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Com modelo digital, banco entra enfim nas favelas

Pesquisa mostra que 30% dos moradores têm conta desse tipo
Por Álvaro Campos — Valor Econômico

Heliópolis, São Paulo, quase 45 mil habitantes. Maré, Rio de Janeiro, cerca de 130 mil habitantes. Complexo de Amaralina, Salvador, população de aproximadamente 86 mil pessoas. O que todas essas localidades têm em comum? São favelas com populações enormes, sem nenhuma agência bancária. Isso não significa, no entanto, que os moradores dessas comunidades não tenham acesso a serviços bancários. O modelo digital possibilitou o aumento no atendimento às classes C, D e E e, com a aceleração trazida pela pandemia, fez com que os bancos finalmente entrassem nas favelas. No total, o Brasil tem 13,1 mil favelas e 14 milhões de habitantes nelas. Um estudo feito pelo instituto Outdoor Social Inteligência e encomendado pela organização de impacto social G10 das Favelas mostra que 86% dos moradores das comunidades têm conta em banco e 30% deles dizem ter contas digitais. A maioria ainda recebe seus rendimentos em dinheiro vivo (55%), mas boa parte também recebe em conta salário (49%), Pix (34%) e “maquininhas” de cartão (18%). Dos 15 bancos mais citados, nove são digitais ou carteiras (“wallets”). O principal canal de atendimento é o aplicativo de celular, com 72% das menções.

Favela não é apenas um bairro pobre. Segundo a definição do IBGE, os “aglomerados subnormais” são uma forma de ocupação irregular de terrenos de propriedade alheia – públicos ou privados – para fins de habitação em áreas urbanas e, em geral, caracterizados por um padrão urbanístico irregular, carência de serviços públicos essenciais e localização em áreas com restrição à ocupação. Justamente por estarem em terrenos irregulares, não existe agência bancária dentro das favelas.

Gisele Telma da Silva, 39 anos, é comerciante autônoma, moradora de Heliópolis e usuária do Caixa Tem. Ela baixou o aplicativo no ano passado, para poder receber o auxílio emergencial, e depois acabou deixando em segundo plano a conta que tinha em um banco tradicional. “O aplicativo é simples e rápido, não tem burocracia. E é leve, não deixa meu celular pesado”, conta. Na sua lojinha de roupas, acessórios e artigos para o lar, ela usa uma maquininha de cartão da PagSeguro, mas não tem conta no Pagbank, até porque o aparelho está em nome de um dos seus fornecedores, em função de ela estar com o nome negativado. “Faz muito tempo que eu não vou a uma agência de banco, eu pago tudo via aplicativo”, diz. Segundo Emília Rabelo, fundadora do Outdoor Social, o fato de 30% dos moradores de favela utilizarem bancos digitais mostra o quanto essa população está antenada em novas formas de poupar e até mesmo investir o seu dinheiro. “Fomos pegos de surpresa ao ver que algumas fintechs recém-lançadas foram citadas pelos entrevistados. A favela consome, não é só assistencialismo ou bandidagem, como pensa muita gente. A maioria já está bancarizada, mas ainda consome somente serviços básicos.” A ascensão da favela não passou despercebida pelos bancos digitais. O Nubank, por exemplo, lançou recentemente uma campanha em parceria com influenciadores digitais para divulgar um serviço de compra e venda de ações dentro do aplicativo. Uma das iniciativas foi um funk em parceria com o canal do YouTube Kondzilla, com quase 65 milhões de inscritos. Apesar de voltada à temática de investimentos, a letra diz muito sobre o atual contexto. “Donos do pedaço, donos do pedaço / Olhando pra frente, porque a nossa gente agora também tem espaço / Donos do pedaço, donos do pedaço / Eu luto, conquisto, analiso, invisto, eu quero, eu posso, eu faço”, diz o refrão.

Tarses Borges Brandão, 25 anos, autônomo e morador da comunidade de Santa Cruz, em Salvador, tem conta no Nubank há pouco mais de um ano. Ele diz que uma das principais vantagens é não precisar pegar fila em banco e que começou a concentrar suas contas no aplicativo para economizar tarifas que pagava em outras instituições. “Atende todas as minhas necessidades. Dá para pagar boletos, fazer Pix, tem seguros, investimentos. Eu até tenho conta em outros bancos digitais, mas uso mais o Nubank”, relata. Emília aponta que a pesquisa também rechaça um outro mito, de que pessoas de baixa renda não sabem usar o cartão de crédito. Do total, 59% têm cartão e os usos mais comuns são para comprar alimentos (72%), roupas e sapatos (66%) e eletrônicos (46%). Os limites não são tão baixos quanto se poderia imaginar. A maior parte (44%) tem limite superior a R$ 1 mil. Apenas 14% dizem que têm medo de se endividar. “Eu vejo uma miopia dos bancos, que deveriam olhar a favela como uma potência. São consumidores que podem, sim, entrar na base de clientes dos bancos de maneira mais consistente e rentável”, diz a fundadora do Outdoor Social. O potencial de consumo nas favelas pesquisadas no estudo é estimado em R$ 9,956 bilhões. Bianca Silva, 29 anos, editora de conteúdo e moradora do Complexo da Maré, também tem uma instituição digital como seu principal banco, no caso, o Neon. Ela conta que chegou nele após tentar abrir conta em um banco tradicional e não conseguir por não ter um comprovante de renda. “Muita gente aqui usa bancos digitais, porque você consegue resolver tudo, e o aplicativo é intuitivo.” Ela tem cartão de crédito e diz que recentemente pegou um empréstimo pessoal para comprar um computador novo para conseguir trabalhar. “Eu achei que ia demorar para cair na conta, mas foi super rápido e em 30 minutos eles já tinham mandado toda a documentação no meu e-mail.”

Apesar do avanço dos bancos digitais, eles não são a única forma para o setor financeiro entrar nas favelas. Se é impossível construir uma agência – já que os terrenos não são regularizados -, uma forma de atendimento que tem avançado são os caixas eletrônicos. A TecBan,dona da rede Banco24Horas, tem 814 caixas dentro de favelas (em lojas, farmácias e outros tipos de estabelecimentos comerciais) e vai terminar o ano com 834 máquinas, o que representará um aumento de 17% sobre 2020 e de 35% em relação a 2019. Cada terminal oferece até 90 tipos de serviços, como saques, pagamentos, extratos e empréstimos. “Hoje, do nosso total de 24 mil caixas, 62% estão em áreas de classes C, D e E. Nós fomos para as favelas pelo modelo de segurança que existe hoje. Os terminais têm monitoramento, dispositivos eletrônicos, uma série de itens que garantem a segurança da transação”, comenta Marcos Mazzi, gerente executivo de autoatendimento. A rede do Banco24Horas é usada por mais de 150 instituições financeiras, sendo 55 bancos digitais e wallets. Considerando apenas essas instituições digitais, este ano já foram atendidos 430 mil clientes em favelas, com um total de 2,9 milhões de transações. Quando se incluem os bancos tradicionais, essas máquinas já atenderam 6,1 milhão de pessoas nas comunidades. O primeiro caixa eletrônico do Banco24Horas em uma favela foi instalado em 2000, na comunidade São Marcos, em Salvador. Para definir o local de um novo terminal, a empresa analisa dados de georreferenciamento, incluindo se aquela região tem acesso próximo a serviços financeiros. “Nós estamos exatamente em regiões afastadas ou onde não há acesso fácil a esses serviços. Dados internos nossos mostram que 82% das pessoas que sacam dinheiro realizam compra no próprio comércio local”, conta Mazzi. Em 2009, um caixa na Cidade de Deus, no Rio, chegou a ser “abraçado” pelos moradores.

A pesquisa do Outdoor Social ouviu 435 pessoas das cinco regiões do Brasil, 60% homens e 40% mulheres, acima de 18 anos. Entre as ocupações, 19% dizem trabalhar de forma autônoma, 18% atuam no setor de serviços, 14% são microempreendedores, 12% atuam no comércio e 14% estão desempregados. Parcelas menores são aposentados (4,8%), funcionários públicos (4,2%) e outros.

FONTE: https://valor.globo.com/financas/noticia/2021/10/27/com-modelo-digital-banco-entra-enfim-nas-favelas.ghtml