dez 07

De quem é a responsabilidade em acidentes provocados por robôs?

David Levy, especialista em inteligência artificial, fala sobre as relações entre humanos e robôs – Pablo Jacob / Agência O Globo Leia mais: https://oglobo.globo.com/sociedade/tecnologia/de-quem-a-responsabilidade-em-acidentes-provocados-por-robos-22139243#ixzz50ZhbMQl0 stest

RIO – Se existe uma unanimidade nas previsões dos especialistas em tecnologia é que, no futuro próximo, veremos uma expansão exponencial no número de dispositivos inteligentes conectados e de robôs. A expectativa é que, em 2020, existam no mundo 25 bilhões de “coisas”, alimentando a nuvem com toneladas de dados. E esse fenômeno já está acontecendo.

– Hoje, a nuvem tem mais informações sobre você do que você tem dentro da sua casa. É uma revolução – comentou Ney Acyr Rodrigues, diretor de negócios de Internet das Coisas da Embratel, em palestra no Wired Festival, que acontece nesta sexta-feira e sábado na Cidade das Artes, na Zona Oeste do Rio. – Diversos segmentos econômicos estão passando por profundas transformações. E a Internet das Coisas é um dos pilares dessa revolução.

Carros estão transformando motoristas em passageiros, aspiradores de pó autônomos ajudam na limpeza da casa e assistentes pessoais virtuais buscam informações na rede para facilitar o dia a dia das pessoas. E as possibilidades são enormes. Projeções indicam que até o fim da década o setor da Internet das Coisas irá movimentar US$ 4 trilhões. Isso significa que, cada vez mais estaremos rodeados por sensores e sistemas inteligentes.

Mas eu digo que a Internet das Coisas irá se transformar em “Inteligência das Coisas”. Estar conectado é apenas o habilitador, o diferencial é a inteligência – previu Rodrigues. – Com o carro conectado, por exemplo, as montadoras conseguem monitorar a situação do veículo e alertar o dono sobre a necessidade de reparos. Isso acontece a partir da análise dos dados.

Mas com cada vez mais dispositivos autônomos conectados, mais acidentes ocorrerão. Em 2015, uma mulher sul-coreana precisou ser resgatada pelos bombeiros após ter o cabelo sugado por um aspirador de pó robótico. No ano passado, um motorista que confiava no sistema de direção autônoma de um veículo da marca Tesla morreu num acidente.

– O que acontece quando um robô provoca um dano? Quem é responsável? Quem deve pagar indenizações? – questionou o especialista em inteligência artificial David Levy.

Esse é um debate que deve ser iniciado o quando antes em parlamentos de todo o mundo, pois a convivência de humanos com sistemas robóticos já é uma realidade. A tese mais simples é culpar o próprio robô, mas como eles são propriedade, não donos de bens, seria impossível o pagamento de compensações financeiras.

Existe a tese de responsabilização do dono do robô, como se a máquina fosse algo como um animal de estimação. Contudo, como uma pessoa pode ser responsabilizada por um sistema que possui inteligência desenvolvida por terceiros? Nesse sentido, alguns defendem a responsabilização conjunta das partes envolvidas na cadeia produtiva: o fabricante o hardware, o desenvolvedor do software e a empresa que vendeu o produto.

– Quando um robô se envolve em acidente por um defeito, a responsabilidade pode ficar com os fabricantes, mas os robôs serão usados por humanos, que podem ter sido negligentes – comentou Levy. – E os juízes e jurados terão que ter conhecimento técnico suficiente para julgar a responsabilidade de cada parte.

Para responder à complexidade da questão, o especialista propõe uma resolução fora dos tribunais, com a criação de leis que obriguem todos os robôs a terem seguros. As máquinas já sairiam de fábrica segurados por um determinado período, com o custo incluído no preço. Quando o seguro estivesse perto de vencer, o dono receberia um alerta, e caso não fizesse a renovação, a máquina seria desativada remotamente.

– Se os fabricantes forem responsabilizados, o negócio se tornará arriscado demais para os investidores – disse Levy. – Alguns defendem que a lei vai moldar o futuro da inteligência artificial. Eu discordo. Acho que a inteligência artificial vai moldar o futuro das leis.

FONTE: O GLOBO