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Como liderar em tempos de mudanças constantes?

O mindset é essencial para que os times possam ver as mudanças como algo positivo. Elise Mitchell indica estratégias para criar um ambiente favorável a esses desafios
Por Marina Hortélio

A mudança é a única constante e as empresas devem estar preparadas para acompanhar as novas demandas dos clientes. Diante de uma transformação há dois caminhos: resistência ou resiliência. O grande desafio dos líderes é justamente mostrar como a mudança pode trazer resultados positivos, como mais inovação e um melhor posicionamento em meio à concorrência. A boa notícia é que a liderança tem o poder de criar o mindset certo para seus times enfrentarem tempos complexos, voláteis e incertos, como os de hoje. É isso que garante Elise Mitchell, Founder e Principal da Velocity Collective, que durante palestra no RD Hostel 2021 apontou caminhos para os líderes enfrentarem esse desafio.

A jornada de mudança é complexa, a começar pela forma como os líderes avaliam os colaboradores. De acordo com Elise, muitas vezes são analisadas questões superficiais, como os resultados e o comportamento dos liderados. Entretanto, é preciso olhar mais profundamente para os funcionários para entender outros pontos, como as emoções, os valores, as crenças e o mindset. É essa análise aprofundada que aumenta as chances dos times de superarem qualquer resistência à mudança.

A neurociência explica como é importante ter uma abordagem mais completa ao liderar em momento de mudança. Duas partes do cérebro são fundamentais para entender esse processo: o córtex pré-frontal (PFC) e o sistema límbico. O primeiro está ligado aos pensamentos complexos, a tomada de decisões estratégica e a inibição. A segunda controla as emoções e o impulso de lutar, fugir ou ficar paralisado em uma situação de ameaça.

“Essas duas partes do cérebro não funcionam bem ao mesmo tempo porque ambas consomem muito ‘combustível’. Além de sangue e oxigênio, os combustíveis cerebrais são água, glucose e sono. É preciso ter essas três coisas para o cérebro operar no melhor do seu potencial”, afirma a fundadora da Velocity Collective. “Quando o córtex pré-frontal está trabalhando muito, como quando estamos pensando em um plano estratégico ou tentando resolver o problema de um cliente, ele fica todo ativado. Com isso, o sistema límbico se aquieta porque todo o combustível está indo para o PFC”, completa.

Elise Mitchell ainda apresenta outros três princípios do cérebro que podem ajudar a liderar durante mudanças:

Ameaças X Recompensas: o dia inteiro, o cérebro está buscando uma ameaça para se afastar ou uma recompensa para se aproximar. Os líderes precisam lembrar que as pessoas são motivadas e ameaçadas por coisas diferentes, então é preciso perguntar aos liderados o que os motiva e os incomoda.
Ameaças sociais X Ameaças físicas: o corpo e a mente podem reagir da mesma forma (ou até pior) a uma ameaça social, como o fracasso ou a rejeição, do que a uma ameaça física. Uma ameaça social pode ser muito debilitante, dificultando até o pensamento durante esses momentos.
Mindset de afastamento X Mindset de aproximação: é possível ter uma mentalidade mais aberta, que desperta curiosidade e interesse (mindset de aproximação) por estar se movendo em direção a uma oportunidade ou uma recompensa. Já no outro estado mental desperta a fuga frente a uma ameaça.
É com base nesses pontos que Elise explica como conversas difíceis no trabalho podem colocar os colaboradores em um estado mental de ameaça, ativando o sistema límbico e dificultando um pensamento mais racional. “Pensando em relação à mudança, alguém que está se sentindo ameaçado entra em um mindset de afastamento. Já alguém que está aberto à mudança e vê um potencial de recompensa se torna muito aberto e vê as mudanças como algo muito bom”, explica a Principal da Velocity Collective.

O estudo da neurociência ajuda a demonstrar que os líderes têm a capacidade de mudar o mindset dos times em tempos de mudança. Para isso, Elise indica fazer perguntas, oferecer uma oportunidade e apresentar um desafio ou um quebra-cabeça.

O mindset dos líderes e, por consequência, dos liderados tem o poder de apresentar a mudança como uma oportunidade ou algo ameaçador. A consultora indica ainda outras três estratégias para transformar algo desafiador em positivo:

Tempo para pensar: em momentos de mudança, é preciso sair do caos do dia a dia empresarial para conseguir tirar um tempo para pensar e ter uma visão clara do cenário. É assim que se descobre o que está prestes a acontecer no mercado. Nessa hora é preciso se fazer três perguntas: “Quais mudanças estão chegando?”, “Quais devem ser seus impactos?” e “O que eu posso fazer agora para me preparar?”
Ampliar os inputs: para ter novos pensamentos é preciso se expor a ideias novas e diferentes que ajudam a conectar os pontos no cérebro em diversas maneiras. Os conteúdos podem ser consumidos em diferentes formas, desde podcasts, passando por relatórios, até o estudo dos competidores.
Visualizar a próxima meta: geralmente, os líderes estão sempre de olho nos próximos desafios, mas os times podem ficar cansados e passar a ter uma reação adversa a essa nova meta. Mais uma vez é preciso mudar o mindset dos liderados com ações como fazê-los visualizar o futuro, mostrar o potencial de recompensa e focar na solução e não no problema.