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63% da população rural na América Latina não tem acesso à internet

Na zona urbana, são 29%

Estudo do BID, IICA e Microsoft

Em todo o Brasil, cerca de 10% não têm acesso à internet

Quase 2/3 da população rural da América Latina e do Caribe não têm acesso à internet com qualidade mínima. São 77 milhões de pessoas desconectadas –63% da população. É o que mostra 1 levantamento do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) junto à Microsoft e ao IICA (Instituto Interamericano de Cooperação para a Agricultura).

O estudo “Conectividade Rural na América Latina e no Caribe – Uma Ponte para o Desenvolvimento Sustentável em Tempos de Pandemia” foi divulgado nesta 5ª feira (29.out.2020). Eis a íntegra (15 MB).

Em contrapartida à situação na zona rural, 29% da população urbana não têm acesso à internet. Uma diferença de 34 pontos percentuais. Ao todo, há na América Latina 244 milhões de pessoas desconectadas, segundo dados de 2020 do Banco de Desenvolvimento da América Latina. O número equivale a 32% da população.

Professor e pesquisador da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Direito Rio, e organizador do livro “Governança e Regulações da Internet na América Latina”, Luca Belli diz que a pandemia acentuou essa diferença.

Se tornou ainda mais evidente nesse momento, porque a conexão se tornou vital. Se você não tem internet, você não pode estudar, não pode trabalhar, não tem acesso às políticas públicas. Você não tem acesso à cidadania”, afirma.

FALTA DE INVESTIMENTO

O estudo do BID, IICA e Microsoft lista as principais dificuldades para tornar a internet acessível nas regiões rurais. São elas:

  • custos elevados de investimento e pouco custo-benefício para as operadoras;
  • problemas de infraestrutura (falta de eletricidade, condições das estradas, entre outros);
  • dificuldades para usar fundos de acesso universal;
  • e falta de estímulos de investimentos.

Para Belli, a diferença é resultado da falta de interesse da iniciativa privada. O mercado não investe nas áreas rurais –e até em áreas urbanas de baixa renda– por causa da falta de retorno do investimento.

Engenheiro especializado em telecomunicações e professor da Faap (Fundação Armando Alvares Penteado), Marcelo Succi diz que manter a internet em áreas urbanas é mais interessante para as operadoras do que levar às zonas rurais.

Ele afirma que nos grandes centros há a infraestrutura necessária para disponibilizar conexões –enquanto seria necessário construí-la em muitas das regiões rurais. “Na área rural, tem que levar fibra óptica, energia, antena, comunicação de rádio. É um custo de infraestrutura. Só vai se pagar se tiver clientes”, diz. A baixa densidade populacional em áreas rurais também pode fazer com que não haja o número suficiente de clientes para que haja retorno do investimento.

O pesquisador da FGV Direito Rio Luca Belli afirma que a chegada do 5G pode acentuar a desigualdade entre zonas urbanas e rurais. “O 5G é uma infraestrutura extremamente cara para ser criada e implementada. Vai ser criada só nas zonas centrais das cidades de mais alta renda”, diz. Segundo ele, nas áreas rurais “já não tem investimento para 3G ou 4G”.

O engenheiro e professor da Faap Marcelo Succi diz que “o problema é mais embaixo“. “Se você não tem nem água para tomar banho (3G,4G), não vai nem sentir a diferença se o seu vizinho tem água quente disponível para ele (5G)“, afirma.

SOLUÇÕES

O levantamento aponta como soluções para a ausência de conexão em áreas rurais parcerias público-privadas, alianças entre o setor público e cooperação internacional e criação de redes comunitárias –pessoas de uma mesma comunidade que se unem para trazer internet à região que vivem.

Succi afirma que uma estratégia importante para levar conexões às zonas rurais é por meio da regulamentação. O governo dos países poderia fazer acordos com as empresas privadas para que a internet chegasse nesses locais.

Já o pesquisador Luca Belli afirma que nas últimas décadas foram feitas parcerias público-privadas para tentar conectar as áreas rurais, mas isso não surtiu efeito. Afirma que a criação de redes comunitárias tem sido promissora.

Belli também diz que é necessário procurar novas soluções. Ele cita como exemplo o projeto Starlink de Elon Musk: 1 novo serviço via satélites que busca fornecer internet por baixo custo para todo o planeta. O pesquisador afirma que governos latino-americanos e caribenhos poderiam criar prêmios em busca de propostas inovadoras.

Em relação ao Brasil, o pesquisador da FGV Direito Rio diz que “as iniciativas são parciais, fragmentadas e não muito sustentáveis”“É muito difícil ter mudanças estruturais”, diz.

SITUAÇÃO POR PAÍS

O que me chama a atenção é que o Brasil em comparação aos outros países da América latina se encontra em uma melhor situação. Ele que está puxando o grupo“, diz o engenheiro e professor da Faap.

O estudo dividiu os países latino-americanos em 3 categorias:

  • Baixa conectividade rural: Belize, Bolívia, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Nicarágua, Peru e Venezuela. Entre 71% e 89% das populações rurais destes países juntas não têm acesso à internet significativo.
  • Média conectividade rural: Argentina, Equador, México, Paraguai, República Dominicana, Trinidad e Tobago e Uruguai. Entre 64% e 71% das populações rurais destes países juntas não acessam à internet com o mínimo de qualidade.
  • Alta conectividade rural: Bahamas, Barbados, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica e Panamá. Entre 53% e 63% das populações rurais destes países juntas não possuem serviços significativos de internet.

FONTE: https://www.poder360.com.br/tecnologia/63-da-populacao-rural-na-america-latina-nao-tem-acesso-a-internet/