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Com startups, montadoras desenvolvem caminhões autônomos e robôs

Parcerias buscam desenvolvimento de novos projetos e modelos de negócios, além de redução de custos

ontadoras instaladas no Brasil começam a abrir as portas para startups. As parcerias locais feitas até agora envolvem principalmente soluções tecnológicas nas áreas de recursos humanos, administrativa, regulamentação, engenharia de manufatura, compartilhamento e até direção autônoma.

“Quando sentimos uma dor, um problema que não conseguimos solucionar internamente, buscamos as startups”, afirma Ricardo Mendes, gerente geral de Transformação de Negócios da Renault, com fábrica na Grande Curitiba (PR). Em abril, a montadora passou a ocupar uma área no Cubo, espaço de empreendedorismo do Itaú instalado em São Paulo.

Já foram consolidadas três parcerias com startups do Cubo: com a Linte, para gestão de contratos; com a Kenoby, que desenvolve novo processo de recrutamento; e com a JoyCar, de compartilhamento de carros. A Renault cedeu seu modelo elétrico recém-chegado ao País, o Zoe, para testes de carsharing e, futuramente, pretende ampliar o projeto.

As parcerias, segundo Mendes, vão possibilitar redução de custos e de tempo de desenvolvimento de novos projetos, avanços tecnológicos, novos modelos de negócio. “Estamos numa fase de transformação para ser cada vez mais ágil e mais competitiva”, diz Mendes, que ressalta também a parceria com a GoEpik, que usa realidade virtual para treinar funcionários do setor de carrocerias.

Robô acompanha regulamentações

Outra montadora integrada a um espaço de inovação compartilhada é a Ford que, desde novembro, tem sala no inovabra habitat, criado pelo Bradesco no ano passado. A parceria mais avançada é com a Legalbot, que atua na área de compliance. Por meio de inteligência artificial, um robô desenvolvido pela startup verifica diariamente se há alteração nas regulamentações brasileiras que possam interferir no braço financeiro da empresa, o Ford Credit.

Constatada alguma mudança, o sistema envia e-mail de alerta para todas as áreas envolvidas. Antes, a consulta era feita por funcionários e tomava muito tempo. Outras parcerias na área de RH estão em estudo, informa a Ford. Em 2018 a matriz do grupo contabilizava 24 parcerias estratégicas na área de inovação. No mês passado comprou a Quantum Signal, especializada em robótica, sensores, simulação em tempo real e desenvolvimento de algoritmos para acelerar o desenvolvimento de carros autônomos.

Caminhão autônomo

Quem apostou na autonomia no Brasil foi a Mercedes-Benz. Em parceria com a Grunner, a empresa desenvolveu no ano passado um caminhão para recolhimento de cana que dispensa o motorista. Ari de Carvalho, diretor de Vendas e Marketing, diz que o processo de transbordo normalmente é feito por caminhões normais e tratores com carreta dirigidos por motoristas que, na maioria dos casos, não conseguem manter uma linha reta em todo o percurso da coleta.

Segundo Carvalho, as rodas dos veículos acabam passando por cima dos talos (mudas) de cana, destruindo parte da plantação da próxima safra. O caminhão autônomo tem sistema de georreferenciamento, mantém velocidade constante e distância entre as rodas mais larga para andar apenas nas valetas que intercalam a plantação. “O produtor que antes colhia 70 toneladas de cana por hectare hoje colhe 120 toneladas”, informa.

 Outra parceira da Mercedes-Benz é a TruckPad, desenvolvedora de programa que ajuda o caminhoneiro a localizar empresas que querem enviar cargas nas proximidades de onde estão. A montadora utiliza a plataforma para fazer pesquisas com motoristas e divulgar produtos e serviços. A Daimler, dona da Mercedes-Benz, era a companhia com maior número de parcerias com startups no ano passado – 58, empatada com a BMW que, no Brasil, ainda não tem nenhuma.

Startup gerada na GM

Nascida dentro da fábrica da General Motors, a Autaza desenvolveu um sistema de visão computacional que interpreta a qualidade da superfície do carro (portas, capô, carroceria) com uso de feixe de luz e inteligência artificial. Antes, a checagem era feita por pessoas e dependia de muito treinamento e capacitação para visualizar pequenas deformações na carroceria.

Hoje a Autaza é uma empresa independente, presta serviços para outras empresas e recebeu aporte do BNDES, que é dono de 35% da empresa. Carlos Sakuramoto, gerente de Tecnologia e Inovação da Engenharia de Manufatura da GM e co-autor da patente do sistema, informa que a startup também vai expandir o uso dessa tecnologia para outros setores, como o de aviação.

A montadora recebe royalties e tem preferência no desenvolvimento de novos produtos da Autaza. Nos EUA, a GM tem parceria com 44 empresas, segundo os dados da KPMG.

Com pouca atuação nesse segmento lá fora e no Brasil, a FCA Fiat Chrysler tem três parcerias atualmente na área de manufatura e informa que está acelerando projetos conjuntos. Em maio, em evento em que a 100 Open promoveu 470 reuniões entre startups e grandes empresas, houve 86 projetos selecionados para negociações. Segundo Levy, a FCA foi uma das empresas que mais participou dos encontros.

Novo Ranking

Embora estejam intensificando projetos, as montadoras brasileiras ainda estão distantes do movimento feito nos últimos anos por suas matrizes ao perceberam que o futuro do setor são os carros elétricos e autônomos. Cientes de que não conseguem trabalhar nesse ramo sozinhas, passaram a fazer diversas parcerias com startups e estão adquirindo empresas ligadas ao setor tecnológico.

“O setor automotivo ficou acomodado e, nos últimos anos, se voltou mais para aumento de eficiência da cadeia produtiva”, avalia Rafael Levy, um dos fundadores da 100 Open Startups, rede que conecta startups a grandes empresas para adoção da inovação aberta – termo usado quando a companhia aceita cooperação externa de startups, universidades e centros tecnológicos, entre outros.

“Apesar de sua grande importância para o País, o setor ainda não é bem representado no ranking de empresas mais engajadas no ecossistema de inovação”, diz Levy. No mercado há quatro anos, a 100 Open tem 8,8 mil startups inscritas em sua plataforma e 2,2 mil grandes empresas.

Desde 2016, a 100 Open divulga ranking com as 100 startups e as 50 empresas que mais fizeram parcerias nos últimos 12 meses. O mais recente deles, divulgado em julho, traz apenas uma montadora, a Renault, em 31º lugar. O grupo francês tem projetos em desenvolvimento com pelo menos 15 startups, alguns em fase de teste e outros já em aplicação.

A matriz da Renault Nissan tinha, em 2018, investimentos em 19 startups, segundo relatório da consultoria KPMG ainda não atualizado.

FONTE: TERRA