Como estimular a inovação mesmo em meio à seca de capital, segundo o especialista israelense Shlomo Maital

Professor emérito do Instituto de Tecnologia de Israel (Technion) e especialista em inovação, empreendedorismo e criatividade, pesquisador virá ao país no fim de agosto participar do International Innovation Seminar, a convite do Insper.

Shlomo Maital — Foto: Shlomo Maital, CC BY-SA 3.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0>, via Wikimedia Commons

Professor emérito do Instituto de Tecnologia de Israel (Technion) e pesquisador sênior do Neaman Institute for National Policy Research, da mesma instituição, Shlomo Maital teve o privilégio de acompanhar, em primeira mão e durante pelo menos 50 anos, o desenvolvimento do ecossistema de inovação israelense — considerado uma referência mundial na indústria tecnológica.

“Israel tem uma ampla e profunda cultura de rebelião, argumentação, pensamento crítico e independência feroz. Este é o motor das nossas startups”, afirma Maital, em entrevista a Época NEGÓCIOS.

Um em cada quatro graduados do Technion funda uma startup, conta o professor. “Esta é uma proporção alta, dado que esses graduados ganham salários muito altos, sem riscos, no setor de alta tecnologia, e desistem deles. A cultura do país deve corresponder ao seu ecossistema de empreendedorismo”, observa.

A convite do Insper – Instituto de Ensino e Pesquisa, Maital virá ao Brasil no fim do mês para participar do painel “Corporate Venture Capital and Corporate Venturing”, dentro da programação do International Innovation Seminar, evento com foco em inovação e tecnologia que a instituição realiza entre os dias 28 e 31 de agosto, em São Paulo.

Na entrevista, realizada por e-mail, o pesquisador analisa o cenário atual de CVC e compartilha alguns de seus insights sobre o mercado. Confira abaixo os principais trechos.

Época NEGÓCIOS – Em seu painel no seminário, você abordará o tema Corporate Venture Capital. Como avalia o cenário de CVC hoje, globalmente?

Shlomo Maital – Há uma seca global de capital de risco, em geral, e de capital de risco corporativo, em particular. Essa seca é especialmente severa em empresas em estágio avançado. Em uma atmosfera de extrema aversão ao risco, seria de se esperar o contrário – as empresas em estágio avançado apresentariam menor risco. Mas não é o caso, em parte porque as demandas de capital em estágio avançado são muito grandes.

Por uma década, desde 2010, a oferta de fundos de risco mais ou menos correspondeu à demanda, com pequenas oscilações. Hoje? A demanda de capital de risco em estágio avançado é 3,5 vezes maior que a disponível. Isso significa que mesmo os empreendimentos em estágio inicial bem financiados podem, de repente, descobrir que o poço secou, ​​mas as contas precisam ser pagas.

Do ponto de vista de um founder, como é necessário agir agora? No que as startups devem se concentrar ao tentar atrair investimentos?

Vou compartilhar um conselho direto de Noam Maital, meu filho e um empreendedor iniciante de sucesso que agora trabalha como VC para UpWes [fundo israelense]. Os fundadores podem fazer pelo menos três coisas.

A primeira delas é “estenda a jornada” – estique o cronograma e estique o capital que você tem. Em segundo lugar, acelere o cronograma. Chegue a um produto ou serviço tangível mais rapidamente, para entrar no mercado mais rapidamente, gerar receita, demonstrar viabilidade e estabelecer uma avaliação baseada em fatos. Em terceiro lugar, concentre-se em um modelo de receita forte.

Ao mesmo tempo, ajuste suas expectativas. O cenário atual pegou muitos fundadores desprevenidos, pois, durante uma década, o mercado se inclinou fortemente para as startups. Não mais. E, por último, esteja ciente de que você terá que dar muito mais para obter financiamento.

Que tipos de negócios ou teses de negócio podem ser mais atrativos para os investidores neste momento?

Penso que Peter Drucker resumiu bem essa questão, em uma citação de seu livro de 1974, “Management Tasks”: “Organizações inovadoras percebem que não se pode criar o novo e cuidar do que já se tem simultaneamente. Eles percebem que a manutenção do negócio atual é uma tarefa grande demais para que as pessoas tenham muito tempo para os negócios diferentes para amanhã.”

Então, eu diria que as grandes organizações não são receptivas a indivíduos criativos “estranhos”, que murcham dentro de estruturas corporativas rígidas e burocráticas. Drucker recomenda “colocar o novo em componentes organizacionais separados, relacionados com a criação do novo”. Esta é a lógica sábia para o corporate venturing.

Você acompanha o ecossistema de inovação há bastante tempo. Acredita em uma recuperação do mercado a longo prazo?

Vou novamente citar meu filho, que está na posição de um VC líder em Israel. Temos um blog juntos no qual escrevemos sobre a indústria. Na visão de Noam, existe alguma vantagem nessa seca de capital. Startups em todos os estágios, especialmente as estabelecidas, estão demitindo trabalhadores. A mesa pode ter pendido a favor dos investidores – mas também a favor dos empregadores em busca de talentos. Será mais fácil encontrar o talento de que você precisa.

Do ponto de vista dos fundadores, ele diz: “Trabalhe para sobreviver à seca. Lembre-se que sua vida se tornou muito mais difícil. Você passará mais tempo fazendo apresentações para investidores e enfrentará respostas pouco acolhedoras. As saídas serão menores e mais difíceis, e a diligência prévia levará mais tempo e será muito mais completa. A incerteza aumentou dramaticamente. Você pode arrecadar fundos iniciais, mas tem muito menos garantia de que conseguirá arrecadar mais rodadas.

Em relação ao boom da IA generativa, como você vê o impacto dessa tecnologia no ecossistema de inovação? Muitas startups relacionadas à IA estão surgindo, corporações estão de olho em novas soluções. Qual é a sua visão sobre o tema?

A IA anuncia uma nova revolução industrial. Isso afetará a vida de todos os negócios e de todos os seres humanos. Naturalmente, houve uma enxurrada de investimentos em IA, e alguns deles lembram a “bolha ponto.com” [bolha da internet, que ocorreu em meados da década de 1990 com a hipervalorização de algumas empresas de tecnologia].

O que os VCs experientes pensam sobre IA é o seguinte: aplicar e implementar IA com sucesso em uma empresa envolverá muito mais do que fazer uma pergunta ao ChatGPT4. Para isso, você precisa de uma verdadeira experiência em IA – e uma verdadeira expertise na área. Como isso leva anos de estudo, trabalho e experiência, não será fácil, e a maioria das empresas acha que IA significa contratar um especialista.

Israel é um exemplo de país que conquistou sucesso no ecossistema de inovação. Que lições a experiência de Israel pode trazer para outras nações?

Aqui, eu destacaria dois pontos. Primeiro, Israel tem uma cultura ampla e profunda de rebelião, argumentação, pensamento crítico e independência feroz. Este é o motor das nossas startups. Um em cada quatro graduados do Technion faz uma startup. Esta é uma proporção alta, dado que esses graduados ganham salários muito altos, sem riscos, em alta tecnologia, e desistem deles. A cultura do seu país deve corresponder ao seu ecossistema de empreendedorismo.

A China, por exemplo, carece desse espírito rebelde. Então, seu empreendedorismo provavelmente ocorrerá em grandes organizações, de maneira disciplinada. O Brasil, eu acho, tem uma cultura não muito diferente da de Israel – jovens espirituosos, que defendem ferozmente suas ideias únicas. Isso deve ser fomentado. Mas não é suficiente. Você precisa dos outros ingredientes.

Aí vem o segundo ponto, que são os principais ingredientes de startups bem-sucedidas: liderança, visão, dinheiro, tecnologia, time, mercado, estratégia, agilidade e “hutzpah”, que significa um estado de insolência, arrogância e extrema autoconfiança, acreditando que você pode fazer algo extremamente difícil, inovador, nunca feito antes – e conseguir fazê-lo.

Como exemplo, posso citar duas startups daqui. A Aleph Farms, que fabrica substitutos de carne à base de proteína vegetal. É muito gostoso. E demorou muito tempo para fazer. Não é provável que seja um líder de mercado no Brasil carnívoro, mas é muito gostoso. E a ReMilk, que faz leite sem vaca, usando fermento para criar as proteínas do leite. Leite de verdade! Eles já estão vendendo na Europa.

FONTE:

https://epocanegocios.globo.com/empresas/noticia/2023/08/como-estimular-a-inovacao-mesmo-em-meio-a-seca-de-capital-segundo-o-especialista-israelense-shlomo-maital.ghtml