set 09

Colar robótico ajuda pacientes com esclerose lateral amiotrófica (ELA)

A doença neurodegenerativa tem como um dos sintomas a perda de força muscular e causa, com o tempo, a chamada %u201Cqueda da cabeça%u201D

Manter o pescoço ereto e estável pode parecer uma tarefa simples e inerente ao homem. Entretanto, para pessoas com esclerose lateral amiotrófica (ELA) não é bem assim. A doença neurodegenerativa tem como um dos sintomas a perda de força muscular e causa, com o tempo, a chamada “queda da cabeça”, posição de apoiar o queixo no peito. Um novo colar cervical tecnológico pode ser a chave para a melhora da qualidade de vida desses pacientes.

O projeto, desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Columbia em Nova York, apresenta um dispositivo robótico e confortável que incorpora sensores para ajustar a postura da cabeça de pacientes com ELA. O aparelho, apresentado este mês na revista Annals of Clinical and Translational Neurology, garantiu a restauração de 70% da faixa ativa de movimento da cabeça em testes com 21 voluntários.
Sunil Agrawal, autor principal do artigo e professor de engenharia mecânica e de medicina regenerativa e reabilitação da universidade norte-americana, aponta que os medicamentos existentes para tratamento apenas retardam modestamente a progressão da doença. “Embora não possamos curá-la neste momento, com o colar robótico podemos melhorar a qualidade de vida do paciente, aliviando os sintomas difíceis”, afirma.
A solução funciona com a interação de cinco equipamentos. Esse sistema é baseado, primeiramente, na captação de contrações musculares por eletrodos de EMG posicionados na parte de trás do pescoço do usuário do colar robótico. Esses eletrodos estão conectados a um receptor de sinal EMG que, por sua vez, está sincronizado a um microcontrolador. Ambos estão ligados a um computador que serve apenas para a visualização do sistema. O microcontrolador está conectado por um fio ao colar cervical e é a peça central do sistema.
As informações coletadas pelos eletrodos são passadas para o receptor de sinal, que repassa os dados para o microcontrolador. Por fim, o microcontrolador encaminha esses dados para o colar. Na prática, as informações passadas para o colar são quais movimentos o paciente deseja fazer. Ao captar a vontade do usuário, o colar robótico o ajuda (Veja infográfico).

Estratégias distintas

O sistema foi testado em 11 pacientes e 10 pessoas saudáveis. Nos testes, os voluntários foram instruídos a fazer movimentos monodirecionais de cabeça-pescoço, que incluíam flexão-extensão, flexão lateral e rotação axial. As análises mostraram que os participantes com ELA, mesmo nos estágios iniciais da doença, usam uma estratégia diferente de coordenação cabeça-pescoço, em comparação aos integrantes do outro grupo de voluntários. Segundo os cientistas, as medidas coletadas podem ser utilizadas clinicamente para melhor avaliar a queda da cabeça e a progressão da doença.
De acordo com Manoel Wilkley, mestre em doenças neuromusculares pela Universidade de São Paulo (USP) e médico neurologista da NeuroAnchieta, a solução sinaliza a possibilidade de uma série de vantagens clínicas. “Ao usar a medição simultânea do movimento com sensores no colar cervical e eletromiografia de superfície (EMG) dos músculos do pescoço, o dispositivo se torna uma nova ferramenta de diagnóstico para o movimento prejudicado da cabeça-pescoço. Ele também permite controlar ativamente os movimentos cervicais, além de manter a cabeça do paciente em postura neutra”, explica.
Os criadores apostam na possibilidade de usar o aparelho em abordagens para outras doenças. “O colar poderá ser útil para modular a reabilitação de pessoas que sofrem lesões cervicais no pescoço devido a acidentes de carro ou que têm um controle deficiente do pescoço em decorrência de doenças neurológicas, como a paralisia cerebral”, diz Sunil Agrawal.
Agora, a equipe trabalha em maneiras de aprimorar o dispositivo. “Na próxima fase de nossa pesquisa, caracterizaremos como a assistência ativa do colar cervical afetará os pacientes de ELA com queda de cabeça grave para realizar atividades da vida diária”, conta o cientista.
FONTE: CORREIO BRAZILIENSE