Como a inteligência artificial pode tornar o brainstorming menos tedioso

A tecnologia generativa melhora o trabalho – mas os funcionários precisam ser tão inteligentes quanto seus novos assistentes.

Todos nós já passamos por isso: um brainstorming da empresa toda, uma sessão de “ideação” de alto nível, uma – que Deus nos ajude – “sessão improvisada de estratégia”. Mesas para dez, um monte de flipcharts e uma pilha de post-its nos quais um moderador com excesso de cafeína nos convida a escrevinhar nossas prioridades para o ano que entra. Uma semana depois, um anexo enorme circula por e-mail, apenas para naufragar rapidamente em uma caixa de entrada abarrotada com as demandas mais urgentes do dia.

A CEO da Mercer, Martine Ferland, organizou há pouco tempo uma reunião desse tipo para 150 líderes da consultoria de recursos humanos. Mas, em vez de usar post-its, ela lhes pediu que escrevessem suas prioridades em iPads. “Quando o moderador entrou em cena, já tínhamos um sumário criado pela IA”, contou-me Ferland recentemente. Em seguida, as 15 mesas refinaram o resultado com notas de seguimento relevantes para o setor da indústria em que trabalhavam.

Esse é um exemplo de como as empresas têm usado a inteligência artificial generativa. Como Erik Brynjolfsson, da Universidade de Stanford, disse aos delegados da cúpula do Fórum Econômico Mundial em Davos, no mês passado, este é o ano em que a IA generativa “ganhará um corpo e começará a fazer coisas – transformar o mundo, transformar o trabalho, transformar a produtividade”.

Mas primeiro as empresas precisarão transformar os próprios funcionários; convencê-los, por exemplo, a desaprender algumas formas velhas de brainstorming e a descobrir como colaborar melhor com a ajuda dessa ferramenta nova e poderosa.

O potencial da IA generativa para revolucionar os dias de trabalho da liderança fora do escritório não é exatamente algo que vá mudar o mundo. Mas cabe perfeitamente na caixa em que quase todos os executivos que conheci em Davos afirmam que planejam confinar, por enquanto, a inteligência artificial generativa: a de um “amplificador” de aperfeiçoamentos no trabalho em vez de um “entrave” destruidor de empregos, um melhorador de receitas mais do que um redutor de custos.

Ferland acredita que a IA substituirá algumas funções, mas vai ampliar outras, ajudando a “superar a escassez de talentos” e a aproveitar melhor o tempo disponível.

Outros CEOs com quem conversei recentemente se gabam de como a inteligência artificial generativa já auxilia nas tarefas: acelera a devida diligência para investimentos, busca e faz a triagem de candidatos a empregos, integra e treina novos funcionários, estimula a equipe de atendimento ao cliente a encontrar as respostas certas e a fazer as perguntas certas.

A acessibilidade e a usabilidade instantâneas da inteligência artificial generativa a diferenciam das ondas anteriores de tecnologia de cima para baixo, como a digitalização. “Vejo menos obstáculos [ao uso generalizado] da IA generativa do que no caso de todas as outras tecnologias com que lidamos há décadas”, disse Barbara Lavernos, vice-executiva-chefe da empresa de cosméticos L’Oréal.

A falta de atrito, porém, também traz seus desafios. O especialista em criatividade Jeremy Utley, também de Stanford, diz que a interface tipo “caixa de texto” de aplicativos como o ChatGPT convida os usuários a fazerem consultas, de forma muito semelhante a uma pesquisa no Google. Para ele, isso “predispõe a pessoa a tratar a IA como um oráculo” e não como um colaborador criativo, o que tira um pouco da força do brainstorming.

Utley e Kian Gohar acabaram de publicar um estudo sobre como as equipes de inovação empresarial usam a nova ferramenta em tarefas de resolução de problemas. Eles concluíram que a maioria não conseguia tirar o melhor proveito da ajuda da IA e ficava aquém até do próprio potencial de resolução de problemas.

Por exemplo, as equipes que usavam a inteligência artificial tendiam a produzir menos respostas realmente boas ou realmente ruins do que seus colegas sem assistência da IA. As equipes que produziram respostas de grau A com a ajuda da IA acharam o trabalho mais difícil do que aquelas que se contentaram com ideias “boas o suficiente”. As equipes com baixo desempenho tendiam a usar o chatbot de IA como um solucionador de problemas, em vez de um parceiro de conversação.

A IA generativa tem sido comparada a um “estagiário de verão de um MBA”, embora com muito mais poder e conhecimento à sua disposição. Mas, segundo Utley, se um gerente desse uma instrução de uma tarefa a um estagiário e recebesse um relatório terrível, “o problema não seria o estagiário, seria o gerente”.

Gohar e Utley sugerem algumas maneiras de melhorar isso. Pedir às pessoas que pensem cuidadosamente e sozinhas sobre um problema específico antes de interagir com a inteligência artificial. Envolver um moderador neutro para ajudar a guiar a fase final de organização das ideias. Acima de tudo, como lhes disse um executivo, para alcançar os resultados mais criativos “ponha a ênfase no chat, não no bot”.

Para Brynjolfsson, este não é “o momento de sentar e esperar”. Mas as empresas devem preparar o terreno e agir com cuidado. No grupo de logística DHL, Nikola Hagleitner, membro do conselho de gestão, diz que precisa ficar encorajando os funcionários da linha de frente das entregas para que aceitem e aproveitem o potencial da IA, ao mesmo tempo em que tem de conter os gestores tentados a avançar depressa demais: “Temos de segurar o ritmo de um grupo e tirar o medo do outro grupo”, resume ela.

Na teoria, a tecnologia deveria aumentar o volume e a variedade das ideias geradas pelo emparelhamento de seres humanos e inteligência artificial. Mas Utley afirma que a IA pode simplesmente amplificar os preconceitos cognitivos subjacentes dos envolvidos na brainstorm, tais como, por exemplo, aceitar a primeira resposta plausível do chatbot. A menos que as pessoas envolvidas no processo mudem a forma como trabalham, em vez de estimular estratégias inovadoras, a IA generativa vai acelerar as práticas problemáticas e os maus resultados – será mais tempestade do que cérebro. (Tradução de Arutha Martins)

FONTE: https://valor.globo.com/carreira/noticia/2024/02/11/como-a-inteligencia-artificial-pode-tornar-o-brainstorming-menos-tedioso.ghtml