jun 19

“Cada vez mais, o Facebook fica com cara de fintech”, diz professor da FGV

Bruno Diniz, professor do curso de fintechs da Fundação Getulio Vargas, fala sobre a Libra, criptomoeda lançada pela empresa de Mark Zuckerberg

FACEBOOK LANÇA CRIPTOMOEDA CHAMADA LIBRA (FOTO: GETTY IMAGES)

O Facebook lançou nesta terça-feira (18/06) a Libra, sua moeda digital. Depois de quase um ano de suspense, a empresa de Mark Zuckerberg confirmou sua entrada no mercado das criptomoedas. Usando uma plataforma de blockchain para operar, a Libra permitirá que transferências entre usuários e, eventualmente, empresas sejam realizadas pelo Facebook Messenger e WhatsApp. A expectativa é que o serviço esteja disponível a partir 2020 – um site em português já está à disposição daqueles que quiserem ser os primeiros a adotar a novidade.

Com uma base de 2,4 bilhões de usuários ao redor do mundo, o Facebook dá um importante passo rumo ao mercado de fintechs. Para dar credibilidade à iniciativa, a empresa criou uma associação externa responsável pela governança da moeda. É a Libra Association, uma organização sem fins lucrativos que terá base em Genebra, na Suíça, e contará com a participação de grandes empresas, como UberVisa MercadoLibre, que investiram US$ 10 milhões cada uma para fazer parte do grupo.

Para comentar a novidade, Época NEGÓCIOS falou com Bruno Diniz, professor do curso de fintechs da Fundação Getulio Vargas (FGV) e Guilherme Horn, conselheiro da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs). “É algo comparável à criação do iOS pela Apple”, diz o Diniz. Na sua visão, movimento do Facebook rumo ao mercado financeiro era inevitável. “E acertado. Por mais que o momento não seja dos melhores por conta dos escândalos de privacidade, o que eles conseguiram fazer é bem interessante”, afirma. Horn concorda. “O conceito está muito bem estruturado”, diz.

Mais do que olhar para um novo filão de mercado, Diniz acredita que essa é uma virada de chave para o Facebook. Agora, a rede sai de um modelo de negócio prioritariamente publicitário para entrar de cabeça no mercado financeiro. “A medida transforma as interações sociais da rede em negócios. Cada vez mais, o Facebook fica com cara de fintech”, diz o professor.

Outro ponto destacado é o apoio de gigantes como Visa e Uber endossando a criptomoeda. “É interessante ver que algumas empresas estão aderindo à Libra de antemão. Sejam tradicionais ou inovadoras, elas sabem que devem ficar atentas e que esse é um movimento que não vai passar batido.” Do lado do Facebook, Diniz vê com bons olhos o fato de que, apesar de ser o principal beneficiário da Libra Association, a empresa não terá privilégios na governança.

Para Horn, a inserção do Facebook neste mercado traz credibilidade às criptomoedas – o que considera o maior desafio da tecnologia. “Reunir representantes do mundo digital e do mundo financeiro foi o grande mérito desse projeto”, afirma.

Imagens de como será a Calibra, carteira virtual do Facebook (Foto: Divulgação/Facebook)

Privacidade
No anúncio, a empresa também fez questão de destacar que a subsidiária Calibra, responsável pelas operações da Libra, não dividirá informações de conta ou dados financeiros com a rede social – “a não ser em casos específicos”, mas não há qualquer explicação do que seria um desses casos específicos.

Guilherme Horn (Foto: Dirso Barelli)

No comunicado, a empresa afirma que informações de conta e os dados financeiros de usuários não serão usados para aumentar a assertividade de anúncios na família de produto do Facebook. “Ao que parece, é uma empresa à parte. O Facebook sabe que a estrutura de governança é um assunto sério no setor financeiro”, afirma Diniz.

No Brasil

Bruno Diniz, professor do curso de fintechs da FGV (Foto: Reprodução/LinkedIn)

No Brasil, o professor da FGV destaca que o potencial da Libra é “muito grande”. Como o país tem mais de 127 milhões de usuários no Facebook e é a segunda nação que mais usa WhatsApp, atrás somente da Índia, dificilmente a aderência será pequena por aqui. “Quando você entra numa população sem conta em banco, mas com WhatsApp, o poder é enorme.”

Quanto à adaptação, Diniz acredita que a população brasileira tende aderir rapidamente a novas tecnologias. “Acho que se a interface for intuitiva como parece ser, o processo não será traumático.”

Horn também acredita no potencial do consumidor brasileiro. “O WhatsApp cruza todas as camadas sociais do nosso país. Acho que vai ser bom para a população com carência em serviços financeiros”, diz.

Blockchain
O professor também acredita que a novidade do Facebook vai além do mercado financeiro. Para ele, a Libra é a afirmação do blockchain. “Essa vai ser a grande solução da tecnologia, afetando quase bilhões de pessoas”, diz. Não só.

FONTE: ÉPOCA