jun 12

As startups que pretendem te dar “vida após a morte”

Duas empresas estão explorando os rastros digitais deixados pelas pessoas em vida para recriar seus clones virtuais

Reprodução de imagem do episódio da série Black Mirror em que a personagem “encomenda” um avatar do marido

Em que lugar você estava quando o Brasil levou sete gols da Alemanha? Quem se formou contigo na faculdade? Quando exatamente começou a trabalhar? E quando foi demitido? O que sentiu quando levei aquele fora?

Você não precisa mais se lembrar do que fez no verão passado. Basta checar seus perfis no Facebook, Linkedin, Instagram. Se você não é um daqueles eremitas virtuais, sua história provavelmente está toda lá, em imagens, textos, comentários, likes, check-ins… Isso sem mencionar suas trocas de e-mails e mensagens via WhatsApp com parentes e amigos, essas sim, capazes de contar sua história sem filtros.

Se esse cenário parece um pouco assustador, imagine agora reunir os terabytes da sua vida em um programa de inteligência artificial. Suas experiências, tudo que você fez, pensou e sentiu durante anos ajudarão a criar um robô que conversa como você.

Parabéns, seu avatar acabou de nascer.

Essa tecnologia já existe há algum tempo. Mas o que antes estava restrito a alguns centros de pesquisa avançada, agora já ensaia uma inserção entre pessoas comuns. É o caso do Eterni.me, aplicativo que promete criar sua cópia virtual, capaz inclusive de emular sua voz.

Ainda em versão beta, o aplicativo coleta suas informações de duas formas: uma delas é por meio do modo “passivo”, em que o usuário concede permissão para que o Eterni.me acesse seus perfis em outras plataformas, como Facebook e Instagram. Com isso, o aplicativo passa a monitorar seus comentários, fotos publicadas, interações, amigos etc.

No entanto, é na coleta “ativa” que o Eterni.me pretende ir além de um banco de dados. “O grande barato desse projeto é que o aplicativo interage com seus usuários por meio de perguntas”, conta Marius Ursache, fundador da Eterni.me, ao NeoFeed.

“Por exemplo, se o usuário publica uma foto no Instagram com alguém que não parece fazer parte do seu círculo social, o aplicativo vai perguntar: ‘quem é essa com você na foto?’”. E o usuário poderá, então, responder: é uma moça bacana que conheci ontem na faculdade. Seu nome é tal’. E a conversa continua, com a pergunta do aplicativo: ‘que interessante, conte-me mais sobre ela’. E por aí vai”, diz o empresário.

Quando foi anunciado pela primeira vez, há cerca de quatro anos, o Eterni.me causou rebuliço na imprensa internacional ao ser apresentado como uma espécie de “aplicativo dos mortos”. O título é, de certa forma, compreensível: uma das possibilidades de uso está justamente em poder interagir com o avatar de alguém que já morreu.

A semelhança do Eterni.me com um episódio de Black Mirror, a série futurista da Netflix, em que uma mulher recria virtualmente seu noivo depois de perdê-lo em um acidente, potencializou a repercussão do aplicativo. Apesar da publicidade, Marius se incomodou com o rótulo de app dos mortos.

“Não estamos criando um clone ou algo assustador, mas sim uma interface para acessar memórias”, rebate o empresário. “Nosso alvo são pessoas que querem preservar suas memórias digitais para sua família e para a eternidade. É como acessar os antigos diários de nossos bisavós, só que virtualmente”, completa Marius.

Uma das possibilidades de uso está justamente em poder interagir com o avatar de alguém que já morreu

Ele reconhece, porém, que a linha é tênue. Suponhamos que um usuário do Eterni.me comece hoje a alimentar o aplicativo com todos os seus dados. Daqui a 80 anos, seus netos poderão acessar suas fotos, percorrer sua trajetória, acompanhar suas viagens, como no diário virtual descrito por Marius. Mas essa relação pode uma dinâmica, digamos, mais intensa.

Os netos podem acabar buscando o avô no avatar de forma frequente, como se ele ainda estivesse vivo. Em relações parentescas mais próximas, como de um pai que perde o filho, a situação tende a se complicar ainda mais. A tentação em ficar ligado ao robô é grande.

O amigo “virou” robô

A russa Eugenia Kuyda passou exatamente por isso. Em novembro de 2015, ela estava a trabalho em Moscou quando recebeu a mensagem de texto: “Roman sofreu um acidente”. Seu melhor amigo, aquele com quem ela trocava mensagens diariamente, havia sido atropelado. Chegou a ser levado ao hospital, mas não sobreviveu. “Foi a primeira vez que perdi alguém tão próximo. Fiquei em choque”, diz ao NeoFeed.

Nos dias seguintes, Eugenia passaria horas olhando fotos antigas de Roman, das viagens que haviam feito juntos. Mas ela queria mais que isso e começou, então, a ler as trocas de mensagens, os conselhos, as brincadeiras. E se ela pudesse criar um bot de seu amigo?

Eugenia já trabalhava com inteligência artificial, desenvolvendo bots para restaurantes, desses que recebem pedidos virtuais. Foram dois meses conversando com parentes e amigos de Roman, que cederam trocas de e-mails, mensagens, fotos e vídeos, tudo que pudesse alimentar o programa.

Até que um dia ela digitou: Oi Roman, você está por aí?

As conversas aconteciam em russo, e muitas vezes as respostas eram genéricas, mas em diversas outras situações as mensagens pareciam de fato ter sido escritas por Roman. Como nesse caso:

Eugenia: Quem é seu melhor amigo?

Roman: Não seja tão insegura

Todos queriam trocar mensagens com Roman: amigos, familiares e até mesmo pessoas que nem chegaram a conhecê-lo. Eugenia resolveu, então, hospedar o robô na internet, de modo a que o público em geral pudesse interagir com ele.

Todos queriam trocar mensagens com Roman: amigos, familiares e até mesmo pessoas que nem chegaram a conhecê-lo

Foi a partir dessas trocas de mensagens que Eugenia teve a ideia de um novo projeto. “Em nenhum momento pensei em transformar o bot do Roman em um produto ou negócio. Mas fiquei impressionada com o tanto que as pessoas expunham seus sentimentos, suas angústias e conquistas para um robô”, completa.

Nascia ali a ideia da Replika, um aplicativo de auto-ajuda que soma mais de 4 milhões de downloads. “Não temos lucro e nem sei se teremos um dia. Fazemos isso pelo projeto”, conta Eugenia.

No caso da Eterni.me, também não há lucro, investidores e tampouco o aplicativo foi lançado oficialmente. Marcus conta que há cerca de 40 pessoas usando a versão beta, e que não há pressa.

Para ele, a riqueza de um avatar está nos detalhes da coleta, em um jeito de escrever, num like, numa foto. “A gente não percebe, mas nosso legado digital está em ações rotineiras. O que nós estamos tentando fazer é juntar tudo isso para recriar seu gêmeo virtual”, diz.

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FONTE: NEO FEED