maio 13

Como o mundo interativo de Mark Zuckerberg vai moldar o futuro da educação

Há menos de um ano o mundo parava para ouvir Mark Zuckerberg decretar o fim do Facebook. Mas aquele anúncio, de outubro de 2021, não era um ponto final. Ao contrário. O último sopro de vida do que foi (e ainda é) uma das principais redes sociais da atualidade era, na realidade, um indício da nova ambição da empresa ligada à tecnologia e ao futuro das relações no ambiente digital: a realidade aumentada. No Facebook, essa ambição ganhou o nome de Meta. Mas como fica a educação nesse universo?

Agora rebatizado, o grupo passou a ter um novo alvo de longo prazo: desenvolver um ambiente virtual tridimensional capaz de reunir marcas e pessoas e promover conexões que beiram a realidade em uma experiência imersiva e regada à tecnologia, mesmo longe do contato físico. Trata-se do chamado metaverso.

Fato é que o metaverso não é assunto novo. Ele remete aos primórdios dos jogos digitais imersivos, ambientes nos quais as fronteiras entre o que é possível ou não fazer e o que é digital e o que é físico são cada vez mais tênues. Antes mesmo disso, também remete à própria criação da World Wide Web (www), na visão de especialistas. Ainda assim, era uma realidade exclusiva aos jogos e a discussões acadêmicas aqui ou ali.

“O metaverso é um ambiente virtual coletivo onde você pode recriar as experiências do mundo físico, através de uma representação virtual: o avatar. Com ele as vivências podem ser extrapoladas, uma vez que no Metaverso, as limitações físicas deixam de existir, trazendo assim, imensas possibilidades de imersão” descreve Vladimir Barros, professor de design e produtos digitais e doutorando em realidade imersiva na CESAR School, instituto de inovação dedicado a formar profissionais para a nova economia.

Agora, ainda que engatinhe, a aplicação do conceito passou a despertar a atenção de empresas de todo o mundo, já atentas às perspectivas de uma nova realidade que deve movimentar até US$ 13 trilhões até o final da década, nas projeções do banco Citi. Juntas, elas apertam o passo para acompanhar a tendência, com a criação de ambientes virtuais para interação com clientes e admiradores já adeptos ao que a nova evolução da internet tem a oferecer. Na lista estão lojas para a compra de produtos e serviços, shows, terrenos no metaverso e até mesmo artes virtuais colecionáveis, ou tokens não fungíveis (NFTs).

Em outra ponta, o ânimo em torno do novo universo onde é possível estabelecer relações sociais híbridas também movimenta o mercado de trabalho. Confinados em casa, incontáveis funcionários ao redor do mundo estiveram diante de uma nova realidade de trabalho, agora mais flexível e longe dos escritórios graças ao home office estabelecido pela pandemia de Covid-19.

Agora, mesmo com o retorno gradual à normalidade, o modelo dá sinais de que não abandonará o dia a dia de empresas tão cedo. De olho nisso, muitas companhias estão olhando para o metaverso como um ambiente de testes para uma nova fase no mundo do trabalho, levando reuniões, treinamentos e processos seletivos para o digital em busca de produtividade e conexão com a ajuda de avatares personalizados.

É uma tendência que já atraiu a atenção de executivos preparados para atender a demandas de corporações com algum afinco tecnológico, como Marcel Nobre, ex-Ambev, BRF, Heinz e CitiBank e, mais recentemente, fundador da BetaLab, startup de educação corporativa fundada em junho de 2021. A BetaLab se propõe a criar experiências imersivas no treinamento de grandes grupos de funcionários em empresas de diferentes portes, de maneira personalizada e com uma metodologia própria.

Marcel Nobre, da BetaLab: experiências imersivas no treinamento de grandes grupos de funcionários em empresas.

Marcel Nobre, da BetaLab: experiências imersivas no treinamento de grandes grupos de funcionários em empresas.| Divulgação

No esforço de mapear as principais dores de empresas em relação aos cuidados com o negócio e também de estar antenada com as movimentações envolvendo o metaverso, a BetLab vai passar a integrar os óculos de realidade virtual para empresas, permitindo que treinamentos sejam feitos remotamente, com interações e simulações de vendas e negociações, entre outras coisas. “Temos um metaverso próprio, fazemos isso criando inteligência de negócios em uma empresa de educação”, diz.

Nas salas de aula, vida e educação mais tech
Mesmo à frente de algumas disrupções envolvendo a adesão de tecnologias digitais, as empresas não foram as únicas impactadas com as mudanças em virtude da pandemia. A digitalização no contato entre pessoas e no acesso ao conteúdo também atingiu as salas de aula, inaugurando uma nova era na educação, agora mais digital do que nunca.

O novo contexto abre precedentes para que o metaverso se torne um ambiente promissor para o setor, defende Daniel Pedrino, presidente da Faculdade Digital Descomplica, braço de graduação da edtech. Segundo ele, o principal benefício do metaverso no ensino é o poder de ampliar a sociabilidade — um fato que, para Pedrino, continua sendo a principal carência do ensino digital atual. “Sem dúvida a educação vai se beneficiar disso”, afirma.

Fato é que a transformação digital passou a ser ainda mais proeminente na área de educação de uns tempos para cá. Na própria Descomplica, esse resultado se dá em números: mais de 50% dos novos alunos de graduação buscam a formação online. “O metaverso é um item que colabora com essa necessidade real da digitalização do ensino e como queremos essa educação no futuro”, diz.

Por lá, o tema já é pauta de algumas conversas iniciais. O primeiro passo, segundo Pedrino, vai se dar no recrutamento de professores dentro do metaverso, aos moldes do que tem sido feito por empresas tradicionais da velha economia. Depois disso, a preocupação estará em criar conteúdos de ensino dentro do metaverso capazes de reter a atenção e despertar o engajamento. “Podemos e estamos nos preparando para atender a expectativas relacionadas ao metaverso nesses dois pilares”.

Startups como a Descomplica, já habituadas a tomar a dianteira quando o assunto é adoção de novas tecnologias, também acabam inspirando instituições mais tradicionais. Vide o exemplo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que criou uma “especialização em metaverso”, num curso voltado ao desenvolvimento de tecnologias 3D.

No curso, os alunos têm uma grade voltada à aprendizagem de tecnologias comuns ao metaverso, além de poder assistir às aulas em salas virtuais no metaverso e ter acesso a um laboratório digital com óculos de realidade aumentada. “Antes mesmo de ser chamado assim, o metaverso já era uma das frentes de trabalho da Universidade”, explica Márcio Catapan, professor responsável pelo curso.

educação no metaverso

Mark Zuckerberg, ao decretar o fim do Facebook e a criação da Meta, em outubro de 2021.| Divulgação

Segundo Catapan, o interesse de empresas multinacionais com programas de visitação vêm há anos aquecendo a criação de ambientes virtuais pautados em realidade aumentada, com o intuito de facilitar o deslocamento de grandes times até as sedes das corporações. Agora, o conceito tende a ganhar popularidade, dentro e fora da sala de aula, e as universidades podem criar grupos de trabalho para a execução de estudos sem a necessidade de ir até o campus.

“Sabemos que interações ajudam a reter melhor o conteúdo, e estudos mostram que até mesmo reuniões imersivas funcionam melhor do que essas reuniões que fazemos remotamente. Sendo assim, o metaverso, do ponto de vista educacional, nos traz uma infinidade de possibilidades, sobretudo a de inclusão de alunos de estados e países diferentes”, conclui.

Na ponta, existem startups que viabilizam essa realidade, criando a infraestrutura tecnológica por trás das salas de aula digitais. A startup MedRoom é um desses casos. A edtech paulistana desenvolve tecnologias imersivas para a área da saúde, ajudando na formação e treinamento em anatomia de médicos e profissionais do setor com a ajuda de realidade virtual. O primeiro recurso para isso foi com os óculos de realidade aumentada, oferecidos a cerca de 40 universidades interessadas em criar experiências imersivas. Entre os clientes da MedRoom estão a Anhembi Morumbi, São Judas e o braço educacional do Hospital Albert Einstein.

Recentemente a startup estendeu sua frente de atuação, incluindo interações pelo computador e smartphones, em busca de simular a experiência com os óculos em outras plataformas. Ou seja, um aluno pode simular uma cirurgia ou outros procedimentos do dia a dia, com realidade virtual, pelo celular. “Sabemos que o futuro do ensino é híbrido, espacial e imersivo. Estamos acompanhando isso”, afirma Vinicius Gusmão, CEO da startup.

Vinicius Gusmão, CEO da MedRoom, edtech paulistana que desenvolve tecnologias imersivas para a área da saúde, ajudando na formação e treinamento em anatomia.

Vinicius Gusmão, CEO da MedRoom, edtech paulistana que desenvolve tecnologias imersivas para a área da saúde, ajudando na formação e treinamento em anatomia.| Divulgação

O caminho pela frente

Se de um lado a produtividade, o engajamento e retenção de conteúdo — mesmo que em formatos ainda desbravados aos poucos pelas empresas e instituições de ensino — possam parecer um prato cheio para o mercado, de outro, escancaram desafios a serem superados para que Metaverso realmente seja conversa cotidiana.

A primeira entrave, por exemplo, está no custo dos dispositivos de realidade aumentada, no caso dos famosos óculos. Ainda é preciso entender quem pagará a conta quando esse equipamento é oferecido aos alunos — hoje, a maioria das instituições dispõe de uma quantidade limitada de aparelhos por turma. Por ora, o acordo mais comum se dá entre universidades e empresas dispostas a financiar tecnologia. “Ainda assim, esse tipo de parceria mais rotineira é cenário para daqui a alguns anos”, diz Catapan, da UFPR.

Outro contraponto está na disposição de recursos no ensino básico. Ainda que, com a pandemia, o ensino digital tenha se popularizado, ele ainda não é democrático. Estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 55% dos alunos sequer tinham acesso à internet durante o auge do período pandêmico.

educação no metaverso

O uso de óculos de realidade aumentada já começa a ser incorporado às práticas educacionais, a exemplo da MedRoom.| Divulgação

Para Pedrino, do Descomplica, o desafio está em encontrar caminhos para entrar no metaverso de maneira realmente relevante para os alunos. “É preciso diferenciar a atuação e o conteúdo, se não, será apenas uma inserção no online, como muitas outras”. Para ele, é vital que as instituições de ensino definam as expectativas com o uso do metaverso. Um dos exemplos mais comuns está na criação de novos modelos de testes de ensino, com provas que fogem do modelo tradicional de alternativa e resposta.

Por fim, a educação dos próprios professores tende a ser um desafio para o avanço do metaverso na educação, segundo especialistas. “Acredito que o maior desafio sobre qualquer ambiente que for criado para o metaverso é a adaptação”, diz Souza, da CESAR School. “Algumas ferramentas podem mudar totalmente a visão de professores de que a adesão à tecnologia é algo muito difícil. É um processo lento, mas necessário. O lado positivo é que a pandemia naturalmente já impulsionou isso.”

A depender do entusiasmo do tema e do interesse crescente de big techs pelo futuro do metaverso, áreas como a educação só tendem a ganhar. Com médicos podendo realizar cirurgias cardíacas high-tech, alunos podendo ter aulas básicas por dentro de simulações de períodos históricos e empresas tendo à disposição recursos para formar colaboradores mais arrojados, o metaverso ainda deve ser pauta para conversas que extrapolam os NFTs e as reuniões virtuais e faça parte das salas de aula de maneira definitiva.

FONTE: https://www.gazetadopovo.com.br/gazz-conecta/como-o-mundo-interativo-de-mark-zuckerberg-vai-moldar-o-futuro-da-educacao/