abr 29

China avança na AL com megaprojeto solar argentino

Por Cassandra Garrison | Reuters, de Jujuy (Argentina)

No cenário árido e lunar das terras montanhosas e ensolaradas do norte da Argentina está nascendo a maior fazenda de energia solar da América do Sul, com financiamento e tecnologia da China. Autoridades locais dizem que procuraram apoio na Argentina, nos EUA e na Europa, sem sucesso. Possíveis parceiros e financiadores se assustaram com o tamanho do projeto e com os problemas fiscais da província de Jujuy, uma das mais pobres da Argentina.

O Import-Export Bank, da China, viu uma oportunidade. A instituição, financiada pelo governo chinês, custeou 85% do projeto de quase US$ 400 milhões. Com juros anuais de 3%, ao longo de 15 anos, é um “dinheiro barato” para Jujuy, segundo uma fonte a par do acerto financeiro. A condição: a província tinha de comprar quase 80% do material de fornecedores chineses. Entre eles, está a Huawei, a gigante chinesa de telecomunicações, hoje na mira do presidente dos EUA, Donald Trump. O seu governo concluiu, sem apresentar provas, que os equipamentos da Huawei dão aos militares chineses um “acesso clandestina” para espionar usuários e sabotar redes. Em Jujuy, a empresa fornece os inversores solares, que transformam a energia dos painéis solares em corrente possível de ser usada. O projeto, chamado Cauchari, expõe a crescente influência de Pequim como financiador de grandes projetos em países emergentes que sofrem de falta de capital. E ajuda a China a solidificar sua posição como líder mundial em tecnologia de energias renováveis. Enquanto Trump aposta nos combustíveis fósseis e retira os EUA de alianças internacionais, a cada vez mais abrangente Iniciativa do Cinturão e da Rota (BRI, na sigla em inglês) vias colocar as empresas e inovações chinesas no centro do desenvolvimento da infraestrutura mundial, incluindo as fontes de energia do futuro. “É uma forma de expandir a força econômica controladora e a presença mundial cada vez maior da China, e isso progressivamente reorienta o mundo para fora do enfoque alinhado aos EUA e Europa dos últimos 50 anos”, disse Tim Buckley, diretor do Institute for Energy Economics and Financial Analysis, com sede nos EUA.

Essa tendência preocupa autoridades do governo Trump. O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, em discurso no Chile, em 12 de abril, atacou práticas “predatórias” de crédito da China, que, segundo críticos, deixam os países amarrados aos chineses. Pompeo alertou para o risco de segurança representado pela tecnologia chinesa, incluindo os equipamentos da Huawei, algo que poderia levar os EUA a deixar de compartilhar informações. “Não está bem colocar sistemas de tecnologia com a capacidade latente de pegar informações dos cidadãos do Chile, ou de qualquer outro país, e transferi-las para o governo do presidente Xi”, disse.

Mas na carente província de Jujuy, onde moram 750 mil pessoas, as autoridades não estão com humor para reprimendas. A Argentina fixou metas ambiciosas para a produção de energia renovável. E é a China, e não os EUA, que está aparecendo com dinheiro e tecnologia para ajudar, dizem elas. “A China […] foi quem abriu suas portas mais generosamente para financiar este projeto”, disse Carlos Oehler, presidente da Jemse, agência de energia de Jujuy, à Reuters. O bom relacionamento trazido pelo negócio solar levou Jujuy a também fazer outras compras de fornecedores chineses, incluindo um contrato para receber equipamentos de vigilância. O governador Gerardo Morales disse à Reuters que Jujuy e a província de Guizhou, no sul da China, criaram uma relação de “irmãs” que, confia ele, vai resultar em mais parcerias. A Huawei, maior fornecedora mundial de inversores solares, nega reiteradamente que represente qualquer risco de segurança. A mais de 4.000 metros acima do nível do mar, Cauchari é uma das maiores fazendas de energia solar do mundo. Espera-se que comece a alimentar a rede em agosto, enviando 300 megawatts de eletricidade, o suficiente para atender 120 mil casas. Uma expansão já planejada para 500 MW vai ampliar isso e elevar o custo total do projeto para US$ 551 milhões. Na estrada empoeirada e de fortes ventos que leva ao local, placas em espanhol e mandarim proclamam o envolvimento da construtora estatal chinesa PowerChina e da fabricante de equipamentos Shanghai Electric.

São apenas mais um indicador da crescente influência de Pequim na região. A China é o maior comprador de soja e de minério de ferro sul-americanos, entre outras commodities. Investidores chineses vêm comprando há anos participações em setores-chave da economia, como o de energia. Na Argentina, a China já financiou hidrelétricas e negocia um projeto de energia nuclear, que poderia usar o esquema do reator chinês Hualong One. A China já investiu US$ 5,7 bilhões em projetos de energia na Argentina, desde 2000, segundo dados do Global Development Policy Center, da Universidade de Boston. O presidente da Argentina, Mauricio Macri, formado nos EUA, participou em 2017, em Pequim, do primeiro fórum sobre a BRI, que também é conhecida como a Nova Rota da Seda, sinal da proximidade entre os dois países. Várias autoridades latino-americanas deverão participar do segundo fórum, hoje e amanhã, em Pequim. A China gastou mais de US$ 244 bilhões em projetos de energia no mundo desde 2000, sendo 25% disso na América Latina, segundo o Global Development Policy Center. A guinada de Jujuy em direção à China coloca em evidência as dificuldades dos EUA, cujos alertas sobre as armadilhas do financiamento chinês não são páreo para os recursos e o alcance de Pequim. Morales, o governador de Jujuy, viajou recentemente à China para discutir a ampliação de Cauchari com a PowerChina. Jujuy, com sua energia limpa prestes a entrar na rede e seu baixo risco de terremotos, tenta se colocar como local atrativo para empresas instalarem centros de dados. Morales disse que universidades chinesas vêm ajudando a província. “De uma hora para a outra, Jujuy é reconhecida na China”, disse. “Temos um caminho aberto lá.”

FONTE: https://www.valor.com.br/internacional/6225229/china-avanca-na-al-com-megaprojeto-solar-argentino