hoje quem se dispõe a ficar sem Whatsapp?!

Dessa forma, a pandemia deve ser vista como instrumento de disrupção, inovação organizacional e mudança conceitual, pois está influenciando a formação de um novo paradigma relacional: do homem com o seu trabalho; dele com as técnicas e métodos e dele com o seu local. Nesse diapasão, o trabalho realizado em casa, ou simplesmente home office, tem vencido uma das últimas fronteiras dogmáticas das relações trabalhistas, onde realizá-lo.

A partir do conselho, #sepuderfiqueemcasa muitos trabalhadores têm enfrentado a sua rotina laboral diária em cima de suas mesas e camas através de seus laptops e PCs. No entanto, ao passo em que muitos podem achar essa situação temporária; pode, na verdade, estar sendo pavimentada uma nova revolução, a do relacionamento.

Deste modo, é possível inferir, não exaustivamente, que a maioria das reuniões continuarão a ser realizadas por meio de videoconferência. As viagens a trabalho serão reduzidas ou mesmo extintas. Os escritórios serão transformados em centros de videoconferências conectando funcionários e clientes, todos em suas residências.

Atendimentos médicos, psicológicos e veterinários serão realizados em consultórios virtuais. Não será mais necessário permanecer oito horas no escritório, uma vez que o isso ampliará o custo organizacional, sem necessariamente impactar a produtividade.

Não será mais necessária a formação de gerências intermediárias, pois as relações poderão ser diretas entre os que produzem e os que lideram, consequentemente, a automação de processos será acelerada. Haverá uma pressão na demanda por equipamentos digitais, o que fará deste mercado um dos mais promissores. Não se trata de futurologia, mas de perceber os movimentos sociais disruptivos que estão acontecendo.

Por fim, uma visão coerente frente a essas afirmações é de que o futuro da gestão está mais presente do que nunca! O que faremos? Tentaremos resisti-lo ou surfaremos na ‘crista’ da sua onda?

* PhD em Administração e Políticas Públicas, professor e coordenador do curso de Administração da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília.

FONTE: diariodocomercio.com.br