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Big data mostra até quando funcionário ficará doente

Programas analisam idade, vício em cigarro, uso de medicamentos e histórico de diabetes e colesterol

No início do ano, corretora de seguros JLT alertou a uma de suas empresas clientes que corria riscos: entre seus 5 mil funcionários, 15 eram bombas-relógio, com alta iminência de infarto.

A JLT chegou a essa conclusão após desenvolver um programa chamado Meu BI, uma plataforma que cruza diferentes bancos de dados e detecta padrões de saúde das pessoas com um sistema de inteligência artificial. Qualquer procedimento de saúde que um funcionário faz com o plano de saúde da empresa cai na base de dados da plataforma –com exceção de prontuários, que são sigilosos.

É possível detectar quem tem alta probabilidade de infarto porque um algoritmo específico foi desenvolvido para identificar esse risco. Leva em consideração a idade, o IMC, o vício em cigarro, o uso de medicamentos para a pressão e o histórico de diabetes e colesterol dos funcionários.

Os 15 “bomba-relógio” tiveram soma alta, o que levou a JLT a informar sua segurada.

Novo PS do Hospital do Servidor Estadual que foi totalmente adaptado para atender idosos
Cruzamento de dados permite detectar quem tem alta probabilidade de infarto – Davi Ribeiro/Folhapress

Com a tecnologia, que tem a base desenvolvida pela Microsoft, é possível identificar possíveis diabéticos (a depender da frequência e do tipo de exame a que se submetem), obesos (se o número de cirurgias bariátricas é alto) e gestantes que vão para a UTI neonatal.

Com informações precisas, a segurada decide como gerenciar seus gastos. Pode oferecer uma parceria com uma academia e promover programas educativos para grávidas.

“Conseguimos saber se a pessoa faz exames de colesterol, não se o índice está baixo ou alto, o tipo de cirurgia que fez, qual remédio tomou ou quantos dias ficou no quarto. Mas as empresas veem os dados, não os nomes”, diz Gabriela Agapito, responsável pelo projeto, diretora da JLT Brasil.

Uma estimativa da IBM, de 2017, diz que produzimos 2,5 quintilhões de bytes em dados por dia, sendo 80% desestruturados (como tuítes, emails e fotos). As empresas que estruturam, organizam e analisam registros chegam a padrões de consumo e comportamento. Com inteligência artificial, conseguem prever cenários.

Uma ferramenta lançada pela Neoway, empresa de big data, e a Tendências, consultoria econômica, permite que os clientes explorem o potencial de consumo para 140 produtos nos municípios brasileiros.

Chamado de Purchasing Power, o software coleta informações de 35 milhões empresas e de mais de 205 milhões de pessoas. Para chegar no “mercado potencial” de cada produto, usa informações como endereço e renda salarial estimada dos cidadãos.

Se uma pessoa quiser abrir uma rede de salões de beleza em São Paulo, descobre que é mais vantajoso em Campinas, Guarulhos e São Bernardo do Campo. Se a ideia for um açougue, há mais potencial para consumo de carne de boi de segunda em Rondonópolis do que em Várzea Grande no Mato Grosso.

“Temos 3 mil fontes públicas, fora as informações de parceiros. A ferramenta traça uma faixa de renda para cada segmento de consumo dos municípios brasileiros e dá mais de 2,5 milhões de possibilidades”, diz Cristina Penna, da Neoway.

Os big data são alimentados com dados chamados públicos, disponibilizados pelo governo na internet.
São resultados da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), da POF (Pesquisa  de Orçamentos Familiares), do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), além de registros de cartório, processos judiciais e juntas comerciais.

Não há lei que proíba esse tipo de publicação e que restrinja seu uso comercial.

A Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, que passa a valer em fevereiro de 2020, não acabará com o big data e nem impedirá o uso desses dados. Na visão de especialistas, pode alterar parte do funcionamento desse tipo de mercado, ao menos no que tange à transparência.


DINÂMICA DE REGISTRO DAS INFORMAÇÕES

O que é coletado?
Dados cadastrais, como nome completo, endereço, CPF, data de nascimento e nome de parentes; e dados menos óbvios, como endereços de familiares, multas, histórico empregatício e faixa salarial.

O que é feito com os dados?
Empresas criam grupos de consumo segmentados e oferecem as informações a outras empresas, que podem direcionar produtos de forma assertiva ou tomar decisões estratégicas

Posso impedir a coleta?
Não. São dados divulgados pelo próprio governo. Pode minimizar a captura ao optar por navegadores com maior proteção à privacidade e ao apagar contas antigas. Em caso de prejuízo, a saída é recorrer à Justiça

Fonte: Folha de S.Paulo, 15 de outubro de 2018.