jul 04

Como a inteligência artificial foi utilizada para contar os manifestantes em Hong Kong

Universidade de Hong Kong usou sistema de inteligência artificial para contar manifestantes. Vídeo no NYT mostra como pode ser feito. Contagem ficou entre a estimativa da polícia e dos organizadores.

A equipa da Universidade de Hong Kong contou 275 mil manifestantes — ao contrário dos 190 mil que contou a polícia e os 550 mil da organização
JEROME FAVRE/EPA

Na guerra de números que sobra de tantas manifestações feitas pelo mundo fora, uma equipa da Universidade de Hong Kong encontrou um novo método para chegar a uma contagem tão real quanto possível: recorrendo à inteligência artificial.

É disso que dá conta o The New York Times, que esta quarta-feira conta como o investigador Paul Yip, da Universidade de Hong Kong, se juntou a Edwin Chow da Universidade Estadual do Texas e a Raymond Wong, da empresa de tecnologia C&R Wise, para contar o número de pessoas na habitual manifestação de 1 de julho em Hong Kong, para assinalar o aniversário da passagem daquela região do Reino Unido para a China — manifestação essa que, este ano, foi marcada por episódios de violência e pela invasão do parlamento por parte de manifestantes contra o regime chinês.

De acordo com os organizadores da manifestação de 1 de julho, estiveram lá 550 mil pessoas. Já a polícia, deu conta de 190 mil manifestantes. E o estudo de Paul Yip e a restante equipa? Algures no meio: 275 mil manifestantes.

De acordo com o The New York Times, para chegar àquele número a equipa utilizou várias informações redundantes para tentar garantir ao máximo que não contava gente a menos (caso o sistema não desse por elas) ou a mais (bastando para isso que uma pessoa fosse registada mais do que uma vez). Para isso, a informação recebida foi tratada consoante variáveis como a densidade da massa dos manifestantes, a velocidade a que andavam e também a luz no local, faz notar aquele jornal.

Mas como é que o sistema reconhece pessoas e não outros objetos no seu lugar, evitando assim contar objetos como seres humanos? “O sistema é todo baseado em pistas visuais, como o nível de brilho, cor, formas, geometria dos pixels, tudo junto”, disse Raymond Wong ao The New York Times. Um dos desafios para a equipa são os guarda-chuvas — um objeto comum nas manifestações de Hong Kong desde 2014, ano em que os manifestantes começaram a usar guarda-chuvas para se protegerem do gás lacrimogéneo lançado pela polícia. De acordo com o jornal já citado, a equipa liderada por Paul Yip tratou de treinar o sistema para garantir que os guarda-chuvas não fossem reconhecidos pelo sistema como pessoas.

Embora a contagem tenha sido feita em grande parte com recurso a inteligência artificial, esta teve ainda assim ajuda humana. Parte da contagem foi feita por voluntários, com recurso a iPads. Foram colocados sete daqueles tablets em cada uma de duas pontes pedonais na rua por onde passou a manifestação. Com a contagem a decorrer de forma automática, os voluntários tinham a função de contar as pessoas que não fossem reconhecidas pela máquina.

O tema da inteligência artificial tem levantado várias dúvidas no “outro lado” da China, sob o regime de Pequim. Estima-se que hoje a China tenha mais de 200 milhões de câmaras de vigilância, algumas delas capazes de identificar pessoas em poucos segundos. Enquanto isso, nalgumas zonas do país, está em vigor um sistema de crédito social, em que as autoridades definem o que é ou não correto — e punem quem não age de acordo com os princípios morais impostos pelo regime.

” Os sistemas têm graus de sensibilidade diversos — alguns têm mesmo inteligência artificial, de forma a que as câmaras possam reconhecer pessoas, objetos ou até matrículas. Além disso, big data e sistemas de crédito social são utilizados pelas autoridades para vigiarem as pessoas em variadíssimos aspetos das suas vidas. Se a isto juntarmos a propaganda e a censura que já existiam, todos sabem que estão sempre a ser vigiados”, disse ao Observador a investigadora sénior da Human Rights Watch para a China, Maya Wang, numa entrevista em dezembro de 2018.

FONTE: O OBSERVADOR